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"Não acreditava na doença, agora estou
com medo, relata paciente internada"

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Tristeza e alegria se misturam na rotina da estrutura montada por Santo André no Pedro Dell’Antonia


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

02/02/2021 | 00:01


No mesmo dia em que uma máquina de controle cardíaco apita alto anunciando um óbito, uma assinatura de alta é concedida. Enquanto uma luta contra a Covid é perdida, alguém ganha a batalha contra o vírus. Uma família chora pelo luto, outra comemora a vida. É assim que as histórias do hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André, são registradas há exatos 293 dias. Equipe de reportagem do Diário presenciou exatamente este cenário. Quando se anuncia que alguém morreu, o som fica distante e o chão parece sumir. Mas, se de um lado a tristeza por um paciente que perde a vida toma conta, do outro, a emoção em ver uma pessoa voltando para casa renova a esperança.

Dos 190 leitos disponíveis no local – tanto no ginásio principal como nas duas quadras secundárias –, cada maca tem uma história. Há todos os tipos de pacientes em um hospital de campanha. Alegres e confiantes, tristes e desacreditados, falantes e amigáveis, agressivos e intolerantes, decepcionados e arrependidos, negacionistas e também os agradecidos. Idosos, jovens, pessoas em situação de rua e até mesmo os da classe mais alta. Têm os que estão perto de ir para casa e os que estão por um fio entre a vida e a morte e, portanto, nem conseguem mais demonstrar emoções.

Michele Batista da Costa, 23 anos, chama atenção. Embora esteja na ala E, a enfermaria feminina de casos mais leves, a jovem utilizava cateter de oxigênio a cinco litros por minuto – o maior nível antes de passar para máscara com reservatório não reinalante, espécie de bomba de ar – e demonstrava inquietação. Internada desde o dia 22 de janeiro, a menina de olhos marejados confessa arrependimento por ter negligenciado os cuidados sanitários e assume que, diante do cenário, vive momentos de incerteza entre a alta ou piora de seu quadro.

“Não me cuidei. Não usava máscara nem álcool gel. Teimosia, né? Debochei da pandemia, não acreditava na doença e agora estou com muito medo (de morrer)”, disse a menina, enquanto chorava “de arrependimento”.

Michele, que ontem foi transferida para o hospital de campanha da UFABC (Universidade Federal do ABC), contou que sentia muita falta de ar, cansaço, e que, para ela, o pior era não poder levantar diante da dificuldade de respirar. A jovem, que internada pôde enxergar que a doença é real, disse que deixaria como recado às pessoas para que não desacreditem da pandemia. “Se cuidem”, pediu a garota.

Em contraponto ao caso de Michele e, embora em pior estado de saúde, Aparecido Donizetti Virgílio, 62, está na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e se diz animado e confiante com a recuperação. O senhor está respirando com auxílio de máscara, que pode fornecer até 15 litros de oxigênio por minuto. A cada vez que bombava o ar para si mesmo ele dizia que o tratamento dos profissionais “é impecável”. “Ainda está difícil para respirar, mas estou melhorando”, confirmou.

Os demais pacientes que estavam à sua volta não tinham a mesma condição de conversar, já que a situação era mais grave, inclusive, com entubação. Outros não querem se expor, mas, em conversa com a equipe de reportagem, todos mostram que o sentimento é único e, embora existam as diferenças comportamentais, o único desejo é sair daquele lugar em que nunca queriam ter chegado.

Visitas virtuais encurtam a distância entre paciente e família

Estar em um hospital de campanha entristece qualquer pessoa. O clima é de tensão absoluta e desestabiliza o emocional. Mas os profissionais da saúde têm trabalhado, também, para manter a saúde mental dos pacientes acometidos pela Covid utilizando, como um dos métodos primordiais, a visita familiar virtual.

O modelo, segundo profissionais, auxilia na melhora do quadro dos pacientes em todos os aspectos, sobretudo, por alimentar a vontade de melhorar o mais rápido possível e voltar para aqueles que estão distantes.

Embora não possam ver de perto seus familiares, a conversa virtual faz com que os corações se aqueçam. A equipe de psicólogos e assistentes sociais acompanha o momento e é responsável por organizar a agenda das ligações, que duram entre cinco e dez minutos e são feitas por um tablet.

Os pacientes relatam que, com a visita virtual, se sentem mais acolhidos, matam a saudade e ganham forças para combater o vírus. Já os familiares ficam mais calmos em acompanhar a evolução do internado.

A equipe do Diário flagrou o momento em que Carlos Martins de Matos, 68 anos, conversava com a filha Gabriela Rosa de Matos, 35. Internado na ala de enfermaria há uma semana, o homem sorria e mostrava felicidade pelo momento. “Essa visita virtual é muito boa. Aliás, tudo aqui nesse hospital é muito bom, tirando a doença. Os profissionais são atenciosos e cuidam muito bem de nós em todos os aspectos”, elogiou Carlos.

A filha revelou estar “muito preocupada” com o pai internado por Covid, dizendo que não poder ver a pessoa torna o processo mais difícil. “Ter essa ligação é uma possibilidade de sentir-se mais perto. Contribuiu muito para que nós, família, e ele também, fiquemos mais calmos”, afirmou Gabriela. “Esse tratamento do hospital de campanha nos faz sentir acolhidos, acalenta o coração”, concluiu.

Na cama da frente, Paulo Augusto Alves, 51, concordou com o colega de ala e sua filha, e afirmou que, além da visita, “todo o tratamento é top”. “Ter esse hospital de campanha é um ato de responsabilidade e cidadania com a população. Comemos bem, somos tratados com muito amor e temos todo respaldo necessário”, disse, elogiando a atuação da equipe em passar, leito a leito, fazendo ligações às famílias. 



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"Não acreditava na doença, agora estou
com medo, relata paciente internada"

Tristeza e alegria se misturam na rotina da estrutura montada por Santo André no Pedro Dell’Antonia

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

02/02/2021 | 00:01


No mesmo dia em que uma máquina de controle cardíaco apita alto anunciando um óbito, uma assinatura de alta é concedida. Enquanto uma luta contra a Covid é perdida, alguém ganha a batalha contra o vírus. Uma família chora pelo luto, outra comemora a vida. É assim que as histórias do hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André, são registradas há exatos 293 dias. Equipe de reportagem do Diário presenciou exatamente este cenário. Quando se anuncia que alguém morreu, o som fica distante e o chão parece sumir. Mas, se de um lado a tristeza por um paciente que perde a vida toma conta, do outro, a emoção em ver uma pessoa voltando para casa renova a esperança.

Dos 190 leitos disponíveis no local – tanto no ginásio principal como nas duas quadras secundárias –, cada maca tem uma história. Há todos os tipos de pacientes em um hospital de campanha. Alegres e confiantes, tristes e desacreditados, falantes e amigáveis, agressivos e intolerantes, decepcionados e arrependidos, negacionistas e também os agradecidos. Idosos, jovens, pessoas em situação de rua e até mesmo os da classe mais alta. Têm os que estão perto de ir para casa e os que estão por um fio entre a vida e a morte e, portanto, nem conseguem mais demonstrar emoções.

Michele Batista da Costa, 23 anos, chama atenção. Embora esteja na ala E, a enfermaria feminina de casos mais leves, a jovem utilizava cateter de oxigênio a cinco litros por minuto – o maior nível antes de passar para máscara com reservatório não reinalante, espécie de bomba de ar – e demonstrava inquietação. Internada desde o dia 22 de janeiro, a menina de olhos marejados confessa arrependimento por ter negligenciado os cuidados sanitários e assume que, diante do cenário, vive momentos de incerteza entre a alta ou piora de seu quadro.

“Não me cuidei. Não usava máscara nem álcool gel. Teimosia, né? Debochei da pandemia, não acreditava na doença e agora estou com muito medo (de morrer)”, disse a menina, enquanto chorava “de arrependimento”.

Michele, que ontem foi transferida para o hospital de campanha da UFABC (Universidade Federal do ABC), contou que sentia muita falta de ar, cansaço, e que, para ela, o pior era não poder levantar diante da dificuldade de respirar. A jovem, que internada pôde enxergar que a doença é real, disse que deixaria como recado às pessoas para que não desacreditem da pandemia. “Se cuidem”, pediu a garota.

Em contraponto ao caso de Michele e, embora em pior estado de saúde, Aparecido Donizetti Virgílio, 62, está na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e se diz animado e confiante com a recuperação. O senhor está respirando com auxílio de máscara, que pode fornecer até 15 litros de oxigênio por minuto. A cada vez que bombava o ar para si mesmo ele dizia que o tratamento dos profissionais “é impecável”. “Ainda está difícil para respirar, mas estou melhorando”, confirmou.

Os demais pacientes que estavam à sua volta não tinham a mesma condição de conversar, já que a situação era mais grave, inclusive, com entubação. Outros não querem se expor, mas, em conversa com a equipe de reportagem, todos mostram que o sentimento é único e, embora existam as diferenças comportamentais, o único desejo é sair daquele lugar em que nunca queriam ter chegado.

Visitas virtuais encurtam a distância entre paciente e família

Estar em um hospital de campanha entristece qualquer pessoa. O clima é de tensão absoluta e desestabiliza o emocional. Mas os profissionais da saúde têm trabalhado, também, para manter a saúde mental dos pacientes acometidos pela Covid utilizando, como um dos métodos primordiais, a visita familiar virtual.

O modelo, segundo profissionais, auxilia na melhora do quadro dos pacientes em todos os aspectos, sobretudo, por alimentar a vontade de melhorar o mais rápido possível e voltar para aqueles que estão distantes.

Embora não possam ver de perto seus familiares, a conversa virtual faz com que os corações se aqueçam. A equipe de psicólogos e assistentes sociais acompanha o momento e é responsável por organizar a agenda das ligações, que duram entre cinco e dez minutos e são feitas por um tablet.

Os pacientes relatam que, com a visita virtual, se sentem mais acolhidos, matam a saudade e ganham forças para combater o vírus. Já os familiares ficam mais calmos em acompanhar a evolução do internado.

A equipe do Diário flagrou o momento em que Carlos Martins de Matos, 68 anos, conversava com a filha Gabriela Rosa de Matos, 35. Internado na ala de enfermaria há uma semana, o homem sorria e mostrava felicidade pelo momento. “Essa visita virtual é muito boa. Aliás, tudo aqui nesse hospital é muito bom, tirando a doença. Os profissionais são atenciosos e cuidam muito bem de nós em todos os aspectos”, elogiou Carlos.

A filha revelou estar “muito preocupada” com o pai internado por Covid, dizendo que não poder ver a pessoa torna o processo mais difícil. “Ter essa ligação é uma possibilidade de sentir-se mais perto. Contribuiu muito para que nós, família, e ele também, fiquemos mais calmos”, afirmou Gabriela. “Esse tratamento do hospital de campanha nos faz sentir acolhidos, acalenta o coração”, concluiu.

Na cama da frente, Paulo Augusto Alves, 51, concordou com o colega de ala e sua filha, e afirmou que, além da visita, “todo o tratamento é top”. “Ter esse hospital de campanha é um ato de responsabilidade e cidadania com a população. Comemos bem, somos tratados com muito amor e temos todo respaldo necessário”, disse, elogiando a atuação da equipe em passar, leito a leito, fazendo ligações às famílias. 

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