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Prioridade de sindicato é o emprego

Martinha afirma que cabe à entidade chamar atenção dos governantes para o problema e mobilizar a sociedade


Vivian Costa
Do Diário do Grande ABC

02/02/2009 | 07:01


O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino da Silva, o Martinha, visitou a redação do Diário e falou sobre a situação crítica por que o setor de autopeças passa neste momento de crise. O dirigente apontou alguns problemas enfrentados pelos trabalhadores e afirmou que os empresários só olham para os próprios problemas. Em novembro, vislumbrando a situação difícil que se iniciaria, ele chamou o empresariado da região para encontrar algumas soluções, mas só teve decepção. "Eles reclamam, reclamam mas também não buscam se fixar como um poder na economia. Percebemos que alguns entendiam a situação, mas na verdade a maioria só olhava para a sua própria situação", explica. Martinha comentou também que o sindicato tem duas bases fundamentais. A principal delas é defender os interesses diretos e imediatos dos trabalhadores e a outra é cuidar do bem-estar e do lazer da categoria.

DIÁRIO - Como o senhor enxerga a região hoje? O que está acontecendo?
MARTINHA - Em novembro comecei a perceber que muitas empresas procuraram o sindicato alegando que a situação estava complicada. As autopeças afirmavam que as montadoras tinham suspendido os pedidos no começo do ano. Normalmente, o setor fecha dezembro com uma carteira de pedidos para janeiro, fevereiro e março. Eles programam as férias coletivas, para voltarem com todo vapor. E isso já me assustava. Eu tive uma reunião na Força Sindical e levei a discussão. Algumas pessoas diziam que não enxergavam crise porque o comércio estava aquecido. Houve algumas demissões em novembro e dezembro, quando muitos sindicalistas diziam que não havia crise. E no começo do ano não foi diferente, muitas autopeças diziam que os três primeiros meses do ano estavam perdidos. O próprio governo falava que injetaria dinheiro para manter os financiamentos de veículos, mas hoje percebemos que além do setor automotivo, os outros setores também estão sentindo. As empresas menores que já passaram o ano se arrastando, estão quebradas. Já temos duas na UTI: a Prats Masó e a Forjafrio, que já declararam insolvência.

DIÁRIO - Estão todos descapitalizados a esse ponto?
MARTINHA - Existem alguns setores como fundição e forjaria que trabalham apertados, já que produzem em função das montadoras.

DIÁRIO - Mas mesmo as montadoras dizendo que não precisam das peças por dois ou três meses as autopeças não conseguem segurar?
MARTINHA - Não é que não conseguem. Existe uma verdadeira sacanagem do poder industrial. Um exemplo do que aconteceu no setor financeiro é de se pensar. Não é possível que um banco quebre tão rápido assim, já que ganhou dinheiro a vida inteira. O empresário também funciona assim: ele ganha, ganha, ganha, mas não assume nenhum risco.

DIÁRIO - Até agora, no começo de janeiro, a sua base tinha registrado 1.500 baixas. No decorrer do mês o número de demitidos aumentou?
MARTINHA - Agora temos mais de 2.000 demissões. Os empresários afirmam que não têm investimentos. Eles alegam que o dinheiro do BNDES não chega para as médias e pequenas empresas. Como sindicalista tenho que apelar para o governo. O Lula é a pessoa que tem mais condições de chamar o movimento sindical e empresários para promover uma conversa nacional e alavancar a economia do País.

DIÁRIO - O senhor acredita que o setor ainda não está crítico?
MARTINHA - Eu acho que está crítico porque o clima psicológico está crítico. Está todo mundo inseguro, os trabalhadores estão inseguros. Se o sindicato chega na porta da fábrica, eles ficam com medo. Imagina esse sentimento de pânico,perdem a confiança. A minha preocupação é que isso aumente e contamine outros setores. E aí a gente entra numa depressão econômica e psicológica.

DIÁRIO - No ano passado vocês sentaram com empresários da região para encontrar alguma solução. Encontraram?
MARTINHA - O meu feeling já apontava problemas futuros. Eu queria estabelecer alguma forma de negociação para evitar que cada um agisse de acordo com seus interesses. Mas infelizmente eles só olham para seu próprio umbigo. Eles reclamam, reclamam mas também não buscam se fixar como um poder na economia.

DIÁRIO - As empresas menores conseguem flexibilizar o emprego com redução de jornada, licença remunerada, entre outras coisas?
MARTINHA - As empresas têm falado que não adianta discutir redução de jornada, mas redução de salário não resolve. Eles afirmam que fica mais caro manter os trabalhadores nestes três meses do que demitir e contratar daqui a três meses. A demissão sai mais barata.

DIÁRIO - O senhor é a favor da redução de salário e jornada de trabalho?
MARTINHA - Nós somos contra essas reduções. Tem acontecido de a gente negociar estas condições com o objetivo de garantir os empregos. Tudo que a gente fizer para garantir emprego é importante. Até mesmo se sujeitar à redução.

DIÁRIO - Qual é a bandeira do sindicato?
MARTINHA - O sindicato tem duas bases fundamentais. Uma é defender os interesses diretos e imediatos dos trabalhadores. A outra é defender as lutas históricas dos trabalhadores. A gente tem que cuidar do lazer, família, moradia, se preocupar com saneamento básico, educação, formação. A nossa prioridade é o emprego. Não estamos preocupados com a categoria apenas. Se estivessem demitindo os metalúrgicos, mas contratando comerciários não estaríamos chateados.

DIÁRIO - O poder dá algum suporte?
MARTINHA- Não. Nós fizemos um ato em Mauá, o presidente da Câmara compareceu e também teve alguns vereadores se mostrando solidários. Mas ninguém nos mostrou ajuda.

DIÁRIO - Poderia ter algum incentivo?
MARTINHA - Há algum tempo empresários vieram reclamar que os impostos em Santo André, como IPTU, eram altos. Quando eu fui candidato (a vice-prefeito) a gente sentou e conversou. Eu disse que era preciso abrir um fórum de discussão porque não era possível que alguém saísse de Santo André por causa do alto preço do IPTU e da água.

DIÁRIO - Cerca de 50% dos empregados da Rowamet aderiram ao PDV?
MARTINHA - É o fator psicológico. A instabilidade psicológica é muito perigosa para o ser humano. Ele chega em casa e não recebe o salário, tem contas a pagar e não tem dinheiro. Ele pode chegar à loucura. Se a situação continuar nesta escala não sei porque vai dar. Eu me lembro que na década de 1980 tinha saques. As pessoas perdem a cabeça.

DIÁRIO - Qual é a média da idade dos metalúrgicos?
MARTINHA - Caiu bastante. Antes era 35, hoje está entre 25 e 30 anos. Muitos até com curso universitário, outros estão cursando. Quanto às mulheres são cerca de 10% na categoria. Hoje, depois da Constituição de 1988, as mulheres passaram a trabalhar à noite também.



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