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Descartáveis geram empregos na pandemia, mas indústria do plástico ainda sofre



15/07/2020 | 15:05


Enquanto uma fábrica em Candeias, no interior da Bahia, reativa três linhas de produção de placas de acrílico, outra, em Curitiba (PR), minimiza as perdas da pandemia ao vender mais guardanapos descartáveis embalados em plástico. As duas empresas vivem mudanças de demanda em razão das novas normas de segurança trazidas pela covid-19.

No caso baiano, a Unigel havia fechado as três linhas em 2016. Na época, a concorrência com produtos asiáticos foi um dos fatores que tornou a operação inviável. A empresa já planejava reabrir uma das linhas no início deste ano, ao considerar a situação econômica do país mais favorável. A pandemia, porém, levou à reabertura de uma linha em julho e de outra em agosto. As mil toneladas de chapas de acrílico que a Unigel tem capacidade para produzir serão usadas em supermercados e outros estabelecimentos para impedir o contato dos clientes com os funcionários. A empresa estima que o faturamento anual dessas linhas reabertas seja de R$ 300 milhões. Wendel Souza, diretor-Geral de operações comerciais da Unigel, diz que a demanda por esse tipo de barreira sanitária já garantiu vendas até outubro deste ano, com encomendas que se estendem a novembro. "Quando tudo isso acabar, o mercado continuará existindo. Talvez a gente não produza nas três, mas em pelo menos duas", diz Souza.

Para Wesley Soares, de 27 anos, que estava desempregado desde outubro de 2019, voltar a trabalhar durante a pandemia foi uma surpresa. Ele passou a integrar a equipe em junho deste ano. Formado em engenharia de produção, atua agora como operador de manufatura, com um salário inferior ao do último emprego. Mas a recolocação profissional foi a prioridade no momento. "Desde quando iniciei meu primeiro estágio, não havia passado mais de 45 dias sem trabalhar", conta. Na nova empresa, porém, Soares já foi incentivado a voltar a estudar, para galgar novas posições.

No Sul do País, em Curitiba, a Relevo Guardanapos, voltada à fabricação de guardanapos de papel, viu seu faturamento cair 92% com o fechamento do comércio em março. Ao completar 40 dias de fábrica fechada, a empresa buscou minimizar as perdas, apostando nas novas normas de segurança dos restaurantes. A fabricante tirou a poeira de uma máquina que embala guardanapos de luxo em plástico. O equipamento já não era usado desde quando Rio e São Paulo restringiram o uso de descartáveis nos restaurantes. Com a crise sanitária, porém, os estabelecimentos que reabrem já não querem usar guardanapos de pano, como faziam antes. Nesse cenário, levar à mesa um produto embalado individualmente se tornou ideal. Além disso, novos itens, mais sofisticados, foram incorporados ao portfólio da fabricante. "Esses momentos de crise fazem a gente repensar e se reinventar", diz Celso Rufatto, diretor administrativo da empresa. "Foi muito difícil, reduzimos cerca de 60% do nosso quadro de funcionários. Mas agora já estamos recontratando alguns".

A iniciativa da Relevo em criar produtos premium, que substituam os guardanapos de pano, fez com que a empresa atingisse em junho 34% do que havia faturado no mesmo período de 2019. A estimativa para julho é chegar a 42% das vendas do mesmo intervalo do ano passado. "O plástico era vilão, não sem motivo. Creio que quando vier uma vacina, a gente deixe de usá-lo desta maneira na produção", diz Rufatto, apostando que o faturamento volte ao normal em março do ano que vem. A empresa estima que, mesmo sem a embalagem de plástico, as vendas aumentem em 30% em relação a 2019, a partir dos novos modelos que desenvolveu.

Assim como Rufatto, há quem diga que o plástico passou de vilão a herói na pandemia, e a percepção da sociedade sobre o consumo de descartáveis deve mudar no pós-covid. Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho, porém, o aquecimento deste segmento específico está longe de aliviar os efeitos da crise para a indústria como um todo. "O segmento de descartáveis, que representa cerca de 2,5% dos mercados consumidores de plásticos, segue aquecido, a exemplo de embalagens para itens de saúde, higiene e limpeza. Porém, os transformadores que fornecem para o setor automotivo ou para a construção civil continuam em situação delicada", diz Coelho. "A queda de 35% na produção em maio indica continuidade do movimento de retração na indústria do plástico", afirma.

Segundo sondagem da Abiplast, houve uma redução média de 13% nos empregos do setor em maio, queda significativa considerado que, em abril, a retração já havia sido de 35%. Atualmente, 58% das empresas do setor lançam mão da redução de jornada e salários para 36% da sua força de trabalho, bem como antecipações de férias, na tentativa de manter os empregos.

Fontes da indústria afirmam que o setor vê oportunidades trazidas pela pandemia que vão além das placas de acrílico e descartáveis em geral. Equipamentos hospitalares estão no topo da lista de produtos para os quais o Brasil deveria se reindustrializar.

Fora da pandemia, essa indústria vê no Novo Marco Regulatório do Saneamento uma chance de o plástico descartável se redimir mais uma vez: o tratamento de resíduos pode ser uma oportunidade de negócios para as empresas privadas, a partir da preparação dos itens para serem reutilizados como matéria-prima de novos produtos.



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Descartáveis geram empregos na pandemia, mas indústria do plástico ainda sofre


15/07/2020 | 15:05


Enquanto uma fábrica em Candeias, no interior da Bahia, reativa três linhas de produção de placas de acrílico, outra, em Curitiba (PR), minimiza as perdas da pandemia ao vender mais guardanapos descartáveis embalados em plástico. As duas empresas vivem mudanças de demanda em razão das novas normas de segurança trazidas pela covid-19.

No caso baiano, a Unigel havia fechado as três linhas em 2016. Na época, a concorrência com produtos asiáticos foi um dos fatores que tornou a operação inviável. A empresa já planejava reabrir uma das linhas no início deste ano, ao considerar a situação econômica do país mais favorável. A pandemia, porém, levou à reabertura de uma linha em julho e de outra em agosto. As mil toneladas de chapas de acrílico que a Unigel tem capacidade para produzir serão usadas em supermercados e outros estabelecimentos para impedir o contato dos clientes com os funcionários. A empresa estima que o faturamento anual dessas linhas reabertas seja de R$ 300 milhões. Wendel Souza, diretor-Geral de operações comerciais da Unigel, diz que a demanda por esse tipo de barreira sanitária já garantiu vendas até outubro deste ano, com encomendas que se estendem a novembro. "Quando tudo isso acabar, o mercado continuará existindo. Talvez a gente não produza nas três, mas em pelo menos duas", diz Souza.

Para Wesley Soares, de 27 anos, que estava desempregado desde outubro de 2019, voltar a trabalhar durante a pandemia foi uma surpresa. Ele passou a integrar a equipe em junho deste ano. Formado em engenharia de produção, atua agora como operador de manufatura, com um salário inferior ao do último emprego. Mas a recolocação profissional foi a prioridade no momento. "Desde quando iniciei meu primeiro estágio, não havia passado mais de 45 dias sem trabalhar", conta. Na nova empresa, porém, Soares já foi incentivado a voltar a estudar, para galgar novas posições.

No Sul do País, em Curitiba, a Relevo Guardanapos, voltada à fabricação de guardanapos de papel, viu seu faturamento cair 92% com o fechamento do comércio em março. Ao completar 40 dias de fábrica fechada, a empresa buscou minimizar as perdas, apostando nas novas normas de segurança dos restaurantes. A fabricante tirou a poeira de uma máquina que embala guardanapos de luxo em plástico. O equipamento já não era usado desde quando Rio e São Paulo restringiram o uso de descartáveis nos restaurantes. Com a crise sanitária, porém, os estabelecimentos que reabrem já não querem usar guardanapos de pano, como faziam antes. Nesse cenário, levar à mesa um produto embalado individualmente se tornou ideal. Além disso, novos itens, mais sofisticados, foram incorporados ao portfólio da fabricante. "Esses momentos de crise fazem a gente repensar e se reinventar", diz Celso Rufatto, diretor administrativo da empresa. "Foi muito difícil, reduzimos cerca de 60% do nosso quadro de funcionários. Mas agora já estamos recontratando alguns".

A iniciativa da Relevo em criar produtos premium, que substituam os guardanapos de pano, fez com que a empresa atingisse em junho 34% do que havia faturado no mesmo período de 2019. A estimativa para julho é chegar a 42% das vendas do mesmo intervalo do ano passado. "O plástico era vilão, não sem motivo. Creio que quando vier uma vacina, a gente deixe de usá-lo desta maneira na produção", diz Rufatto, apostando que o faturamento volte ao normal em março do ano que vem. A empresa estima que, mesmo sem a embalagem de plástico, as vendas aumentem em 30% em relação a 2019, a partir dos novos modelos que desenvolveu.

Assim como Rufatto, há quem diga que o plástico passou de vilão a herói na pandemia, e a percepção da sociedade sobre o consumo de descartáveis deve mudar no pós-covid. Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho, porém, o aquecimento deste segmento específico está longe de aliviar os efeitos da crise para a indústria como um todo. "O segmento de descartáveis, que representa cerca de 2,5% dos mercados consumidores de plásticos, segue aquecido, a exemplo de embalagens para itens de saúde, higiene e limpeza. Porém, os transformadores que fornecem para o setor automotivo ou para a construção civil continuam em situação delicada", diz Coelho. "A queda de 35% na produção em maio indica continuidade do movimento de retração na indústria do plástico", afirma.

Segundo sondagem da Abiplast, houve uma redução média de 13% nos empregos do setor em maio, queda significativa considerado que, em abril, a retração já havia sido de 35%. Atualmente, 58% das empresas do setor lançam mão da redução de jornada e salários para 36% da sua força de trabalho, bem como antecipações de férias, na tentativa de manter os empregos.

Fontes da indústria afirmam que o setor vê oportunidades trazidas pela pandemia que vão além das placas de acrílico e descartáveis em geral. Equipamentos hospitalares estão no topo da lista de produtos para os quais o Brasil deveria se reindustrializar.

Fora da pandemia, essa indústria vê no Novo Marco Regulatório do Saneamento uma chance de o plástico descartável se redimir mais uma vez: o tratamento de resíduos pode ser uma oportunidade de negócios para as empresas privadas, a partir da preparação dos itens para serem reutilizados como matéria-prima de novos produtos.

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