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Mais escuro que mil noites


Carlos Brickmann

13/07/2016 | 07:00


O café vem frio, isso quando vem. Jatinho ou avião da FAB, nem pensar. O comum dos mortais compra uma passagem comum; o incomum sabe que será vaiado durante a viagem, interpelado no aeroporto, insultado; e, máxima humilhação, precisará chamar a polícia para protegê-lo dos homens comuns a quem desprezava, aqueles bobos que gastavam seu dinheiro para viajar, em vez de viajar de graça e ainda embolsar diárias suficientes para tornar-se não correntista comum, mas usufrutuário. Não pode tomar um Chicabon, no bar, sem proteção. Nada nele é comum. E justo agora, Dudu Cunha, como lhe faz falta um pouco de vida comum!

É triste não ser comum, por menos que ser comum pareça desejável. Para outra criatura incomum, criou-se no Itamaraty um cargo que não existia, com bom salário fartamente calculado, verbas, assessores, passagens, e se lhe destinou ótimo apartamento funcional, onde mora numa boa há 13 anos. A julgar por certos sinais bem perceptíveis, foi protegido neste tempo contra a aproximação de dentistas; a julgar pelos resultados que obteve, foi protegido contra a maldição bíblica que determina aos humanos comuns que ganhem o pão com o suor de seu rosto.
E agora, Marco Aurélio, que a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, que tal parar de ignorar a decisão oficial e sair do imóvel indevidamente ocupado?
Senhores incomuns, é hora de largar o osso!

Meninos, eu ouvi
Por mais improvável que pareça, este colunista, pré-adolescente, ligava as ondas curtas de seu rádio Philco para ouvir os debates na Câmara. Dava para ouvir Carlos Lacerda, Almino Affonso, Eloy Dutra, Bilac Pinto, Adaucto Lúcio Cardoso, Emílio Carlos, políticos de primeiro time que se enfrentavam em duros debates. Esse pessoal que hoje disputa a Presidência da Câmara não era nem terceiro reserva. Ganhador de loterias, como Fernando Giacobo, que disse ter sido premiado 12 vezes em 1997, seria considerado um tipo pitoresco, e olhe lá. Por estar na lista da Lava Jato, ficaria fora do jogo. Como seus adversários Rogério Rosso, investigado por peculato, e Rodrigo Maia, citado em textos de Leo Pinheiro, da OAS. E nenhum debate deles vale o esforço de ouvi-los.

O caminho de Cunha
O trabalho de Cunha no afastamento de Dilma foi essencial. Mas não garante seu futuro. Com toda sua competência e habilidade, vai conseguir adiar a decisão parlamentar por algum tempo, não mais do que isso. Tudo indica que consiga sobreviver até agosto. E suas conquistas máximas devem limitar-se a afastar as investigações sobre mulher e filha.

Pague que a conta é sua
Aquela dúvida sobre a redução do deficit público, entre economia e aumento de impostos, já está resolvida: a participação popular foi vitoriosa. O ministro Eliseu Padilha deixou clara essa opção: o governo buscará economizar nas despesas e receitas – o que, se ocorrer, terá de atingir um volume gigantesco – e. depois, imposto. Vem Cide sim, com a vantagem de que não precisa de aprovação do Congresso. Vem a CPMF, devidamente embalada com algum projeto social (Saúde, Educação, casas populares). Vêm os protestos, mas não haverá jeito de deixar de pagar.

Coelhada neles
Está na revista da Turma da Mônica Jovem: Mônica, irritada com tantos palpites sobre o uso ou não de aparelho nos dentes, protesta com a frase “Meu corpo, minhas regras... podem discutir e debater até cansar”. Caiu o mundo na internet, com muita gente acusando Mauricio de Sousa e a quadrinista Petra Leão de integrar conspiração esquerdista – como se as mulheres não esquerdistas fossem imunes à menstruação. Este colunista opina: a) regras fazem parte da vida feminina – aliás, da geração de vida humana; b) lê quem quer e compra a revista; c) Mauricio tem um clássico da Turma da Mônica que, além de divertido como sempre são suas revistas, ganhou prêmio da ONU pelo combate ao racismo; d) este colunista foi personagem da Turma da Mônica, foi colega de Mauricio na Folha de S.Paulo, e se orgulha disso; e) seus filhos sempre tiveram acesso às revistas dele. Mauricio é amigo, gente fina, e, para este colunista, sempre tem razão. Mensagens contra o Mauricio serão encaminhadas à cesta seção.  



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