Economia

Emprego cresce, mas salário cai


O emprego com carteira assinada voltou a crescer no Grande ABC em 2018, após amargar cinco anos seguidos de retração. Porém, a massa de renda dos trabalhadores formais não acompanhou o aumento no número de postos de trabalho. Apesar de o volume de vagas ter crescido 1,02%, ao passar de 728.957, em 2017, para 736.374, acréscimo de 7.417, no ano passado o valor médio da remuneração teve queda de 1,68%, ao recuar de R$ 3.213,08 para R$ 3.159,01. Ou seja, R$ 54,07.

Os dados são da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), divulgados na última semana pelo Ministério da Economia. Os números foram deflacionados, ou seja, representam o valor real, já que foram ajustados de acordo com a inflação do período pelo Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo.

De acordo com o coordenador de estudos do observatório e professor de economia da Metodista, Sandro Renato Maskio, responsável pelo levantamento, o cenário é comum após longos períodos de crise econômica. Prova disso é que a região ainda não recuperou a média salarial que possuía em patamares pré-crise – nem o contingente de empregos – já que em 2010 o valor médio que cada trabalhador recebia era de R$ 3.280,86, e havia 798,3 mil profissionais registrados.

“Isso acontece porque houve um período de retração de volume de empregos e, claramente, quando isso acontece em período de crise, a folha de pagamento é levada em consideração. Em geral, boa parte do pessoal que é demitido acaba sendo profissional com salário maior. Quando essa empresa volta a contratar, há muitas pessoas oferecendo mão de obra no mercado, e se consegue fazer a contratação com salários menores. Por isso que a massa salarial da região ainda não melhorou”, explicou.

A cidade que possui o maior salário médio da região é São Bernardo, com R$ 3.626,68, em contraponto a Rio Grande da Serra, com o menor contingente em R$ 2.351,49 mensais.

“Além da oferta e da procura, o que devemos observar é onde está se gerando emprego, que é mais serviços e comércio. A indústria, que é onde se tem o maior rendimento, ainda não voltou a contratar”, disse o economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero.

A explicação endossa por que São Bernardo ainda tem o maior salário, graças à forte presença industrial e de cinco montadoras. Em compensação, Santo André – que foi a cidade que mais gerou empregos no ano passado – tem uma remuneração ainda menor do que de 2017, passando de R$ 2.842,70 para R$ 2.774 mensais. A cidade teve um crescimento de 7.156 empregos no período, responsável pela elevação do saldo na região, a maior parte deles, porém, na área de serviços.

O panorama de se encontrar salários menores após um tempo desempregado tem sido comum. Caso do porteiro Valdir Presente Rubio, 57 anos, morador do bairro Assunção, em São Bernardo. Até 2013, ele trabalhava como técnico de óptica em fabricante de óculos, mas precisou sair por questões pessoais. Desde então, tentou empreender – o que acabou não dando certo – e começou a viver de bicos. “Cansei de mandar currículos, mas não consegui retornar à minha área. Depois dos 50 (anos de idade) é mais difícil encontrar emprego, ainda mais que eu não estudei muito e tinha feito apenas um curso técnico na área em que atuava”, disse.

Há pouco mais de um ano, Rubio conseguiu se recolocar no mercado, porém, na função de porteiro. E, com isso, viu a sua remuneração cair de R$ 6.000 mensais para R$ 1.500. “A vida mudou muito, e temos de ser camaleão também, aceitar e agradecer. Minha mulher é aposentada como funcionária pública e, juntos, conseguimos viver com o nosso dinheiro”, disse ele, que também tem grupo de artes chamado Babarulho com a mulher. “A gente se reúne para desenvolver músicas autorais, faz figurinos e constrói toda cena. Quando me aposentar, vou me dedicar totalmente a isso”, afirmou.


Para mudança do cenário, a economia precisa decolar no País

Para o coordenador do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, Sandro Maskio, o cenário só deve começa a mudar a partir de um crescimento mais efetivo da economia, que já era previsto para este ano, porém, só deve acontecer de modo mais efetivo em 2020. Além disso, a indústria, setor que mais agrega valor na região e que atualmente sofre com a queda de exportações para a Argentina, precisa voltar a contratar e a investir.

Segundo ele, as questões políticas também tendem a interferir no cenário. “A gente está em um momento em que obviamente a política acaba interferindo na economia. A conjuntura econômica se agravou nos últimos 15 dias e, se o presidente (Jair Bolsonaro, PLS) continuar com essas brigas políticas junto ao seu partido, isso pode interferir no andamento das reformas. Isso porque, para que elas sejam aprovadas, é necessário uma boa base de articulação. A gente sofre esse impacto porque é uma relação bastante próxima”, afirmou Maskio.

“Existe essa pequena dinâmica que é relacionada à demanda. Não é só porque vão haver impactos no número de empregos que os salários vão melhorar, isso só acontece à medida em que o mercado melhorar de fato e ter um crescimento estabilizado, o que exige tempo”, disse.

Além disso, a região também precisa do crescimento da indústria, principalmente a automotiva. Além das seis montadoras – sendo que a Ford anunciou o fechamento da fábrica em São Bernardo no dia 31, que ainda tem situação indefinida por causa de negociações para a compra da Caoa – o setor automotivo movimenta toda uma cadeia, como as empresas de ferramentaria e autopeças.

“A indústria é extremamente importante para a massa salarial. Não é o que mais emprega, mas ainda é o mais forte no salário médio. Isso sem falar que o setor industrial também é muito diferenciado na questão da qualificação”, afirmou o especialista.

Para se ter noção do peso do setor, enquanto o trabalhador da indústria metalúrgica tem média salarial de R$ 3.452,70 na região, segundo dados da Rais do ano passado, quem trabalha no comércio varejista ganha R$ 2.179,09.
 

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