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Retrato de um jovem legionário


Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

22/06/2009 | 07:00


A transformação de um garoto feio, desajeitado e talentoso em cantor mais popular de sua geração ganha registro à altura do ídolo. Trata-se da recém-lançada biografia Renato Russo - O Filho da Revolução (Agir, 416 págs., R$ 47, em média), escrita pelo jornalista Carlos Marcelo.

Durante nove anos de criteriosa pesquisa, o autor realizou cerca de 100 entrevistas com familiares, anônimos que compartilharam a intimidade do músico e amigos famosos, entre eles Dado Villa-Lobos, Marcelo Rubens Paiva e Tony Belloto.

Desde o início do processo de apuração, o objetivo foi reconstituir os primeiros passos profissionais do vocalista do Legião Urbana e o contexto histórico em que cresceu o intérprete, nascido Renato Manfredini Junior, no Rio de Janeiro, em 1960.

"Sempre me interessou essa ideia de traçar um retrato do artista quando jovem. O Renato cantava muito sobre a juventude e depois percebi também que ele nasceu no mesmo ano em que Brasília foi fundada. Quando chegou à cidade, em 1973, os dois eram adolescentes", explica o autor.

Leitor voraz desde a infância, o astro foi uma criança que não deixou de aproveitar os prazeres típicos da idade. Gostava de andar de carrinho de rolimã e brincar nas ruas da Ilha do Governador, bairro carioca em que se divertia com os primos e a irmã Carmem Teresa, dois anos mais nova.

Entre 1967 e 1969, morou com a família em Nova York. O pai, economista do Banco do Brasil, ganhou uma bolsa de estudos e transferiu-se para a metrópole norte-americana. Logo, o menino adquiriu fluência no inglês, idioma que lecionou anos mais tarde.

Reclusão - Aos 15 anos, foi diagnosticado com epifisiólise, doença de caráter virótico que provoca o desgaste da cartilagem que conecta o fêmur à bacia. Sofrendo com dores lancinantes, amenizadas pela morfina, tornou-se introspectivo e buscou refúgio na música e na literatura (o sobrenome artístico Russo homenageia os filósofos Bertrand Russell e Jean-Jacques Rousseau). Nessa fase, pouco antes de fundar o primeiro grupo punk brasiliense, o Aborto Elétrico, escreveu sobre bandas imaginárias em que era o líder.

"Ele passou por um período difícil, mas de muita imaginação, em que ficou praticamente um ano e meio imóvel. Lia compulsivamente as biografias do rock e sabia os passos que Bob Dylan e os Beatles tinham dado. Foi quando criou a 42º Street Band. Hoje em dia, Renato seria uma Wikipédia ambulante", comenta Carlos Marcelo.

Tumulto - Farto de manuscritos e imagens inéditas - como a de um filme experimental em que o cantor atuou, em 1993 - o livro traz relato minucioso do tumultuado show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1988. Amparada pelo sucesso do disco Que País é Esse?, a banda estava no auge e o governo do Distrito Federal tratou de receber os roqueiros como filhos pródigos que voltavam ao lar.

Entretanto, falhas no policiamento e deficiências na organização quase resultaram em tragédia. Depois de ser agarrado por um homem descontrolado, de reclamar de bombinhas de São João arremessadas ao palco e de tentar apaziguar as brigas constantes na plateia, o músico encerrou a apresentação.

Enfurecidos com essa atitude, fãs arrancaram cercas metálicas, botaram fogo em lonas usadas para proteger o gramado e apedrejaram ônibus. Resultado: 200 pessoas feridas e 58 presas.

"Se houve uma falha do Renato nesse show, especificamente, foi ter adotado um tom professoral. Em um momento, ele puniu os fãs dizendo que não ia tocar três músicas. Ou seja, na cabeça dele, estava falando para os alunos que tinha na Cultura Inglesa ou para o público dos primeiros shows. Não se deu conta de que estava diante de 50 mil pessoas".

O controverso espetáculo é descrito na abertura e no encerramento da biografia, que deixa em segundo plano a abordagem de acontecimentos posteriores como o nascimento do filho de Renato, Giuliano, e a descoberta do cantor de que era portador do vírus da Aids, doença que o vitimaria em 1996.

Sem cair na armadilha da mitificação, Carlos Marcelo, editor-executivo de jornal brasiliense, descreve com sensibilidade a relação com as drogas, a homossexualidade e os dramas existenciais do biografado.



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Retrato de um jovem legionário

Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

22/06/2009 | 07:00


A transformação de um garoto feio, desajeitado e talentoso em cantor mais popular de sua geração ganha registro à altura do ídolo. Trata-se da recém-lançada biografia Renato Russo - O Filho da Revolução (Agir, 416 págs., R$ 47, em média), escrita pelo jornalista Carlos Marcelo.

Durante nove anos de criteriosa pesquisa, o autor realizou cerca de 100 entrevistas com familiares, anônimos que compartilharam a intimidade do músico e amigos famosos, entre eles Dado Villa-Lobos, Marcelo Rubens Paiva e Tony Belloto.

Desde o início do processo de apuração, o objetivo foi reconstituir os primeiros passos profissionais do vocalista do Legião Urbana e o contexto histórico em que cresceu o intérprete, nascido Renato Manfredini Junior, no Rio de Janeiro, em 1960.

"Sempre me interessou essa ideia de traçar um retrato do artista quando jovem. O Renato cantava muito sobre a juventude e depois percebi também que ele nasceu no mesmo ano em que Brasília foi fundada. Quando chegou à cidade, em 1973, os dois eram adolescentes", explica o autor.

Leitor voraz desde a infância, o astro foi uma criança que não deixou de aproveitar os prazeres típicos da idade. Gostava de andar de carrinho de rolimã e brincar nas ruas da Ilha do Governador, bairro carioca em que se divertia com os primos e a irmã Carmem Teresa, dois anos mais nova.

Entre 1967 e 1969, morou com a família em Nova York. O pai, economista do Banco do Brasil, ganhou uma bolsa de estudos e transferiu-se para a metrópole norte-americana. Logo, o menino adquiriu fluência no inglês, idioma que lecionou anos mais tarde.

Reclusão - Aos 15 anos, foi diagnosticado com epifisiólise, doença de caráter virótico que provoca o desgaste da cartilagem que conecta o fêmur à bacia. Sofrendo com dores lancinantes, amenizadas pela morfina, tornou-se introspectivo e buscou refúgio na música e na literatura (o sobrenome artístico Russo homenageia os filósofos Bertrand Russell e Jean-Jacques Rousseau). Nessa fase, pouco antes de fundar o primeiro grupo punk brasiliense, o Aborto Elétrico, escreveu sobre bandas imaginárias em que era o líder.

"Ele passou por um período difícil, mas de muita imaginação, em que ficou praticamente um ano e meio imóvel. Lia compulsivamente as biografias do rock e sabia os passos que Bob Dylan e os Beatles tinham dado. Foi quando criou a 42º Street Band. Hoje em dia, Renato seria uma Wikipédia ambulante", comenta Carlos Marcelo.

Tumulto - Farto de manuscritos e imagens inéditas - como a de um filme experimental em que o cantor atuou, em 1993 - o livro traz relato minucioso do tumultuado show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1988. Amparada pelo sucesso do disco Que País é Esse?, a banda estava no auge e o governo do Distrito Federal tratou de receber os roqueiros como filhos pródigos que voltavam ao lar.

Entretanto, falhas no policiamento e deficiências na organização quase resultaram em tragédia. Depois de ser agarrado por um homem descontrolado, de reclamar de bombinhas de São João arremessadas ao palco e de tentar apaziguar as brigas constantes na plateia, o músico encerrou a apresentação.

Enfurecidos com essa atitude, fãs arrancaram cercas metálicas, botaram fogo em lonas usadas para proteger o gramado e apedrejaram ônibus. Resultado: 200 pessoas feridas e 58 presas.

"Se houve uma falha do Renato nesse show, especificamente, foi ter adotado um tom professoral. Em um momento, ele puniu os fãs dizendo que não ia tocar três músicas. Ou seja, na cabeça dele, estava falando para os alunos que tinha na Cultura Inglesa ou para o público dos primeiros shows. Não se deu conta de que estava diante de 50 mil pessoas".

O controverso espetáculo é descrito na abertura e no encerramento da biografia, que deixa em segundo plano a abordagem de acontecimentos posteriores como o nascimento do filho de Renato, Giuliano, e a descoberta do cantor de que era portador do vírus da Aids, doença que o vitimaria em 1996.

Sem cair na armadilha da mitificação, Carlos Marcelo, editor-executivo de jornal brasiliense, descreve com sensibilidade a relação com as drogas, a homossexualidade e os dramas existenciais do biografado.

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