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Quebrando tabu,
vencendo limites

Idosos com problemas pulmonares realizaram na última
sexta passeio terapêutico na praia da Enseada, no Guarujá


Maíra Sanches
Do Diário do Grande ABC

15/04/2012 | 07:00


Era sexta-feira 13, mas ninguém se lembrou. Seis e meia da manhã. Não houve atrasos e alguns até chegaram antes. Sobravam risos e euforia. Trinta e cinco pacientes do setor de Reabilitação Pulmonar da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), de Santo André, preparavam-se para fazer passeio terapêutico na praia da Enseada, no Guarujá.

A viagem foi promovida pela própria faculdade com objetivo de ressocializar e monitorar pacientes que têm limitações causadas por doenças como enfisema pulmonar, bronquite, DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), entre outras patologias. A maioria consumiu cigarro por décadas. Em estado crítico, muitos apresentam dificuldades para realizar atividades básicas do dia a dia, como tomar banho e se alimentar. Outros, com medo de dar trabalho, se enclausuram em casa e assumem o isolamento.

O que muitos não sabiam é que eram capazes de realizar diversas tarefas de pessoas saudáveis. A prática de exercícios, aliada ao bem-estar e ao clima úmido praiano, torna-se arma contra a evolução das doenças. Desafiar os próprios limites foi decisivo para a manutenção da autoestima. Os sorrisos estáticos denunciavam o desejo de eternizar aquele momento. "Tirem muitas fotos?", pediu um deles.

Por seis vezes durante o trajeto de ida e volta a equipe da Reabilitação Pulmonar mediu o nível de saturação de oxigênio no sangue dos pacientes por meio do oxímetro, aparelho que também fornecia os batimentos cardíacos. Os efeitos positivos puderam ser observados já na descida da serra, próximo à praia, quando os índices aumentaram sensivelmente em quase todos os pacientes, cuja média de idade era de 65 anos. A cada anúncio da fisioterapeuta, uma comemoração efusiva ecoava pelo ônibus.

Depoimentos - O dia estava ensolarado, a praia da Enseada, praticamente vazia e a temperatura da água era convidativa. A aposentada Maria do Socorro da Silva, 63 anos, moradora de Diadema, retornou à infância e reencontrou o mar após 18 anos. Ela faz tratamento há quatro anos na FMABC. Foi o destaque do grupo. Pegou ondas, correu na areia, bateu pernas no raso e ainda pediu bis. Ninguém a tirava da água. Curiosos e toda a equipe da FMABC aplaudiram, da areia, quando a paciente se ergueu em cima de uma prancha com as mãos ao alto, em claro sinal de comemoração. "Conheço meu limite. Tomei meu remedinho para evitar crises", revelou, sussurando. Com asma desde os 7 anos, a paciente teve de aprender a lidar desde criança com as limitações. Depois que iniciou tratamento na FMABC, nunca mais teve crises. A alegria contagiante logo rendeu o apelido de Maria Espuleta. "Estou maravilhada. Perdi o medo. Não sabia o quanto podia."

Mais tímido, o aposentado Osni Macagawa, 68, de Santo André, observava as investidas dos colegas na areia. Logo foi convencido a testar o equilíbrio em cima da prancha. Os pacientes contaram com a colaboração de Eduardo Silveira, professor de surfe e educador físico da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), que tem campus no Litoral. Minutos depois de receber instruções na areia, o paciente que tinha medo até de pescar estava quase em alto-mar. "Tive medo, tentei me reservar. Só na prática percebemos nossa capacidade. Agora sei que posso arriscar. Foi excelente."

Ao todo, cerca de 100 pacientes fazem tratamento no setor de Reabilitação Pulmonar. Os 35 que viajaram ao Guarujá foram selecionados pela equipe médica de acordo com suas disposições físicas.

Resultado da experiência surpreende médico

Nem o professor titular de Pneumologia da FMABC, Elie Fiss, mentor da iniciativa, escondeu a surpresa por testemunhar tantas superações. Da areia, assistiu às performances dos seis pacientes que se arriscaram em cima da prancha e ganharam noções básicas de surfe. Outros, mais receosos, optaram por fazer caminhadas à beira-mar. Segundo o pneumologista, a experiência foi inédita. "Estou muito surpreso. Queria proporcionar algo diferente para melhorar a autoestima deles. Não imaginava que conseguiriam fazer tudo isso. Imagine eles. Todos ultrapassaram os limites que eles mesmos impuseram", exclamou.

Em geral, os pacientes com problemas pulmonares são magros. O esforço feito para respirar consome altas doses de energia. Eles têm menos massa muscular, deficiência óssea, pouca vitamina D e repressão do músculo esquelético.

No setor de Reabilitação Pulmonar da FMABC, criado em 2001, os pacientes fazem exercícios na bicicleta ergométrica, alongamento, fortalecimento de membros e reeducação postural. Por mês, são feitos aproximadamente 800 atendimentos.



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Quebrando tabu,
vencendo limites

Idosos com problemas pulmonares realizaram na última
sexta passeio terapêutico na praia da Enseada, no Guarujá

Maíra Sanches
Do Diário do Grande ABC

15/04/2012 | 07:00


Era sexta-feira 13, mas ninguém se lembrou. Seis e meia da manhã. Não houve atrasos e alguns até chegaram antes. Sobravam risos e euforia. Trinta e cinco pacientes do setor de Reabilitação Pulmonar da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), de Santo André, preparavam-se para fazer passeio terapêutico na praia da Enseada, no Guarujá.

A viagem foi promovida pela própria faculdade com objetivo de ressocializar e monitorar pacientes que têm limitações causadas por doenças como enfisema pulmonar, bronquite, DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), entre outras patologias. A maioria consumiu cigarro por décadas. Em estado crítico, muitos apresentam dificuldades para realizar atividades básicas do dia a dia, como tomar banho e se alimentar. Outros, com medo de dar trabalho, se enclausuram em casa e assumem o isolamento.

O que muitos não sabiam é que eram capazes de realizar diversas tarefas de pessoas saudáveis. A prática de exercícios, aliada ao bem-estar e ao clima úmido praiano, torna-se arma contra a evolução das doenças. Desafiar os próprios limites foi decisivo para a manutenção da autoestima. Os sorrisos estáticos denunciavam o desejo de eternizar aquele momento. "Tirem muitas fotos?", pediu um deles.

Por seis vezes durante o trajeto de ida e volta a equipe da Reabilitação Pulmonar mediu o nível de saturação de oxigênio no sangue dos pacientes por meio do oxímetro, aparelho que também fornecia os batimentos cardíacos. Os efeitos positivos puderam ser observados já na descida da serra, próximo à praia, quando os índices aumentaram sensivelmente em quase todos os pacientes, cuja média de idade era de 65 anos. A cada anúncio da fisioterapeuta, uma comemoração efusiva ecoava pelo ônibus.

Depoimentos - O dia estava ensolarado, a praia da Enseada, praticamente vazia e a temperatura da água era convidativa. A aposentada Maria do Socorro da Silva, 63 anos, moradora de Diadema, retornou à infância e reencontrou o mar após 18 anos. Ela faz tratamento há quatro anos na FMABC. Foi o destaque do grupo. Pegou ondas, correu na areia, bateu pernas no raso e ainda pediu bis. Ninguém a tirava da água. Curiosos e toda a equipe da FMABC aplaudiram, da areia, quando a paciente se ergueu em cima de uma prancha com as mãos ao alto, em claro sinal de comemoração. "Conheço meu limite. Tomei meu remedinho para evitar crises", revelou, sussurando. Com asma desde os 7 anos, a paciente teve de aprender a lidar desde criança com as limitações. Depois que iniciou tratamento na FMABC, nunca mais teve crises. A alegria contagiante logo rendeu o apelido de Maria Espuleta. "Estou maravilhada. Perdi o medo. Não sabia o quanto podia."

Mais tímido, o aposentado Osni Macagawa, 68, de Santo André, observava as investidas dos colegas na areia. Logo foi convencido a testar o equilíbrio em cima da prancha. Os pacientes contaram com a colaboração de Eduardo Silveira, professor de surfe e educador físico da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), que tem campus no Litoral. Minutos depois de receber instruções na areia, o paciente que tinha medo até de pescar estava quase em alto-mar. "Tive medo, tentei me reservar. Só na prática percebemos nossa capacidade. Agora sei que posso arriscar. Foi excelente."

Ao todo, cerca de 100 pacientes fazem tratamento no setor de Reabilitação Pulmonar. Os 35 que viajaram ao Guarujá foram selecionados pela equipe médica de acordo com suas disposições físicas.

Resultado da experiência surpreende médico

Nem o professor titular de Pneumologia da FMABC, Elie Fiss, mentor da iniciativa, escondeu a surpresa por testemunhar tantas superações. Da areia, assistiu às performances dos seis pacientes que se arriscaram em cima da prancha e ganharam noções básicas de surfe. Outros, mais receosos, optaram por fazer caminhadas à beira-mar. Segundo o pneumologista, a experiência foi inédita. "Estou muito surpreso. Queria proporcionar algo diferente para melhorar a autoestima deles. Não imaginava que conseguiriam fazer tudo isso. Imagine eles. Todos ultrapassaram os limites que eles mesmos impuseram", exclamou.

Em geral, os pacientes com problemas pulmonares são magros. O esforço feito para respirar consome altas doses de energia. Eles têm menos massa muscular, deficiência óssea, pouca vitamina D e repressão do músculo esquelético.

No setor de Reabilitação Pulmonar da FMABC, criado em 2001, os pacientes fazem exercícios na bicicleta ergométrica, alongamento, fortalecimento de membros e reeducação postural. Por mês, são feitos aproximadamente 800 atendimentos.

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