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Primo Carbonari, o Quixote do cinema


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

21/07/2001 | 16:14


Primo Carbonari, produtor, diretor e fotógrafo de cinejornais, um dos nomes mais vistos (era exibido antes dos longas-metragens) e criticados (pelo ufanismo apresentado nas telas) do cinema nacional, não filma mais. Mas ainda resiste, aos 81 anos. É a filha, a jornalista Regina Carbonari, quem trabalha pelo patrocínio do acervo do pai, estimado em 12 mil latas de filmes armazenadas na sede de sua produtora Amplavisão, em São Paulo, um dos maiores do país no gênero.

Ela também busca apoio para dois novos documentários, que pretende realizar com imagens do acervo. Um sobre o inventor Alberto Santos Dumont (1873-1932) e outro sobre o primeiro aviador brasileiro a cruzar o Atlântico, João Ribeiro de Barros (1900-1947).

Carbonari, cujo último cinejornal foi sobre a posse do ex-presidente Fernando Collor, em 1990, tinha como colegas Jean Manzon, Herbert Richers e Carlos Niemeyer, este do carioquíssimo Canal 100, que exibia jogos de futebol envolvendo clubes do Rio. Na sede da Amplavisão estão abrigados mais de 60 anos de cenas da vida brasileira, boa parte delas feitas sob encomenda para políticos (Ademar de Barros e Getúlio Vargas foram seus clientes).

Entre as películas, registros históricos como o gol do Uruguai que calou o Maracanã na Copa do Mundo de 1950, exibido em várias emissoras de TV; a construção de grandes obras, como Brasília; e a cerimônia que oficializou Cândido Rondon como marechal. Também estão lá, entre outras, cenas como o Grande ABC pré-industrial e as inaugurações da Volkswagen e da FNM (Fábrica Nacional de Motores).

Dos acervos nacionais dos tempos do cinema mudo, alguns incêndios deixaram pouca coisa. O Cine Jornal Brasileiro, que se transformou em Cinejornal Informativo em 1946, mais o Bandeirante da Tela (1949-1956) e o Brasil Hoje, feito durante o regime militar de 1971 a 1979, são os arquivos mais bem preservados. O da produtora Cinédia também se perdeu. A partir dos anos 70, com a agilidade do telejornalismo, o cinejornal perdeu sua função.

Parte do acervo de Carbonari foi cedida ao MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo) e parte foi telecinada para vídeo. Mas a maior parte das películas, algumas das décadas de 20 e 30, feitas em nitrato altamente inflamável, espera catalogação na produtora. Emissoras de TV utilizam imagens desse acervo. O projeto de catalogação e da reserva técnica, que deve entrar na Lei Rouanet, está orçado em R$ 100 mil por Regina.

Carbonari está lúcido, apesar de não ouvir bem. Anda com dificuldade em função da artrose nas pernas e de uma queda sofrida do andar superior da produtora, um tombo amortecido graças a uma pilha de latas do acervo.

Muito mais um técnico autodidata do que um estudioso da estética do cinema, Carbonari dedicou – e dedica – boa parte da vida a equipamentos. Nos anos 50, criou um sistema de captação de imagens semelhante ao CinemaScope, batizado de Amplavisão. Hoje, afirma ter concluído um projetor de terceira dimensão, no qual trabalhou durante 40 anos. Só faltaria uma câmera para rodar um filme e testá-lo. “Se essa máquina fosse para a Itália ou Alemanha, quebrava os norte-americanos”, afirma.

Nacionalista e conservador, apoiou o golpe militar de 1964 e candidatou-se a deputado federal pelo PTB em 1986. “Por dez votos não fui eleito. Se tivesse sido, ia querer saber na Câmara por que só compramos coisas caras dos americanos e não podemos fazê-las aqui, mais barato? Por que temos de nos escravizar ao dólar?”, diz.

Carbonari é um conhecido comprador no meio cinematográfico, pois adquire tudo em equipamentos. Câmeras, tem dezenas, de vários modelos. Comprou também objetos da Cia. Cinematográfica Vera Cruz quando ela foi extinta em 1954. Da empresa de São Bernardo, arrebatou, por exemplo, um conjunto de refletores e uma grua. “Quem diria que o homem que comprou da Vera Cruz nunca teve nada comprado pela companhia”, afirma.



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