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Violência vira cotidiano em escolas


Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

25/04/2005 | 11:16


A violência vista nas ruas também se aprende nas escolas. Agressão, tráfico de drogas, violência sexual, explosão de bombas, assalto e até homicídio fazem parte do rol de crimes que ocorrem do portão para dentro de colégios da região e de todo o Estado. Os próprios alunos, muitas vezes, cometem os delitos. As vítimas são colegas, professores, funcionários e, invariavelmente, o sistema de Educação do país.

Só em escolas estaduais, que representam 70% de todo o sistema de ensino no Estado de São Paulo, ocorreram neste ano 591 casos de agressões, 336 furtos, um caso de violência sexual, 103 explosões de bombas, 28 incêndios criminosos, 34 assaltos e dois homicídios. Prefeituras da região não informaram à reportagem dados sobre o índice de crimes nas escolas municipais.

Os números de crimes nas escolas do Estado poderiam ser maiores se todos as vítimas comunicassem os casos à polícia. Stefany Silva Lisboa, 16 anos, aluna da EE (Escola Estadual) Américo Brasiliense, no Centro de Santo André, está tão acostumada com a realidade nas escolas que nem se incomoda em registrar ocorrências na delegacia. “Conseguiram roubar minhas coisas da bolsa enquanto eu andava, sem que eu percebesse”, relata. Não é preciso procurar muito para encontrar vítimas de furtos na escola onde estuda Stefany. Vinicius Henrique Dresser, 16, já foi furtado três vezes. Levaram boné, carteira e celular. Os telefones celulares, a propósito, parecem ser um dos artigos preferidos dos ladrões. Kamila Oliveira, 15, teve o seu roubado na porta da escola. “Três caras chegaram e mandaram eu entregar o celular”, conta.

Dados de pesquisa recente da Unesco (Organizações das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em parceria com a Universidade Católica de Brasília, revelam que 69% dos alunos dizem que há furtos nas escolas. O estudo Cotidiano das Escolas: Entre Violências reuniu depoimentos de estudantes de cinco capitais: São Paulo, Belém, Salvador, Porto Alegre e Distrito Federal. “Os furtos são exemplo importante. Chamam menos atenção, mas fazem parte de um tipo de violência do cotidiano das escolas”, afirma a vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas – Brasil, Miriam Abramovay, que também é professora da Universidade Católica.

Os prejuízos não são só financeiros. Na primeira quinzena deste mês, uma adolescente de 13 anos sentiu na pele o clima de guerra nas escolas quando saía da EE Doutor Carlos de Campos, Vila América, em Santo André. Ela foi espancada por uma gangue de 15 meninas. Motivo: um esbarrão em uma das garotas horas antes.

Cerca de 60% dos estudantes dizem ter sido vítimas de agressões físicas ou morais no ambiente escolar, segundo outra pesquisa da Unesco, de 2002. Os que mais sofrem e fazem sofrer são os adolescentes. A prática mais comum entre eles é o chamado bullying. Em português, algo como intimidação. Grupos como a gangue de meninas que espancaram a colega nas imediações da escola Doutor Carlos de Campos. “As gangues interferem no cotidiano das escolas quando se posicionam contra um aluno”, afirma Miriam Abramovay.

A violência não fica somente entre os alunos. A relação estudante-professor também faz parte das estatísticas policiais. Na EE Omar Basant, no bairro Tatetos, em São Bernardo, uma professora de matemática é acusada de agredir três alunos de 10 anos. Dois deles, moralmente. Outro, fisicamente. “Ela chutou meu filho e, apesar de eu ter dado queixa, continua dando aula para ele”, diz F.S.B., 40, mãe de um dos alunos supostamente agredidos.

Para a pesquisadora Miriam Abramovay, os professores não estão preparados para lidar com a realidade de seus alunos. “Eles não foram formados para isso. Teriam de saber tratar de temas como drogas, sexualidade, gangues”, acredita. A Unesco estuda um projeto que incluiria cursos capacitadores para os docentes. A professora de psicologia da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), em São Bernardo, Luana Carramillo Going, que tem trabalho ligado à questão da violência, diz que os professores estão “semimortos” no contexto da educação atual. “Eles não sabem como lidar com esse caos.” Falta de políticas públicas eficientes, má distribuição de renda e a cultura da violência estão entra as causas citadas por Luana que contribuem para o fenômeno da violência nas escolas.



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Violência vira cotidiano em escolas

Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

25/04/2005 | 11:16


A violência vista nas ruas também se aprende nas escolas. Agressão, tráfico de drogas, violência sexual, explosão de bombas, assalto e até homicídio fazem parte do rol de crimes que ocorrem do portão para dentro de colégios da região e de todo o Estado. Os próprios alunos, muitas vezes, cometem os delitos. As vítimas são colegas, professores, funcionários e, invariavelmente, o sistema de Educação do país.

Só em escolas estaduais, que representam 70% de todo o sistema de ensino no Estado de São Paulo, ocorreram neste ano 591 casos de agressões, 336 furtos, um caso de violência sexual, 103 explosões de bombas, 28 incêndios criminosos, 34 assaltos e dois homicídios. Prefeituras da região não informaram à reportagem dados sobre o índice de crimes nas escolas municipais.

Os números de crimes nas escolas do Estado poderiam ser maiores se todos as vítimas comunicassem os casos à polícia. Stefany Silva Lisboa, 16 anos, aluna da EE (Escola Estadual) Américo Brasiliense, no Centro de Santo André, está tão acostumada com a realidade nas escolas que nem se incomoda em registrar ocorrências na delegacia. “Conseguiram roubar minhas coisas da bolsa enquanto eu andava, sem que eu percebesse”, relata. Não é preciso procurar muito para encontrar vítimas de furtos na escola onde estuda Stefany. Vinicius Henrique Dresser, 16, já foi furtado três vezes. Levaram boné, carteira e celular. Os telefones celulares, a propósito, parecem ser um dos artigos preferidos dos ladrões. Kamila Oliveira, 15, teve o seu roubado na porta da escola. “Três caras chegaram e mandaram eu entregar o celular”, conta.

Dados de pesquisa recente da Unesco (Organizações das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em parceria com a Universidade Católica de Brasília, revelam que 69% dos alunos dizem que há furtos nas escolas. O estudo Cotidiano das Escolas: Entre Violências reuniu depoimentos de estudantes de cinco capitais: São Paulo, Belém, Salvador, Porto Alegre e Distrito Federal. “Os furtos são exemplo importante. Chamam menos atenção, mas fazem parte de um tipo de violência do cotidiano das escolas”, afirma a vice-coordenadora do Observatório de Violência nas Escolas – Brasil, Miriam Abramovay, que também é professora da Universidade Católica.

Os prejuízos não são só financeiros. Na primeira quinzena deste mês, uma adolescente de 13 anos sentiu na pele o clima de guerra nas escolas quando saía da EE Doutor Carlos de Campos, Vila América, em Santo André. Ela foi espancada por uma gangue de 15 meninas. Motivo: um esbarrão em uma das garotas horas antes.

Cerca de 60% dos estudantes dizem ter sido vítimas de agressões físicas ou morais no ambiente escolar, segundo outra pesquisa da Unesco, de 2002. Os que mais sofrem e fazem sofrer são os adolescentes. A prática mais comum entre eles é o chamado bullying. Em português, algo como intimidação. Grupos como a gangue de meninas que espancaram a colega nas imediações da escola Doutor Carlos de Campos. “As gangues interferem no cotidiano das escolas quando se posicionam contra um aluno”, afirma Miriam Abramovay.

A violência não fica somente entre os alunos. A relação estudante-professor também faz parte das estatísticas policiais. Na EE Omar Basant, no bairro Tatetos, em São Bernardo, uma professora de matemática é acusada de agredir três alunos de 10 anos. Dois deles, moralmente. Outro, fisicamente. “Ela chutou meu filho e, apesar de eu ter dado queixa, continua dando aula para ele”, diz F.S.B., 40, mãe de um dos alunos supostamente agredidos.

Para a pesquisadora Miriam Abramovay, os professores não estão preparados para lidar com a realidade de seus alunos. “Eles não foram formados para isso. Teriam de saber tratar de temas como drogas, sexualidade, gangues”, acredita. A Unesco estuda um projeto que incluiria cursos capacitadores para os docentes. A professora de psicologia da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), em São Bernardo, Luana Carramillo Going, que tem trabalho ligado à questão da violência, diz que os professores estão “semimortos” no contexto da educação atual. “Eles não sabem como lidar com esse caos.” Falta de políticas públicas eficientes, má distribuição de renda e a cultura da violência estão entra as causas citadas por Luana que contribuem para o fenômeno da violência nas escolas.

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