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Quando o Carnaval passar!
Antonio Carlos do Nascimento
17/08/2020 | 07:00
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 Cedo aceitamos que o ano novo brasileiro principia após o Carnaval, inútil contestar, o consenso tem cunho popular arraigado, cláusula pétrea no código de comportamento nacional. Nos acomodamos em nichos enxergando a festa da maneira que nos seja mais conveniente e então viagens, livros, cinemas, restaurantes e inúmeros deleites alternativos à Folia encontram atenção de seus devotos.

De outro lado, muitos engrossam cordões, lotam arquibancadas ou vão às passarelas em temáticas fantasias, para compor a aura carnavalesca em sua essência.

Os gestores públicos das cidades mais afeitas ao período veem generosa oportunidade para agendas positivas, ora frequentando blocos e angariando a simpatia popular, ora demonstrando competência na organização dos eventos, ou, ainda, contabilizando o fisco da enorme receita propiciada pelos negócios.

Parece bom para todos e tão inabalável que nem mesmo a certeza da chegada do famoso vírus em nossas terras na data oficial da festa alertou nossa vigilância ou desestabilizou os ânimos dos foliões, que foram aos milhões para bem além das cinzas da quarta-feira.

Se a micrométrica partícula falhou no primeiro ato, foi competente para impedir que começássemos nosso novo ano e os números das praças carnavalescas amargam perda arrecadatória maior que o valor arrebanhado durante os dias do festejo. Prejuízo tímido perante a projeção negativa para os meses que se seguem.

Em todo o mundo alguns movimentos compostos por milhares de pessoas buscam espaços para expressar seus anseios, reivindicar e apresentar conquistas. Eventualmente ocorre enorme sintonia entre o local escolhido e o grupo idealizador, não demorando para que a simbiose seja oficializada no calendário, habitualmente uma vez ao ano.

Megaeventos, tais como a Copa do Mundo de futebol, Olimpíadas e vários de seus correlatos são querências correntes de vários governos, os quais justificam seus empenhos postulantes pela resultante econômico-social proporcionada pela dinâmica que envolve estas realizações. O discurso quase unânime contempla a inclusão das cidades do país-sede nos roteiros turísticos, durante e após o evento, a enorme movimentação econômica durante a realização dos espetáculos, assim como a doação das benfeitorias estruturantes para sua gente.

Mesmo sem a ameaça biológica a inabalável fórmula já dava sinais de fadiga pelo mundo e por aqui se mostrou manca desde as primeiras horas após as vitoriosas candidaturas. Herdamos estádios de futebol que raramente pagam seus custos operacionais, complexos esportivos em semiabandono e balanços inacreditavelmente negativos.

Os reais resultados de alguns de nossos grandes eventos não são entregues ao rigor da álgebra e não raramente viradas culturais exibem saldos de fatalidades coadas pelas madrugadas que prescindem outras avaliações, passeatas que intencionam arrefecer intolerâncias provocam iras e desastres, contextos que permitem muitos questionamentos para seus equivalentes.

Talvez seja o momento para mais uma autorreflexão chancelada pela pandemia da Covid-19, pois ao gosto das multidões o emotivo comumente supera a razão, conhecimento utilizado pelos líderes romanos para a criação intitulada política do pão e circo. Este modelo contentor das massas as agradava com entretenimentos e saciava sua fome com distribuição de pão, mantendo nas arenas seus serviçais para quando lhes fossem convenientes.

Enquanto replicarmos a estratégia imperial romana muitos de nossos melhores cérebros habitarão distantes de nossos delírios festivos, desfilando seus privilegiados raciocínios em Harvard, Columbia, Princeton, Yale, Stanford, Oxford, Cambridge, Sorbonne e tantos outros centros acadêmicos de excelência mundo afora.

É preciso diversão e arte, sempre, mas é necessário declinarmos da condução inerte, o que não impede (e nem deve) o Carnaval em seus dias e outras datas festivas.

Considerados os fatos, nos obrigaremos aos discernimentos meritocráticos, conquistados nas salas de aula, por governantes e governados, para finalmente deixarmos de esperar o Carnaval passar.




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