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Ribeirão Pires é Seattle do ABC


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

18/05/2002 | 15:50


Os roqueiros brasileiros tiveram Brasília nos anos 80. Os norte-americanos e todos os outros que se conhecem por grungers tiveram a Seattle há dez anos. E, na aurora do século XXI, o Grande ABC deposita em Ribeirão Pires uma baita confiança sobre a produção do rock regional. Estância turística, pérola da serra e, conforme a piada local, cidade das mil bandas.

   Exagerados que adoram um número inventado. “Essa é uma piada que pintou com um lojista de Santo André”, diz Márcio Santiago, ou informalmente Dudu, funcionário da Gerência de Cultura, ligada à Secretaria de Participação Cidadã do município. “Aconteceu quando um dos músicos daqui foi à loja e o atendente (ao saber que o rapaz era de Ribeirão Pires) soltou: Ah, Ribeirão! A cidade das mil bandas!”, afirma Dudu, também contrabaixista do grupo Bulletproof.

   A lenda hiperbólica veio de fora para dentro. A atividade musical da cidade, contudo, procura o vice-versa, migrar para o “mercado exterior” do rock paulista. Ambição já alcançada pela Randal Grave, grupo ribeiro-pirense especializado no ska e empossado como grã-banda depois de abrir recentes shows dos norte-americanos do Voodoo Glow Skulls e do Mustard Plug em São Paulo.

   Ultrapassar essa barreira é uma exceção. “Alguns bares e casas de shows em São Paulo, Santo André e mesmo em Ribeirão mantêm as portas muito estreitas para bandas novas”, diz Dudu. A regra então passa a ser a exploração do mercado doméstico. No mês passado, foi realizada para um público de 4 mil pessoas a primeira edição do JuntaZé, uma miniatura serrana do Lollapalooza que reuniu as bandas Bulletproof, Cão Careca e Worms – todas de Ribeirão – e as convidadas Sapo Banjo e Lingô. Confundem-se o espírito indie e um cooperativismo amador na coqueteleira do JuntaZé, organizado pelos músicos.

   O clichê da garagem vale como nunca. O número de estúdios construídos no município se restringe a três. “A média de preço por hora de estúdio é de R$ 20”, afirma Dudu. Anos-luz dos dividendos de Charlie Brown Jr. e Planet Hemp, os roqueiros da cidade economizam os reais em estúdio e apelam para a casa dos músicos. A vizinhança se descabela, conta Dudu. “Nós já fomos expulsos da casa do nosso vocalista; agora, revezamos entre a minha e a do baterista.” Roberto Lima, gerente de cultura da Secretaria, brinca: “Em Ribeirão, periga existir mais bandas do que vizinhos.”

Aos números: a Prefeitura de Ribeirão Pires contabiliza no Sexta Básica – projeto que organiza shows mensais com traços altruístas – 59 bandas inscritas. “Dessas, 85% são de rock”, diz Dudu. A média de idade dos roqueiros gira entre 17 e 20 anos, mas há a turma dos “tiozinhos”. “A Crossfire, banda de blues, tem integrantes que já beiram os 40 anos.” Dos 104.508 habitantes do município (segundo dados do IBGE), quem não toca no Sexta Básica pode estar na platéia. Cada edição do projeto tem levado 300 pessoas – com picos de 400 – ao Teatro Euclides Menato, com capacidade para 200. “Infelizmente, alguns ficam de fora”. Com investimentos anuais da Prefeitura avaliados em R$ 60 mil por Roberto Lima, fica cada dia mais difícil um ribeiro-pirense desconhecer esse “tal de roque enrow”.



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Ribeirão Pires é Seattle do ABC

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

18/05/2002 | 15:50


Os roqueiros brasileiros tiveram Brasília nos anos 80. Os norte-americanos e todos os outros que se conhecem por grungers tiveram a Seattle há dez anos. E, na aurora do século XXI, o Grande ABC deposita em Ribeirão Pires uma baita confiança sobre a produção do rock regional. Estância turística, pérola da serra e, conforme a piada local, cidade das mil bandas.

   Exagerados que adoram um número inventado. “Essa é uma piada que pintou com um lojista de Santo André”, diz Márcio Santiago, ou informalmente Dudu, funcionário da Gerência de Cultura, ligada à Secretaria de Participação Cidadã do município. “Aconteceu quando um dos músicos daqui foi à loja e o atendente (ao saber que o rapaz era de Ribeirão Pires) soltou: Ah, Ribeirão! A cidade das mil bandas!”, afirma Dudu, também contrabaixista do grupo Bulletproof.

   A lenda hiperbólica veio de fora para dentro. A atividade musical da cidade, contudo, procura o vice-versa, migrar para o “mercado exterior” do rock paulista. Ambição já alcançada pela Randal Grave, grupo ribeiro-pirense especializado no ska e empossado como grã-banda depois de abrir recentes shows dos norte-americanos do Voodoo Glow Skulls e do Mustard Plug em São Paulo.

   Ultrapassar essa barreira é uma exceção. “Alguns bares e casas de shows em São Paulo, Santo André e mesmo em Ribeirão mantêm as portas muito estreitas para bandas novas”, diz Dudu. A regra então passa a ser a exploração do mercado doméstico. No mês passado, foi realizada para um público de 4 mil pessoas a primeira edição do JuntaZé, uma miniatura serrana do Lollapalooza que reuniu as bandas Bulletproof, Cão Careca e Worms – todas de Ribeirão – e as convidadas Sapo Banjo e Lingô. Confundem-se o espírito indie e um cooperativismo amador na coqueteleira do JuntaZé, organizado pelos músicos.

   O clichê da garagem vale como nunca. O número de estúdios construídos no município se restringe a três. “A média de preço por hora de estúdio é de R$ 20”, afirma Dudu. Anos-luz dos dividendos de Charlie Brown Jr. e Planet Hemp, os roqueiros da cidade economizam os reais em estúdio e apelam para a casa dos músicos. A vizinhança se descabela, conta Dudu. “Nós já fomos expulsos da casa do nosso vocalista; agora, revezamos entre a minha e a do baterista.” Roberto Lima, gerente de cultura da Secretaria, brinca: “Em Ribeirão, periga existir mais bandas do que vizinhos.”

Aos números: a Prefeitura de Ribeirão Pires contabiliza no Sexta Básica – projeto que organiza shows mensais com traços altruístas – 59 bandas inscritas. “Dessas, 85% são de rock”, diz Dudu. A média de idade dos roqueiros gira entre 17 e 20 anos, mas há a turma dos “tiozinhos”. “A Crossfire, banda de blues, tem integrantes que já beiram os 40 anos.” Dos 104.508 habitantes do município (segundo dados do IBGE), quem não toca no Sexta Básica pode estar na platéia. Cada edição do projeto tem levado 300 pessoas – com picos de 400 – ao Teatro Euclides Menato, com capacidade para 200. “Infelizmente, alguns ficam de fora”. Com investimentos anuais da Prefeitura avaliados em R$ 60 mil por Roberto Lima, fica cada dia mais difícil um ribeiro-pirense desconhecer esse “tal de roque enrow”.

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