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Seqüestrador de Abílio Diniz nao se desfilia do PT


Do Diário do Grande ABC

26/02/2000 | 13:57


Há dez meses em liberdade condicional, o cearense Raimundo Rosélio Costa Freire, 35 anos, único brasileiro entre os ativistas de esquerda que seqüestraram o empresário Abílio Diniz, dono do Grupo Pao de Açúcar, em 1989, ainda está removendo as seqüelas do longo período de prisao - nove anos e quatro meses, mas, aos poucos, está se reinserindo na sociedade.

Trabalha numa gráfica em Fortaleza, retomou o curso de História na Universidade Estadual do Ceará e, ao voltar às atividades políticas, fez uma descoberta que dez anos atrás deixaria o PT de Luiz Inácio Lula da Silva de cabelo em pé.

"Eu continuo filiado ao PT. Ao verificar os registros do partido, percebi que nunca deram baixa na minha filiaçao, de 1983", revela Freire, em entrevista.

No PT do Ceará, onde ingressou como integrante da corrente Convergência Socialista - que foi expulsa do partido e fundou o PSTU em 1994, Freire é o filiado número 1.937, num universo que varia, atualmente, entre 28 e 30 mil filiados no estado.

Esqueleto A descoberta retira do armário um velho esqueleto que o PT sempre negou: quando participou do seqüestro como ativista designado pelo comando de guerrilha da Frente Popular de Libertaçao de El Salvador (FPL), Freire era um filiado do PT, embora nem ele soubesse disso.

Ao deixar o Brasil em 1988, para, em nome da solidariedade internacional, ingressar na guerrilha salvadorenha, o seqüestrador lembra que chegou a pedir, informalmente, que o desligassem do partido. Por descuido ou desleixo, sua ficha de filiaçao nao foi cancelada.

Em dezembro de 1989, quando o cativeiro de Diniz, no Bairro do Jabaquara, Zona Sul de Sao Paulo, foi cercado, nem a polícia sabia que havia um petista entre os ativistas.

Manipulaçao - Mesmo assim, a polícia permitiu que o episódio fosse manipulado politicamente para prejudicar a campanha de Lula, na véspera da eleiçao de 1989, em que concorria a presidente.

Alguns presos foram obrigados a vestir camisetas do PT, apreendidas com material da campanha de Lula nos imóveis alugados pelo grupo, e agendas dos seqüestradores com os telefones e endereços de dirigentes do partido foram divulgadas.

Freire reconhece que o seqüestro foi um erro político cometido pelas organizaçoes envolvidas - FPL e Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), do Chile - e sustenta que ninguém do PT soube com antecedência da Operaçao Carmelo, apelido dado à açao para apanhar Diniz, por cuja libertaçao exigiriam, sem pechincha, US$ 32 milhoes.

Controvérsia - O presidente do PT do Ceará, José Nobre Guimaraes - irmao do deputado José Genoíno (PT-SP), confirmou que Freire ainda está filiado ao partido.

Ele só nao entende como foi recadastrado em 1992, quando o partido abriu um processo de refiliaçao. "Há uma controvérsia nesse caso. Alguma corrente o recadastrou sem o conhecimento do partido. Nao poderia, porque, naquela época, ele estava preso", diz Guimaraes.

Apesar de divergir profundamente do grupo radical ao qual Freire pertencia e de considerar o seqüestro de Diniz um grande equívoco político, visitou o seqüestrador na cadeia, em Fortaleza, e nao faz nenhuma objeçao à sua volta como militante.

Maior prejudicado com a manipulaçao do seqüestro, Lula demorou muitos anos para digerir a operaçao, planejada pela FPL o objetivo era alavancar, com o dinheiro do resgate, a ofensiva final da guerrilha salvadorenha _ e executada por ex-guerrilheiros do MIR, sob o comando do argentino Humberto Eduardo Paz.

Só em dezembro de 1998, quando os ativistas fizeram uma greve de fome de 46 dias, a mais longa já ocorrida no Brasil, para forçar o governo a transferi-los de Sao Paulo, é que o presidente de honra do PT assumiu a causa.

MST - Freire reconhece que o apoio foi fundamental para o desfecho do caso, mas atribui a mudança de comportamento de Lula e do PT à pressao exercida pelo principal dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Joao Pedro Stédile. "A gente deve isso ao Joao Pedro. Foi ele quem perguntou se o PT e Lula iam deixar companheiros mofando no Carandiru", diz o seqüestrador.

Freire, que estava sentenciado a 28 anos de prisao, teve sua pena diminuída para 17 anos e dez meses. Como já cumpriu mais de 11 anos, permanecerá em condicional por pelo menos seis anos. Ele tem que se apresentar ao juiz uma vez por mês, recolher-se em casa às 22h, evitar bares, manifestaçoes e informar a Justiça sempre que precisar sair de Fortaleza.

Livro - "Sinto falta da militância política", diz ele, que oscila entre continuar no PT, mas na ala mais à esquerda, ou transferir-se para o PSTU. Para superar os traumas da militância na guerrilha salvadorenha e dos longos anos de prisao, Freire está fazendo psicoterapia e diz que, ainda este ano, pretende contar sua experiência num livro que, além de exorcizar seus fantasmas, ainda servirá como monografia no curso de história.

Grisalho e 28 quilos mais magro do que na época do seqüestro e da prisao - chegou a pesar 100 quilos e está com 72 quilos, Freire afirma que seu retorno à liberdade foi como se tivesse descoberto que passou 10 anos parado no tempo.

Na semana passada, conseguiu autorizaçao judicial para participar do Programa Livre, do SBT, e voltou pela primeira vez a Sao Paulo. Freire aproveitou para um reencontro com dois ambientes que marcaram sua permanência no cárcere: visitou o Hospital das Clínicas, onde ficou 46 dias em greve de fome, e a Penitenciária do Estado, no Carandiru, a prisao em que permaneceu mais de nove anos. Foi recebido com afeto pelos seus antigos carcereiros. "Eu queria olhar o Carandiru do lado de fora e dizer para mim mesmo que a prisao nao me venceu", diz.

Mágoa - Freire nao renega o passado - "só me arrependo de o seqüestro nao ter dado certo" , mas guarda mágoas de seus companheiros na açao. Diz que nunca perdoou o comandante da operaçao, o argentino Humberto Paz, a quem ainda acusa de delator, por ter levado a polícia ao cativeiro de Abílio Diniz.

Freire acha que, se a polícia nao tivesse aparecido e cercado a casa do Jabaquara, o grupo que se encontrava no local - além dele, lá estavam o casal de canadenses David Spencer e Christine Lamont, o argentino Horácio Paz, irmao de Humberto, e o chileno Hector Tápia - teria condiçoes de trocar Diniz pela libertaçao dos que estavam presos. Pelas suas contas, outros 20 ativistas, todos eles salvadorenhos, conseguiram escapar.

Ele revela também que, se o seqüestro nao tivesse sido frustrado, na semana seguinte outro grupo, formado por experientes guerrilheiros salvadorenhos, com armas de grosso calibre, chegaria a Sao Paulo preparado para um confronto com a polícia paulista na hora em que o dinheiro do resgate fosse entregue. "Haveria derramamento de sangue", conta.



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Seqüestrador de Abílio Diniz nao se desfilia do PT

Do Diário do Grande ABC

26/02/2000 | 13:57


Há dez meses em liberdade condicional, o cearense Raimundo Rosélio Costa Freire, 35 anos, único brasileiro entre os ativistas de esquerda que seqüestraram o empresário Abílio Diniz, dono do Grupo Pao de Açúcar, em 1989, ainda está removendo as seqüelas do longo período de prisao - nove anos e quatro meses, mas, aos poucos, está se reinserindo na sociedade.

Trabalha numa gráfica em Fortaleza, retomou o curso de História na Universidade Estadual do Ceará e, ao voltar às atividades políticas, fez uma descoberta que dez anos atrás deixaria o PT de Luiz Inácio Lula da Silva de cabelo em pé.

"Eu continuo filiado ao PT. Ao verificar os registros do partido, percebi que nunca deram baixa na minha filiaçao, de 1983", revela Freire, em entrevista.

No PT do Ceará, onde ingressou como integrante da corrente Convergência Socialista - que foi expulsa do partido e fundou o PSTU em 1994, Freire é o filiado número 1.937, num universo que varia, atualmente, entre 28 e 30 mil filiados no estado.

Esqueleto A descoberta retira do armário um velho esqueleto que o PT sempre negou: quando participou do seqüestro como ativista designado pelo comando de guerrilha da Frente Popular de Libertaçao de El Salvador (FPL), Freire era um filiado do PT, embora nem ele soubesse disso.

Ao deixar o Brasil em 1988, para, em nome da solidariedade internacional, ingressar na guerrilha salvadorenha, o seqüestrador lembra que chegou a pedir, informalmente, que o desligassem do partido. Por descuido ou desleixo, sua ficha de filiaçao nao foi cancelada.

Em dezembro de 1989, quando o cativeiro de Diniz, no Bairro do Jabaquara, Zona Sul de Sao Paulo, foi cercado, nem a polícia sabia que havia um petista entre os ativistas.

Manipulaçao - Mesmo assim, a polícia permitiu que o episódio fosse manipulado politicamente para prejudicar a campanha de Lula, na véspera da eleiçao de 1989, em que concorria a presidente.

Alguns presos foram obrigados a vestir camisetas do PT, apreendidas com material da campanha de Lula nos imóveis alugados pelo grupo, e agendas dos seqüestradores com os telefones e endereços de dirigentes do partido foram divulgadas.

Freire reconhece que o seqüestro foi um erro político cometido pelas organizaçoes envolvidas - FPL e Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), do Chile - e sustenta que ninguém do PT soube com antecedência da Operaçao Carmelo, apelido dado à açao para apanhar Diniz, por cuja libertaçao exigiriam, sem pechincha, US$ 32 milhoes.

Controvérsia - O presidente do PT do Ceará, José Nobre Guimaraes - irmao do deputado José Genoíno (PT-SP), confirmou que Freire ainda está filiado ao partido.

Ele só nao entende como foi recadastrado em 1992, quando o partido abriu um processo de refiliaçao. "Há uma controvérsia nesse caso. Alguma corrente o recadastrou sem o conhecimento do partido. Nao poderia, porque, naquela época, ele estava preso", diz Guimaraes.

Apesar de divergir profundamente do grupo radical ao qual Freire pertencia e de considerar o seqüestro de Diniz um grande equívoco político, visitou o seqüestrador na cadeia, em Fortaleza, e nao faz nenhuma objeçao à sua volta como militante.

Maior prejudicado com a manipulaçao do seqüestro, Lula demorou muitos anos para digerir a operaçao, planejada pela FPL o objetivo era alavancar, com o dinheiro do resgate, a ofensiva final da guerrilha salvadorenha _ e executada por ex-guerrilheiros do MIR, sob o comando do argentino Humberto Eduardo Paz.

Só em dezembro de 1998, quando os ativistas fizeram uma greve de fome de 46 dias, a mais longa já ocorrida no Brasil, para forçar o governo a transferi-los de Sao Paulo, é que o presidente de honra do PT assumiu a causa.

MST - Freire reconhece que o apoio foi fundamental para o desfecho do caso, mas atribui a mudança de comportamento de Lula e do PT à pressao exercida pelo principal dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Joao Pedro Stédile. "A gente deve isso ao Joao Pedro. Foi ele quem perguntou se o PT e Lula iam deixar companheiros mofando no Carandiru", diz o seqüestrador.

Freire, que estava sentenciado a 28 anos de prisao, teve sua pena diminuída para 17 anos e dez meses. Como já cumpriu mais de 11 anos, permanecerá em condicional por pelo menos seis anos. Ele tem que se apresentar ao juiz uma vez por mês, recolher-se em casa às 22h, evitar bares, manifestaçoes e informar a Justiça sempre que precisar sair de Fortaleza.

Livro - "Sinto falta da militância política", diz ele, que oscila entre continuar no PT, mas na ala mais à esquerda, ou transferir-se para o PSTU. Para superar os traumas da militância na guerrilha salvadorenha e dos longos anos de prisao, Freire está fazendo psicoterapia e diz que, ainda este ano, pretende contar sua experiência num livro que, além de exorcizar seus fantasmas, ainda servirá como monografia no curso de história.

Grisalho e 28 quilos mais magro do que na época do seqüestro e da prisao - chegou a pesar 100 quilos e está com 72 quilos, Freire afirma que seu retorno à liberdade foi como se tivesse descoberto que passou 10 anos parado no tempo.

Na semana passada, conseguiu autorizaçao judicial para participar do Programa Livre, do SBT, e voltou pela primeira vez a Sao Paulo. Freire aproveitou para um reencontro com dois ambientes que marcaram sua permanência no cárcere: visitou o Hospital das Clínicas, onde ficou 46 dias em greve de fome, e a Penitenciária do Estado, no Carandiru, a prisao em que permaneceu mais de nove anos. Foi recebido com afeto pelos seus antigos carcereiros. "Eu queria olhar o Carandiru do lado de fora e dizer para mim mesmo que a prisao nao me venceu", diz.

Mágoa - Freire nao renega o passado - "só me arrependo de o seqüestro nao ter dado certo" , mas guarda mágoas de seus companheiros na açao. Diz que nunca perdoou o comandante da operaçao, o argentino Humberto Paz, a quem ainda acusa de delator, por ter levado a polícia ao cativeiro de Abílio Diniz.

Freire acha que, se a polícia nao tivesse aparecido e cercado a casa do Jabaquara, o grupo que se encontrava no local - além dele, lá estavam o casal de canadenses David Spencer e Christine Lamont, o argentino Horácio Paz, irmao de Humberto, e o chileno Hector Tápia - teria condiçoes de trocar Diniz pela libertaçao dos que estavam presos. Pelas suas contas, outros 20 ativistas, todos eles salvadorenhos, conseguiram escapar.

Ele revela também que, se o seqüestro nao tivesse sido frustrado, na semana seguinte outro grupo, formado por experientes guerrilheiros salvadorenhos, com armas de grosso calibre, chegaria a Sao Paulo preparado para um confronto com a polícia paulista na hora em que o dinheiro do resgate fosse entregue. "Haveria derramamento de sangue", conta.

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