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Fala o mais antigo prefeito

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Clóvis Thon dirigiu Santo André há 53 anos e hoje vê a sua cidade se esvaziar e tornar-se dormitório


Ademir Médici
Do Diário do Grande ABC

13/06/2016 | 07:00


Aos 87 anos, completados em fevereiro – “87 de momento” –, o andreense Clóvis Sidney Thon fala com a mesma desenvoltura sobre a cassação do prefeito Oswaldo Gimenez, em 1962, e sobre a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Daqueles anos imediatamente anteriores ao golpe militar de 1964, Thon participou diretamente, chegando surpreendentemente ao poder, sendo eleito prefeito de Santo André indiretamente, assumindo por um ano (1963), e cumprindo a palavra de nunca mais se candidatar a um cargo eleitoral – antes de ser prefeito, ele foi vereador em duas legislaturas.

Dos caminhos nacionais vividos neste ano, Thon fala como cidadão: “Não vejo a política atual com bons olhos. Se ainda não naufragamos, já está fazendo água no barco.”

Clóvis Thon é hoje o mais antigo ex-prefeito vivo do Grande ABC. Outros veteranos, como Tito Costa, ex-prefeito de São Bernardo, e Raimundo da Cunha Leite, ex-prefeito de São Caetano, têm idades superiores à sua, mas governaram bem depois de Thon, a partir de 1977.

Influente até hoje na vida política de Santo André, Clóvis Thon já foi procurado por um pré-candidato a prefeito, por meio de um cabo eleitoral do também andreense Paulinho Serra (PSDB). Evitou declarar apoio. Deu duas respostas.

A primeira que não sabe se Paulinho irá novamente, em algum tempo, ficar ao lado do PT – partido para o qual não tem simpatia. “Serra, ao contrário do avô Américo Pinto Serra, ainda não tem um padrão de política confiável”. A segunda resposta, mais política e prudente, é a de que ainda tem tempo para pensar. “Sempre votei. Se tiver condições, voto novamente.”

Acompanharam a entrevista exclusiva de Clóvis Thon dois velhos amigos, ambos andreenses: o médico Douglas Magini e o seu oficial de gabinete, Humberto Moura, filho dos primeiros migrantes sergipanos radicados em Santo André.

EM SÍNTESE
Os Thon vivem em Santo André desde o século 19. Os primeiros vieram da Bélgica. O patriarca, Lucien, está sepultado em São Bernardo – quando morreu, não havia cemitério em Santo André.

Homero Thon, filho de Lucien, avô de Clóvis, veio para trabalhar na Light and Power e chegou a chefiar equipes que construíram o Summit Canal, na Represa Billings. Loteou terras que hoje formam a Vila Homero Thon, um dos mais antigos loteamentos de Santo André.

Clovis, o neto, nasceu em 21 de fevereiro de 1929. É advogado formado pela São Francisco, turma de 1954.

VEREADOR e PREFEITO
4 PTN, 1955. Era suplente. Perdera por sete votos apenas. Assumiu com a renúncia de Francisco Arnoni, que foi eleito prefeito de Ribeirão Pires.

4 UDN, 1960 a 1962.

4 UDN, prefeito, 1963. Renuncia em dezembro para assumir cargo administrativo na Câmara de Santo André. Substituído por João Cara Valentim.

NA CÂMARA
4 Atua como assessor. Chega a diretor geral. Aposenta-se neste cargo em 1984.

O ADVOGADO
4 Atuou com escritório até dez anos atrás.

GRAVAÇÃO AO SOM DE PÁSSAROS
Clóvis Thon reside no 11º andar de um prédio a poucos metros do Centro de Santo André. Na varanda da sua sala, plantas e alimentos que servem aos pássaros da Vila Assunção.

A varanda vive repleta de passarinhos, como os que povoaram a infância do entrevistado na Vila Homero Thon. Foi neste cenário que gravamos com ele.

O repórter-fotográfico André Henriques reproduziu cerca de 50 fotos – quase todas inéditas. Há uma coleção de imagens sobre os festejos do IV Centenário de Santo André, em 1953, feitas por Arthur Thon, pai de Clóvis. Verdadeiras preciosidades. Serão mostradas proximamente na página Memória.

Voz forte, palavras bem conectadas, raciocínio rápido, sempre muito bem humorado, Clóvis Sidney Thon esclareceu fatos e lembrou passagens marcantes da política. Sem papas na língua. A começar por aquele que é apontado como o primeiro caso de impeachment no Brasil – ocorrido em Santo André.

CORRUPÇÃO EM SANTO ANDRÉ

Hoje deveriam devolver a Prefeitura ao Gimenez (Oswaldo Gimenez, prefeito cassado) e pedir desculpas. A honestidade era outra. Hoje ele poderia ser considerado um ‘trombadinha’ face ao que tem por ai. A gente lê todo dia um escândalo diferente.

Gimenez tinha um programa popular na sua rádio, a Clube de Santo André (hoje Trianon, com estúdios na Avenida Paulista). Ele mesmo fazia reportagens, de campo e no estúdio.

Apontava os problemas dos bairros. Dizia: “Estamos aqui na casa de fulano de tal. A sua rua está toda esburacada. É impressionante. Esse prefeito que está aí (Pedro Dell’Antonia, o Pierim) não faz nada. Uma pouca vergonha”.

Lembro de uma transmissão que ele fez dizendo estar na delegacia de polícia.

“Estamos transmitindo diretamente da delegacia de polícia de Santo André. É impressionante o que ocorre aqui. Estamos vendo os investigadores tentando obter a confissão de um réu e de uma mulher. Os acusados mantêm-se calados. Os investigadores pressionam: ‘Confessam ou não confessam? Seu vagabundo. Tira a roupa dele. Põe um pau na b... dele que ele vai falar’”.

O nível era esse. O povo escutava. Ao se candidatar, elegeu-se facilmente. Ele tomou conta da Prefeitura de Santo André. Não só ele como a família inteira.

Das importâncias pequenas nem tanto, mas os valores maiores que as pessoas fossem receber na Prefeitura, as mais vultosas, eram pagas diretamente no gabinete. E ele exigia uma contribuição para as obras de caridade dele, de 10%.

Um cidadão veio receber determinada importância de uma desapropriação de um parente. Foi ao gabinete. Ao ser convidado a pagar os 10%, saiu dizendo que iria falar com os familiares. E veio ao meu escritório.
– Estão exigindo 10% para eu receber a desapropriação. Eu sou assessor direto do governador Carvalho Pinto.

O Gimenez não sabia. O assessor não deu o dinheiro exigido. Quando fomos pedir apoio do governo para que o Gimenez caísse, o assessor não deve dúvida: falou com o governador e este chamou o prefeito de safado.

VEREADORES FICHADOS
NO GABINETE DO PREFEITO
O Gimenez tinha um arquivo no gabinete com a vida pessoal de cada um dos vereadores. Cada um de nós era seguido e tudo o que fazíamos era anotado.
Lembro de uma ida nossa ao escritório do Plínio Salgado (1895-1975, líder da Ação Integralista Brasileira), em São Paulo. O vice-prefeito Silveira Sampaio era ligado ao Plínio. Fomos seguidos. “E o vereador Clóvis está em São Paulo, na Avenida Paulista. Está entrando no escritório do Plínio Salgado. Estão tratando da cassação”.

Outra vez acompanhamos o bispo dom Jorge (Marcos de Oliveira, da Diocese de Santo André) para uma bacalhoada na casa de um padre que residia em Paranapiacaba. Mais registros: “O Clóvis tomou um trem para Paranapiacaba, exatamente às 8h da manhã. Chegou a Paranapiacaba às 9h. Dirigiu-se à casa do padre, juntamente com os vereadores Cid Flaquer Scartezzini (que depois chegaria a ministro do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral) e Carlos Vicente Cerchiari (que criou a CVC, organização de turismo que leva as iniciais do seu nome). Dom Jorge comandou tudo. Eles estão em conluio para cassar o mandato do prefeito”.

Um vereador tinha, digamos assim, amizade colorida com uma advogada da Prefeitura. Mesmo casado, ia visitá-la à noite. O Gimenez sabia de tudo, anotava tudo.
Em função disso tudo e das patifarias do prefeito, a Câmara acabou votando pela cassação.

CLOVIS THON ELEITO
PREFEITO PELA CÂMARA
Cai o Gimenez. Assume o Silveira Sampaio, que havia ganhado as eleições apresentando-se como “Silveira Sampaio é candidato” – aproveitando-se do homônimo de famoso radialista, cujo auge ocorre na década de 1950.

Sampaio permanece como prefeito de 1961 a 1962, candidata-se à Assembleia Legislativa, ganha como deputado, e opta por assumir no legislativo estadual.

A Constituição e Lei Orgânica dos Municípios determinavam: caso o mandato tivesse ultrapassado os dois primeiros anos, a Câmara deveria eleger um vereador para completar o mandato do prefeito.

Fui eleito pela maioria. Só votaram contra o Armando Gimenez, irmão do prefeito cassado, e o Bruno Daniel (pai do futuro prefeito Celso Daniel).

O MOTORISTA GANHAVA
MAIS QUE O PREFEITO
O gabinete ficava na casa cor de rosa, numa alusão à casa rosada da Argentina – o casarão da Praça do Carmo onde está hoje a Casa da Palavra.

Encontro as finanças da Prefeitura zeradas. Os munícipes telefonavam: “Não está passando o caminhão de lixo na minha rua”.
– Beco (apelido de Humberto Moura) telefona para a garagem. Veja o que está acontecendo.

Glicério, responsável pela Garagem Municipal, respondia:
– Um caminhão está sem bateria, outro sem platinado, outro sem lona de breque...

Ninguém mais queria vender para a Prefeitura. A Câmara não autorizava aumento de salário de ninguém. O prefeito ganhava menos que o seu motorista, João Rosa, um negro simpático que hoje é nome de praça em Utinga.

Ameacei renunciar, por uma simples razão: “Com este salário vocês vão me obrigar a ser desonesto. Preciso sustentar minha família”.

Recebi um aumento. Digamos: passei dos R$ 60 em números de hoje para R$ 200. Só o Bruno Daniel foi contra. Éramos amigos, os dois corintianos, mas vivíamos brigando...

DEMISSÕES E FECHAMENTO
DE POSTOS DE PUERICULTURA

Logo que assumi baixei a determinando para que fossem dispensados todos os funcionários admitidos a partir de 1º de janeiro de 1960. O Gimenez havia enchido a Prefeitura.

Não quis saber quem seria demitido. Conhecia todo mundo em Santo André. Se fosse verificar cada caso, a coisa não andaria. Era para excluir. Se algum diretor necessitasse de um funcionário que estava sendo demitido, que falasse comigo e eu readmitiria.

Nessa leva foram pessoas bem próximas, como a mulher de um advogado que trabalhava no meu escritório e um médico que depois se tornou meu compadre três vezes.

Fiz uma coisa que nenhum candidato ou prefeito faz: fechar postos de puericultura. Fazia visitas surpresas. Chegava a determinado posto às 6h. Naquela hora devia assumir a servente; às 7h, a atendente que preenchia as fichas de atendimento; às 8h, o médico. Não encontrava ninguém. E a poucas quadras daí existia outro posto de puericultura. Um seria suficiente.

Lia os relatórios: das 8h às 11h, o médico atendeu 60, 70 crianças. Como conseguia, se nem chegava no horário? Coloquei o pessoal a trabalhar, fechei postos. O objetivo era ter um governo que reabilitasse as finanças do município.

O ELOGIO DO ESTADÃO

AO PREFEITO DA UDN
A Avenida Pereira Barreto era um escândalo. Do lado de São Bernardo, tudo em ordem. Depois da divisa, os motoristas comentavam:
– Entramos em Santo André.
Nossa pista era toda esburacada, estreita. São Bernardo, do prefeito Lauro Gomes, tinha uma pista moderna.

Abrimos concorrência e duas firmas realizaram as reformas. Lauro, ao assumir Santo André, chamou o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para uma verificação. Queria encontrar irregularidades. Tudo estava rigorosamente de acordo com o contrato.

Mas não foi a Pereira Barreto a nossa principal obra. Eu não tive obras, verdadeiramente. A repavimentação da Pereira Barreto foi uma consequência. Queríamos era recuperar as finanças municipais.

Fernando Figueroa, ex-vereador, criou o FMP (Fator Monetário Padrão), uma espécie de correção monetária municipal, que depois foi seguida por outros municípios. Buscamos ter um número razoável de funcionários. Eliminar as dívidas públicas. Deixar a Prefeitura com um superavit. Conseguimos, pagando todas as dívidas.

O Estado de S. Paulo escreveu um artigo elogioso. O que não quer dizer muita coisa. Todo mundo sabia que o Estadão era da UDN. E tinha que elogiar o prefeito da UDN, que era eu.

Permaneci até a última semana do meu mandato. Renunciei para assumir um cargo de assessor na Câmara. Era advogado. Tinha sido vereador e tinha sido prefeito. Teria condições de orientar bem os vereadores

DEU NO NEWS SELLER,
ANTECESSOR DO DIÁRIO
4 2-12-1962 – Eleição do prefeito. Câmara ferve. Formados três blocos: 1) Sidney Thon; 2) Bruno Daniel; 3) Hercílio Bueno da Silveira.
4 16-12-1962 – Resolvida a situação política em Santo André: Clovis Thon será o prefeito em 1963; João Valentim, o vice.
4 20-1-1963 – Santo André com novo prefeito: Benedito de Castro governará durante 15 dias. Promete o presidente da Câmara, na chefia do Executivo, preparar o governo para Sidney Thon.
4 3-2-1963 – Clóvis Thon e João Cara Valentim já estão governando Santo André. Tomaram posse em 31 de janeiro. Thon é o quinto prefeito do atual período administrativo.
4 17-2-1963 – Degola na Prefeitura já começou: 41 professoras e 23 serventes dispensados.
4 29-12-1963 – Santo André com novo prefeito. Na véspera do Natal, a posse do sexto prefeito nos últimos quatro anos, fato inédito na administração brasileira. Com a renúncia de Sidney Thon, assume João Cara Valentim, que governará até 31 de dezembro.
4 1-1-1964 – Toma posse o prefeito Lauro Gomes.

O JOGO POLÍTICO QUE
TOMA CONTA DO PAÍS
Hoje a política é diferente. A Dilma saiu porque foi incompetente e extremamente orgulhosa. Seguiu o que o Lula estava fazendo: fechar os olhos para um monte de coisas. Se não viram ou não quiseram ver, não me cabe julgar. Mas acho que eles foram relapsos.
Não era para acontecer o que estava acontecendo na Petrobras, de forma alguma.

Dilma está caindo por causa das pedaladas fiscais. Como foi que o Al Capone foi preso nos Estados Unidos? Porque ele deixou de pagar o Imposto de Renda. E as mortes, os assaltos, a criação de dependentes químicos e tudo o mais? Tudo foi esquecido porque não conseguiram provar. E ele foi parar na cadeia por não pagar o IR.

É o que está acontecendo com a Dilma. Tudo aquilo que ela fez ninguém consegue provas, mas das pedaladas sim.

O Michel Temer (PMDB) está numa situação muito difícil. Escolheu ministros e alguns estão sendo acusados de terem feito isso ou aquilo. São substituídos. E cada ministro tem um grupo de pessoas que são próceres políticos. Deputados, senadores que os apoiaram para exercer aquele cargo. O Temer os destituindo está criando três ou quatro inimigos.

Hoje se discute o prazo para a defesa da Dilma. E a oposição aposta na demora. Quer que o Temer se desgaste. Simples assim.

ACABA A INFLAÇÃO.
BOLSAS EM EXCESSO

Na época do Fernando Henrique Cardoso (PSDB) passamos alguns anos numa penúria. Medidas violentas foram adotadas para conter a inflação, o principal problema da época. Você recebia alguma coisa de manhã, à tarde não comprava nem a metade do que poderia comprar.

O desafio era acertar as finanças, fazer um dinheiro forte. E veio o real. Acabou a inflação.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe um País sem inflação. De origem operária, sabia dos problemas dos operários, em especial dos seus irmãos nordestinos, que precisavam de um dinheiro para comer. E o Lula nada mais fez do que criar as bolsas. Só que criou bolsas em excesso.

Faltaram recursos para manter os programas sociais. Aos poucos as nossas economias foram sendo minadas. Dilma prosseguiu a política e ampliou. Muita coisa necessária. Mas faltou um sentido mínimo de equilíbrio. Resultado: o povo ainda vive à míngua.


SANTO ANDRÉ,
CIDADE DORMITÓRIO

Santo André, hoje, deixa de ser um local de trabalho para se tornar um município dormitório. A cidade do trabalho mais rica do Estado, depois da Capital, foi suplantada por um número grande de outras cidades.

Indústrias fecharam ou foram embora, inclusive para municípios aqui mesmo do Grande ABC. Resultado: grande parte dos que moram aqui já não trabalham em Santo André.

Virão as eleições. Em quem votar? Difícil. Até agora não tenho candidato. Mas ainda tenho tempo para pensar. 



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Fala o mais antigo prefeito

Clóvis Thon dirigiu Santo André há 53 anos e hoje vê a sua cidade se esvaziar e tornar-se dormitório

Ademir Médici
Do Diário do Grande ABC

13/06/2016 | 07:00


Aos 87 anos, completados em fevereiro – “87 de momento” –, o andreense Clóvis Sidney Thon fala com a mesma desenvoltura sobre a cassação do prefeito Oswaldo Gimenez, em 1962, e sobre a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Daqueles anos imediatamente anteriores ao golpe militar de 1964, Thon participou diretamente, chegando surpreendentemente ao poder, sendo eleito prefeito de Santo André indiretamente, assumindo por um ano (1963), e cumprindo a palavra de nunca mais se candidatar a um cargo eleitoral – antes de ser prefeito, ele foi vereador em duas legislaturas.

Dos caminhos nacionais vividos neste ano, Thon fala como cidadão: “Não vejo a política atual com bons olhos. Se ainda não naufragamos, já está fazendo água no barco.”

Clóvis Thon é hoje o mais antigo ex-prefeito vivo do Grande ABC. Outros veteranos, como Tito Costa, ex-prefeito de São Bernardo, e Raimundo da Cunha Leite, ex-prefeito de São Caetano, têm idades superiores à sua, mas governaram bem depois de Thon, a partir de 1977.

Influente até hoje na vida política de Santo André, Clóvis Thon já foi procurado por um pré-candidato a prefeito, por meio de um cabo eleitoral do também andreense Paulinho Serra (PSDB). Evitou declarar apoio. Deu duas respostas.

A primeira que não sabe se Paulinho irá novamente, em algum tempo, ficar ao lado do PT – partido para o qual não tem simpatia. “Serra, ao contrário do avô Américo Pinto Serra, ainda não tem um padrão de política confiável”. A segunda resposta, mais política e prudente, é a de que ainda tem tempo para pensar. “Sempre votei. Se tiver condições, voto novamente.”

Acompanharam a entrevista exclusiva de Clóvis Thon dois velhos amigos, ambos andreenses: o médico Douglas Magini e o seu oficial de gabinete, Humberto Moura, filho dos primeiros migrantes sergipanos radicados em Santo André.

EM SÍNTESE
Os Thon vivem em Santo André desde o século 19. Os primeiros vieram da Bélgica. O patriarca, Lucien, está sepultado em São Bernardo – quando morreu, não havia cemitério em Santo André.

Homero Thon, filho de Lucien, avô de Clóvis, veio para trabalhar na Light and Power e chegou a chefiar equipes que construíram o Summit Canal, na Represa Billings. Loteou terras que hoje formam a Vila Homero Thon, um dos mais antigos loteamentos de Santo André.

Clovis, o neto, nasceu em 21 de fevereiro de 1929. É advogado formado pela São Francisco, turma de 1954.

VEREADOR e PREFEITO
4 PTN, 1955. Era suplente. Perdera por sete votos apenas. Assumiu com a renúncia de Francisco Arnoni, que foi eleito prefeito de Ribeirão Pires.

4 UDN, 1960 a 1962.

4 UDN, prefeito, 1963. Renuncia em dezembro para assumir cargo administrativo na Câmara de Santo André. Substituído por João Cara Valentim.

NA CÂMARA
4 Atua como assessor. Chega a diretor geral. Aposenta-se neste cargo em 1984.

O ADVOGADO
4 Atuou com escritório até dez anos atrás.

GRAVAÇÃO AO SOM DE PÁSSAROS
Clóvis Thon reside no 11º andar de um prédio a poucos metros do Centro de Santo André. Na varanda da sua sala, plantas e alimentos que servem aos pássaros da Vila Assunção.

A varanda vive repleta de passarinhos, como os que povoaram a infância do entrevistado na Vila Homero Thon. Foi neste cenário que gravamos com ele.

O repórter-fotográfico André Henriques reproduziu cerca de 50 fotos – quase todas inéditas. Há uma coleção de imagens sobre os festejos do IV Centenário de Santo André, em 1953, feitas por Arthur Thon, pai de Clóvis. Verdadeiras preciosidades. Serão mostradas proximamente na página Memória.

Voz forte, palavras bem conectadas, raciocínio rápido, sempre muito bem humorado, Clóvis Sidney Thon esclareceu fatos e lembrou passagens marcantes da política. Sem papas na língua. A começar por aquele que é apontado como o primeiro caso de impeachment no Brasil – ocorrido em Santo André.

CORRUPÇÃO EM SANTO ANDRÉ

Hoje deveriam devolver a Prefeitura ao Gimenez (Oswaldo Gimenez, prefeito cassado) e pedir desculpas. A honestidade era outra. Hoje ele poderia ser considerado um ‘trombadinha’ face ao que tem por ai. A gente lê todo dia um escândalo diferente.

Gimenez tinha um programa popular na sua rádio, a Clube de Santo André (hoje Trianon, com estúdios na Avenida Paulista). Ele mesmo fazia reportagens, de campo e no estúdio.

Apontava os problemas dos bairros. Dizia: “Estamos aqui na casa de fulano de tal. A sua rua está toda esburacada. É impressionante. Esse prefeito que está aí (Pedro Dell’Antonia, o Pierim) não faz nada. Uma pouca vergonha”.

Lembro de uma transmissão que ele fez dizendo estar na delegacia de polícia.

“Estamos transmitindo diretamente da delegacia de polícia de Santo André. É impressionante o que ocorre aqui. Estamos vendo os investigadores tentando obter a confissão de um réu e de uma mulher. Os acusados mantêm-se calados. Os investigadores pressionam: ‘Confessam ou não confessam? Seu vagabundo. Tira a roupa dele. Põe um pau na b... dele que ele vai falar’”.

O nível era esse. O povo escutava. Ao se candidatar, elegeu-se facilmente. Ele tomou conta da Prefeitura de Santo André. Não só ele como a família inteira.

Das importâncias pequenas nem tanto, mas os valores maiores que as pessoas fossem receber na Prefeitura, as mais vultosas, eram pagas diretamente no gabinete. E ele exigia uma contribuição para as obras de caridade dele, de 10%.

Um cidadão veio receber determinada importância de uma desapropriação de um parente. Foi ao gabinete. Ao ser convidado a pagar os 10%, saiu dizendo que iria falar com os familiares. E veio ao meu escritório.
– Estão exigindo 10% para eu receber a desapropriação. Eu sou assessor direto do governador Carvalho Pinto.

O Gimenez não sabia. O assessor não deu o dinheiro exigido. Quando fomos pedir apoio do governo para que o Gimenez caísse, o assessor não deve dúvida: falou com o governador e este chamou o prefeito de safado.

VEREADORES FICHADOS
NO GABINETE DO PREFEITO
O Gimenez tinha um arquivo no gabinete com a vida pessoal de cada um dos vereadores. Cada um de nós era seguido e tudo o que fazíamos era anotado.
Lembro de uma ida nossa ao escritório do Plínio Salgado (1895-1975, líder da Ação Integralista Brasileira), em São Paulo. O vice-prefeito Silveira Sampaio era ligado ao Plínio. Fomos seguidos. “E o vereador Clóvis está em São Paulo, na Avenida Paulista. Está entrando no escritório do Plínio Salgado. Estão tratando da cassação”.

Outra vez acompanhamos o bispo dom Jorge (Marcos de Oliveira, da Diocese de Santo André) para uma bacalhoada na casa de um padre que residia em Paranapiacaba. Mais registros: “O Clóvis tomou um trem para Paranapiacaba, exatamente às 8h da manhã. Chegou a Paranapiacaba às 9h. Dirigiu-se à casa do padre, juntamente com os vereadores Cid Flaquer Scartezzini (que depois chegaria a ministro do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral) e Carlos Vicente Cerchiari (que criou a CVC, organização de turismo que leva as iniciais do seu nome). Dom Jorge comandou tudo. Eles estão em conluio para cassar o mandato do prefeito”.

Um vereador tinha, digamos assim, amizade colorida com uma advogada da Prefeitura. Mesmo casado, ia visitá-la à noite. O Gimenez sabia de tudo, anotava tudo.
Em função disso tudo e das patifarias do prefeito, a Câmara acabou votando pela cassação.

CLOVIS THON ELEITO
PREFEITO PELA CÂMARA
Cai o Gimenez. Assume o Silveira Sampaio, que havia ganhado as eleições apresentando-se como “Silveira Sampaio é candidato” – aproveitando-se do homônimo de famoso radialista, cujo auge ocorre na década de 1950.

Sampaio permanece como prefeito de 1961 a 1962, candidata-se à Assembleia Legislativa, ganha como deputado, e opta por assumir no legislativo estadual.

A Constituição e Lei Orgânica dos Municípios determinavam: caso o mandato tivesse ultrapassado os dois primeiros anos, a Câmara deveria eleger um vereador para completar o mandato do prefeito.

Fui eleito pela maioria. Só votaram contra o Armando Gimenez, irmão do prefeito cassado, e o Bruno Daniel (pai do futuro prefeito Celso Daniel).

O MOTORISTA GANHAVA
MAIS QUE O PREFEITO
O gabinete ficava na casa cor de rosa, numa alusão à casa rosada da Argentina – o casarão da Praça do Carmo onde está hoje a Casa da Palavra.

Encontro as finanças da Prefeitura zeradas. Os munícipes telefonavam: “Não está passando o caminhão de lixo na minha rua”.
– Beco (apelido de Humberto Moura) telefona para a garagem. Veja o que está acontecendo.

Glicério, responsável pela Garagem Municipal, respondia:
– Um caminhão está sem bateria, outro sem platinado, outro sem lona de breque...

Ninguém mais queria vender para a Prefeitura. A Câmara não autorizava aumento de salário de ninguém. O prefeito ganhava menos que o seu motorista, João Rosa, um negro simpático que hoje é nome de praça em Utinga.

Ameacei renunciar, por uma simples razão: “Com este salário vocês vão me obrigar a ser desonesto. Preciso sustentar minha família”.

Recebi um aumento. Digamos: passei dos R$ 60 em números de hoje para R$ 200. Só o Bruno Daniel foi contra. Éramos amigos, os dois corintianos, mas vivíamos brigando...

DEMISSÕES E FECHAMENTO
DE POSTOS DE PUERICULTURA

Logo que assumi baixei a determinando para que fossem dispensados todos os funcionários admitidos a partir de 1º de janeiro de 1960. O Gimenez havia enchido a Prefeitura.

Não quis saber quem seria demitido. Conhecia todo mundo em Santo André. Se fosse verificar cada caso, a coisa não andaria. Era para excluir. Se algum diretor necessitasse de um funcionário que estava sendo demitido, que falasse comigo e eu readmitiria.

Nessa leva foram pessoas bem próximas, como a mulher de um advogado que trabalhava no meu escritório e um médico que depois se tornou meu compadre três vezes.

Fiz uma coisa que nenhum candidato ou prefeito faz: fechar postos de puericultura. Fazia visitas surpresas. Chegava a determinado posto às 6h. Naquela hora devia assumir a servente; às 7h, a atendente que preenchia as fichas de atendimento; às 8h, o médico. Não encontrava ninguém. E a poucas quadras daí existia outro posto de puericultura. Um seria suficiente.

Lia os relatórios: das 8h às 11h, o médico atendeu 60, 70 crianças. Como conseguia, se nem chegava no horário? Coloquei o pessoal a trabalhar, fechei postos. O objetivo era ter um governo que reabilitasse as finanças do município.

O ELOGIO DO ESTADÃO

AO PREFEITO DA UDN
A Avenida Pereira Barreto era um escândalo. Do lado de São Bernardo, tudo em ordem. Depois da divisa, os motoristas comentavam:
– Entramos em Santo André.
Nossa pista era toda esburacada, estreita. São Bernardo, do prefeito Lauro Gomes, tinha uma pista moderna.

Abrimos concorrência e duas firmas realizaram as reformas. Lauro, ao assumir Santo André, chamou o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para uma verificação. Queria encontrar irregularidades. Tudo estava rigorosamente de acordo com o contrato.

Mas não foi a Pereira Barreto a nossa principal obra. Eu não tive obras, verdadeiramente. A repavimentação da Pereira Barreto foi uma consequência. Queríamos era recuperar as finanças municipais.

Fernando Figueroa, ex-vereador, criou o FMP (Fator Monetário Padrão), uma espécie de correção monetária municipal, que depois foi seguida por outros municípios. Buscamos ter um número razoável de funcionários. Eliminar as dívidas públicas. Deixar a Prefeitura com um superavit. Conseguimos, pagando todas as dívidas.

O Estado de S. Paulo escreveu um artigo elogioso. O que não quer dizer muita coisa. Todo mundo sabia que o Estadão era da UDN. E tinha que elogiar o prefeito da UDN, que era eu.

Permaneci até a última semana do meu mandato. Renunciei para assumir um cargo de assessor na Câmara. Era advogado. Tinha sido vereador e tinha sido prefeito. Teria condições de orientar bem os vereadores

DEU NO NEWS SELLER,
ANTECESSOR DO DIÁRIO
4 2-12-1962 – Eleição do prefeito. Câmara ferve. Formados três blocos: 1) Sidney Thon; 2) Bruno Daniel; 3) Hercílio Bueno da Silveira.
4 16-12-1962 – Resolvida a situação política em Santo André: Clovis Thon será o prefeito em 1963; João Valentim, o vice.
4 20-1-1963 – Santo André com novo prefeito: Benedito de Castro governará durante 15 dias. Promete o presidente da Câmara, na chefia do Executivo, preparar o governo para Sidney Thon.
4 3-2-1963 – Clóvis Thon e João Cara Valentim já estão governando Santo André. Tomaram posse em 31 de janeiro. Thon é o quinto prefeito do atual período administrativo.
4 17-2-1963 – Degola na Prefeitura já começou: 41 professoras e 23 serventes dispensados.
4 29-12-1963 – Santo André com novo prefeito. Na véspera do Natal, a posse do sexto prefeito nos últimos quatro anos, fato inédito na administração brasileira. Com a renúncia de Sidney Thon, assume João Cara Valentim, que governará até 31 de dezembro.
4 1-1-1964 – Toma posse o prefeito Lauro Gomes.

O JOGO POLÍTICO QUE
TOMA CONTA DO PAÍS
Hoje a política é diferente. A Dilma saiu porque foi incompetente e extremamente orgulhosa. Seguiu o que o Lula estava fazendo: fechar os olhos para um monte de coisas. Se não viram ou não quiseram ver, não me cabe julgar. Mas acho que eles foram relapsos.
Não era para acontecer o que estava acontecendo na Petrobras, de forma alguma.

Dilma está caindo por causa das pedaladas fiscais. Como foi que o Al Capone foi preso nos Estados Unidos? Porque ele deixou de pagar o Imposto de Renda. E as mortes, os assaltos, a criação de dependentes químicos e tudo o mais? Tudo foi esquecido porque não conseguiram provar. E ele foi parar na cadeia por não pagar o IR.

É o que está acontecendo com a Dilma. Tudo aquilo que ela fez ninguém consegue provas, mas das pedaladas sim.

O Michel Temer (PMDB) está numa situação muito difícil. Escolheu ministros e alguns estão sendo acusados de terem feito isso ou aquilo. São substituídos. E cada ministro tem um grupo de pessoas que são próceres políticos. Deputados, senadores que os apoiaram para exercer aquele cargo. O Temer os destituindo está criando três ou quatro inimigos.

Hoje se discute o prazo para a defesa da Dilma. E a oposição aposta na demora. Quer que o Temer se desgaste. Simples assim.

ACABA A INFLAÇÃO.
BOLSAS EM EXCESSO

Na época do Fernando Henrique Cardoso (PSDB) passamos alguns anos numa penúria. Medidas violentas foram adotadas para conter a inflação, o principal problema da época. Você recebia alguma coisa de manhã, à tarde não comprava nem a metade do que poderia comprar.

O desafio era acertar as finanças, fazer um dinheiro forte. E veio o real. Acabou a inflação.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe um País sem inflação. De origem operária, sabia dos problemas dos operários, em especial dos seus irmãos nordestinos, que precisavam de um dinheiro para comer. E o Lula nada mais fez do que criar as bolsas. Só que criou bolsas em excesso.

Faltaram recursos para manter os programas sociais. Aos poucos as nossas economias foram sendo minadas. Dilma prosseguiu a política e ampliou. Muita coisa necessária. Mas faltou um sentido mínimo de equilíbrio. Resultado: o povo ainda vive à míngua.


SANTO ANDRÉ,
CIDADE DORMITÓRIO

Santo André, hoje, deixa de ser um local de trabalho para se tornar um município dormitório. A cidade do trabalho mais rica do Estado, depois da Capital, foi suplantada por um número grande de outras cidades.

Indústrias fecharam ou foram embora, inclusive para municípios aqui mesmo do Grande ABC. Resultado: grande parte dos que moram aqui já não trabalham em Santo André.

Virão as eleições. Em quem votar? Difícil. Até agora não tenho candidato. Mas ainda tenho tempo para pensar. 

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