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‘PT é importante na vida do Brasil’


Evelize Pacheco
Do Diário do Grande ABC

10/02/2005 | 13:38


Após 17 anos de afastamento, o ex-prefeito Gilson Menezes está prestes a voltar ao PT. Agente da primeira experiência do PT em uma administração, no início dos anos 80, Gilson Menezes afirma que o partido avançou muito na luta por uma sociedade brasileira democrática. “Embora ache que a democracia só será completa quando houver justiça social”, opina. Testemunha do nascimento do partido nas greves e na briga pela abertura política, Gilson conta como contribuiu para fazer essa trajetória.

E não poupa elogios à legenda, que deixou em 1988 por brigas políticas – para definir o candidato ideal do partido – com o então companheiro de partido (e seu secretário de Saúde à época, José Augusto da Silva Ramos). A reaproximação com o PT começou durante o segundo turno das eleições de 2004, quando o ex-prefeito e então candidato derrotado pelo PL deu apoio ao prefeito de Diadema reeleito, José de Filippi Júnior. A aliança garantiu mais um mandato aos petistas, e abriu uma brecha para Gilson alimentar esperança de voltar ao partido.

DIÁRIO – O que mudou nestes 25 anos dentro do PT? Qual sua visão sobre essa trajetória?

GILSON MENEZES – O PT é  importante na vida do Brasil, nas mudanças que aconteceram. Contribuiu muito na questão da luta pela democracia. Mesmo sendo a mesma formação do PT, as pessoas que vieram depois de participar da organização do PT foram oriundas das lutas pela democracia, não só do PT mas de outros partidos. Embora sempre ache que a democracia só será completa quando houver justiça social, não há democracia sem justiça social. Porque o processo de domínio não foi somente pelo regime militar, mas pelo domínio do capital, de oportunidades. Mas se olharmos para aquilo que vivenciamos, para o que vivemos no processo da ditadura, da falta de liberdade, acho que conseguimos um grande avanço... Gosto sempre de homenagear as pessoas que lutaram por essa democracia, porque foi um sofrimento muito grande, porque a gente saía de casa e não sabia se voltava. Hoje, pelo menos, a gente tem o direito de ir e vir, de expor as idéias, de fazer um discurso na rua. Acho que não podemos dizer que não avançamos, isso seria uma crueldade. É como Diadema nessa campanha, que aconteceu agora, muita gente dizia: Diadema está um caos, eu olhava para essas pessoas e falava: você não conheceu Diadema há 25 anos, falar que Diadema está um caos... ora, tem problemas ainda, mas ninguém pode negar que a cidade melhorou muito, muito mesmo. É igual ao Brasil, ainda não é o que queremos, mas o Brasil conseguiu muitas coisas do ponto de vista da democracia e agora dá para, pelo menos, organizar a luta com mais tranqüilidade. O PT contribui demais para isso.

DIÁRIO – E a relação da cidade com o PT? São histórias interligadas?

GILSON – Agradeço a Deus por ter participado dessas coisas todas, se um dia sonhei em ajudar a mudar a sociedade, como a gente não conseguiu tudo que estava na nossa cabeça, a gente (questiona), será que valeu a pena? Nós somos seres humanos, então temos essas atitudes, mas se nós olharmos o que foi feito, e eu participei diretamente dessas transformações todas, mesmo durante o golpe militar estive na luta. De todas as lutas, de 1964 para cá, participei, do movimento estudantil, não era estudante, mas participava daquelas passeatas. Em 1º de maio de 1968 participei da luta dos estudantes e dos operários. Em 1978 fui chamado pelo Lula para ingressar na chapa de renovação do sindicato e tomei posse no 1º de maio. No dia 12, com apenas 12 dias na diretoria do sindicato, nós organizamos a greve na Scania, liderei a greve lá. Então, veio o PT, as lutas de 1979 e 1980, veio a cassação do sindicato, organizamos o Fundo de Greve, muitos ajudaram a organizar, mas tive a iniciativa de buscar as pessoas para organizar e fui presidente por conta disso, sem querer, nunca pedi para sê-lo. Depois veio o PT, participei da organização, das primeiras conversas sobre o PT e então compreendi a necessidade de fundar um partido dos trabalhadores, com tranqüilidade, com facilidade. Então participei de toda essa conversa, por ironia do destino, o PT lançou vários candidatos a prefeito pelo Brasil e fui o único prefeito eleito. Na verdade, teve outro prefeito eleito no Maranhão, mas ficou por pouco tempo no PT, foi para o PDS logo em seguida. Então, Deus me deu a oportunidade de estar à frente dessa luta toda, fazer com que eu me apegasse à luta, porque era isso que eu queria. Mas me sinto culpado ainda, porque a nossa luta não foi suficiente para conseguir uma democracia real, uma vida melhor para os trabalhadores, me sinto culpado também, apesar de achar que fiz muita coisa, mas me coloco ao lado dos que ainda têm culpa por não ter conseguido aquilo que queríamos. No entanto, acho que avançamos, agradeço a Deus por isso, de ter tido coragem de enfrentar, sem nunca trair os trabalhadores, sem nunca virar as costas para o povo como prefeito, como líder sindical, jamais fiz algo que pudesse me envergonhar. Fiz coisas erradas, mas nada que pudesse me desapontar perante o povo. Não sou perfeito, lógico, ninguém é..

DIÁRIO – Voltando um pouco, como o senhor vê aquele momento na Prefeitura de Diadema, há mais de 20 anos? Foi um momento simbólico, usado até nas recentes campanhas eleitorais, qual é o sentido daquela administração, após tantos anos?

GILSON – Olho com muita alegria, com muito orgulho, agradeço a Deus por ter dado essa oportunidade, poderia ser outro, coincidentemente fui eu quem esteve à frente dessas coisas todas. Acho até que minha experiência deve ter ajuda outras experiências, por exemplo, (Luiza) Erundina foi prefeita de São Paulo, o Lula é presidente, ele não foi para a Presidência totalmente sem conhecimento de alguém que enfrentou pela primeira vez a maneira diferente de administrar. Administrar de algumas maneiras, penso que não se pode fazer nada para o povo, mas é mais fácil, você tentar fazer o máximo pelo povo, você sofre mais porque posições diferentes começam a te perseguir. Como quando eu quis montar uma usina de lixo em Diadema, por causa da indústria do lixo ninguém queria aceitar aquela solução que seria boa para a comunidade e para o meio ambiente. O interesse particular fez com que todos me perseguissem. E hoje temos muitos incentivos da prefeitura, por exemplo, para fazer reciclagem de lixo. Naquele momento seria um avanço muito grande, porque não iríamos enterrar matéria-prima que poderia ser reaproveitada como adubo orgânico ou a até como combustível. Muitos preferiam e ainda preferem enterrar o lixo. São coisas que naquele momento todo mundo reprovava e hoje... Outro exemplo de resistência: o skate, eu estava louco para montar pista de skate em toda Diadema, mas sofri muita pressão contrária, pessoas organizavam a população para não deixar porque seria encontro de vagabundos. Hoje o skate está sendo glorificado como o esporte mais importante aí na mídia. E tive que fazer algumas pistas com muitas dificuldades. São essas coisas, tudo que se faz de novo sofre com essa experiência. Acho que ajudou algumas pessoas pelo menos a refletir. Sou o primeiro autor da lei do Dia da Consciência Negra do Brasil, primeiro em Diadema e segundo no Estado de São Paulo, e hoje é nacionalmente o Dia da Consciência Negra, tem município que é até feriado. Naquele momento sofri uma pressão muito grande na Assembléia, não queriam nem aprovar na comissão que discutia, depois o movimento negro foi lá e me ajudou. São coisas que tive de passar, é igual greve, todo mundo estava no clima, clima tenso, mas se não tem alguém para fazer mesmo, poderia não ter acontecido, poderíamos ter atrasado o movimento e tem de ter alguém que vá e diga ‘vou fazer’, mesmo que isso aí custe sua vida. Tive que arriscar e confiar em três mil pessoas que iriam entrar na fábrica e não ligariam as máquinas. Não é que eu queira ser herói, não é isso, mas teve que ser eu. Tive que fazer. Ah, mas depois outras fábricas pararam, sim, mas fica a experiência da Scania, dá coragem, reflete, faz com que o trabalhador perceba que é possível porque lá foi feito, eu tive que arriscar tudo, arrisquei a vida, sai de casa sem saber o que ia acontecer, se daria certo a greve ou não, se eles descobrissem antes de acontecer, me levariam para o DOPS e não aconteceria nada. Quantos não foram torturados e não acontecia nada na fábrica, porque o trabalhador não tinha passado pela experiência de parar, então é algo significativo, não quero ser melhor do que ninguém, nem mais inteligente do que ninguém, mas foi dado a mim essas tarefas, as primeiras greves, depois a primeira administração do PT de um operário frente a Prefeitura. Acho que graças a Deus  posso dizer que erros tiveram, mas os acertos foram muito maiores e acho que contribui para o crescimento do PT. Os espinhos que vêm pelo caminho são coisas naturais.

DIÁRIO – Esses espinhos se referem à saída do partido e à sua trajetória pós-PT?

GILSON – Hoje alguns falam ‘você não deveria ter saído, deveria ter ficado’. Quem sabe se tivesse um pouco mais de maturidade poderia ter ficado mesmo, porque o sofrimento de ter saído foi maior do que sentiria se tivesse ficado, foi muito maior. Quantas vezes (nesses anos) falava para mim mesmo: ‘Eu estou fora do PT...estou fora’. Então, agora possivelmente vou voltar ao PT. Ajudando a derrotar aquele que me fez sair. É uma alegria muito grande. Derrotando aquele que me fez sair, que usou todos os meios para que eu saísse do PT, todos os meios de golpe, coisa que não gosto. Hoje estou quase voltando ao PT.

DIÁRIO – Ainda não foi oficializado esse retorno?

GILSON – Não, não foi oficializado até falei para o Filippi, ‘olha Filippi eu preciso ter uma conversa contigo, para você dar a linha aí de qual é a hora de voltar, qual é o momento’. Acredito até que no aniversário de 25 anos do PT, quem sabe nessa data vou assinar a ficha do partido, mas ainda não sei. Vou dizer uma coisa, nesse ponto estou feliz, muito feliz, pelo PT ter caminhado bastante. Hoje temos o presidente da República, que saiu da mesma diretoria que a nossa, que foi o meu presidente do sindicato, acho que contribui um pouquinho para que ele chegasse a ser presidente.

DIÁRIO – Mas ao longo desses 25 anos, o PT não perdeu alguma coisa no caminho? Foram muitas transformações, tanto do partido como da conjuntura do país.

GILSON – Pelo que sinto, as pessoas que realmente fundaram o PT têm compromisso, acho que não perderam essa vontade de realizar aquilo que nós sonhamos. Agora no enfrentamento da administração, às vezes as pessoas avaliam que devam caminhar por aqui, com determinadas posições, mas acho que os sonhos das pessoas não mudaram. É que as pessoas podem achar que esse caminho é o mais correto. Por exemplo, tem gente dentro do PT hoje que está contra os juros altos, outros estão a favor para segurar a inflação. Quem tem razão? É complicado. Estou avaliando melhor as coisas nesse sentido, posso lutar favorável àquilo que defendo, mas não é por isso que é motivo de se ter um racha, achar que está tudo perdido. Acredito que temos que insistir naquele ponto de vista que defendemos como correto... Mas não dizer que, por isso, vai estourar tudo, vai brigar com todo mundo por conta de um pensamento, que um dia a pessoa possa dizer que estava errada naquela avaliação. Acho que deve ser assim, estava lendo uma matéria sobre hiperatividade, tenho problema de hiperatividade, tive problema para estudar, falta de paciência e tal, e agora estou tentando me educar um pouco, em cima dessa minha postura...Muitas vezes tem gente que fala o Gilson não é democrático, porque vai com tudo, atropela... Sou democrático, tenho certeza disso, só que às vezes, pela minha hiperatividade, pelo meu impulso, acabo me atropelando, e dá essa impressão de que não sou democrático. Às vezes, acerto com isso, se não fosse na esquerda não teria parado... Agora que o Zé Augusto (ex-prefeito José Augusto da Silva Ramos, hoje no PSDB) fez comigo dentro do PT foi muito cruel, muito cruel, e não tenho aquele arrependimento de culpa de ter saído, mas sinto que poderia ter tido um pouco mais de paciência para brigar contra ele ali dentro mesmo, para brigar contra ele pelas atitudes dele ali dentro, isso é uma questão de avaliação. Perdi nesse caso por não ter ficado dentro, devia ter continuado brigando, mas ganhei no caso da Scania, e ganhei em muitas atitudes que tomei na prefeitura. Demora, às vezes, muitos anos para você mostrar que estava certo ou errado.

DIÁRIO – E essa experiência agora de participar do governo petista como secretário?

GILSON – Cultura é uma coisa que eu gosto muito. Haja vista o Carnaval, organizado no primeiro mandato, eu pessoalmente trabalhei para organizar o Carnaval. E no segundo mandato, teve a Casa da Música, Hip Hop, Casa da Fotografia, etc. No primeiro mandato também teve, com todas as dificuldades, o Festival de Dança na cidade, uma série de atividades culturais na cidade que acho que o Filippi deve ter observado. Acho que o Filippi deve ter tido alguma informação de que eu gostava de cultura e colocou esse desafio, ele está me dando todo o apoio.


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‘PT é importante na vida do Brasil’

Evelize Pacheco
Do Diário do Grande ABC

10/02/2005 | 13:38


Após 17 anos de afastamento, o ex-prefeito Gilson Menezes está prestes a voltar ao PT. Agente da primeira experiência do PT em uma administração, no início dos anos 80, Gilson Menezes afirma que o partido avançou muito na luta por uma sociedade brasileira democrática. “Embora ache que a democracia só será completa quando houver justiça social”, opina. Testemunha do nascimento do partido nas greves e na briga pela abertura política, Gilson conta como contribuiu para fazer essa trajetória.

E não poupa elogios à legenda, que deixou em 1988 por brigas políticas – para definir o candidato ideal do partido – com o então companheiro de partido (e seu secretário de Saúde à época, José Augusto da Silva Ramos). A reaproximação com o PT começou durante o segundo turno das eleições de 2004, quando o ex-prefeito e então candidato derrotado pelo PL deu apoio ao prefeito de Diadema reeleito, José de Filippi Júnior. A aliança garantiu mais um mandato aos petistas, e abriu uma brecha para Gilson alimentar esperança de voltar ao partido.

DIÁRIO – O que mudou nestes 25 anos dentro do PT? Qual sua visão sobre essa trajetória?

GILSON MENEZES – O PT é  importante na vida do Brasil, nas mudanças que aconteceram. Contribuiu muito na questão da luta pela democracia. Mesmo sendo a mesma formação do PT, as pessoas que vieram depois de participar da organização do PT foram oriundas das lutas pela democracia, não só do PT mas de outros partidos. Embora sempre ache que a democracia só será completa quando houver justiça social, não há democracia sem justiça social. Porque o processo de domínio não foi somente pelo regime militar, mas pelo domínio do capital, de oportunidades. Mas se olharmos para aquilo que vivenciamos, para o que vivemos no processo da ditadura, da falta de liberdade, acho que conseguimos um grande avanço... Gosto sempre de homenagear as pessoas que lutaram por essa democracia, porque foi um sofrimento muito grande, porque a gente saía de casa e não sabia se voltava. Hoje, pelo menos, a gente tem o direito de ir e vir, de expor as idéias, de fazer um discurso na rua. Acho que não podemos dizer que não avançamos, isso seria uma crueldade. É como Diadema nessa campanha, que aconteceu agora, muita gente dizia: Diadema está um caos, eu olhava para essas pessoas e falava: você não conheceu Diadema há 25 anos, falar que Diadema está um caos... ora, tem problemas ainda, mas ninguém pode negar que a cidade melhorou muito, muito mesmo. É igual ao Brasil, ainda não é o que queremos, mas o Brasil conseguiu muitas coisas do ponto de vista da democracia e agora dá para, pelo menos, organizar a luta com mais tranqüilidade. O PT contribui demais para isso.

DIÁRIO – E a relação da cidade com o PT? São histórias interligadas?

GILSON – Agradeço a Deus por ter participado dessas coisas todas, se um dia sonhei em ajudar a mudar a sociedade, como a gente não conseguiu tudo que estava na nossa cabeça, a gente (questiona), será que valeu a pena? Nós somos seres humanos, então temos essas atitudes, mas se nós olharmos o que foi feito, e eu participei diretamente dessas transformações todas, mesmo durante o golpe militar estive na luta. De todas as lutas, de 1964 para cá, participei, do movimento estudantil, não era estudante, mas participava daquelas passeatas. Em 1º de maio de 1968 participei da luta dos estudantes e dos operários. Em 1978 fui chamado pelo Lula para ingressar na chapa de renovação do sindicato e tomei posse no 1º de maio. No dia 12, com apenas 12 dias na diretoria do sindicato, nós organizamos a greve na Scania, liderei a greve lá. Então, veio o PT, as lutas de 1979 e 1980, veio a cassação do sindicato, organizamos o Fundo de Greve, muitos ajudaram a organizar, mas tive a iniciativa de buscar as pessoas para organizar e fui presidente por conta disso, sem querer, nunca pedi para sê-lo. Depois veio o PT, participei da organização, das primeiras conversas sobre o PT e então compreendi a necessidade de fundar um partido dos trabalhadores, com tranqüilidade, com facilidade. Então participei de toda essa conversa, por ironia do destino, o PT lançou vários candidatos a prefeito pelo Brasil e fui o único prefeito eleito. Na verdade, teve outro prefeito eleito no Maranhão, mas ficou por pouco tempo no PT, foi para o PDS logo em seguida. Então, Deus me deu a oportunidade de estar à frente dessa luta toda, fazer com que eu me apegasse à luta, porque era isso que eu queria. Mas me sinto culpado ainda, porque a nossa luta não foi suficiente para conseguir uma democracia real, uma vida melhor para os trabalhadores, me sinto culpado também, apesar de achar que fiz muita coisa, mas me coloco ao lado dos que ainda têm culpa por não ter conseguido aquilo que queríamos. No entanto, acho que avançamos, agradeço a Deus por isso, de ter tido coragem de enfrentar, sem nunca trair os trabalhadores, sem nunca virar as costas para o povo como prefeito, como líder sindical, jamais fiz algo que pudesse me envergonhar. Fiz coisas erradas, mas nada que pudesse me desapontar perante o povo. Não sou perfeito, lógico, ninguém é..

DIÁRIO – Voltando um pouco, como o senhor vê aquele momento na Prefeitura de Diadema, há mais de 20 anos? Foi um momento simbólico, usado até nas recentes campanhas eleitorais, qual é o sentido daquela administração, após tantos anos?

GILSON – Olho com muita alegria, com muito orgulho, agradeço a Deus por ter dado essa oportunidade, poderia ser outro, coincidentemente fui eu quem esteve à frente dessas coisas todas. Acho até que minha experiência deve ter ajuda outras experiências, por exemplo, (Luiza) Erundina foi prefeita de São Paulo, o Lula é presidente, ele não foi para a Presidência totalmente sem conhecimento de alguém que enfrentou pela primeira vez a maneira diferente de administrar. Administrar de algumas maneiras, penso que não se pode fazer nada para o povo, mas é mais fácil, você tentar fazer o máximo pelo povo, você sofre mais porque posições diferentes começam a te perseguir. Como quando eu quis montar uma usina de lixo em Diadema, por causa da indústria do lixo ninguém queria aceitar aquela solução que seria boa para a comunidade e para o meio ambiente. O interesse particular fez com que todos me perseguissem. E hoje temos muitos incentivos da prefeitura, por exemplo, para fazer reciclagem de lixo. Naquele momento seria um avanço muito grande, porque não iríamos enterrar matéria-prima que poderia ser reaproveitada como adubo orgânico ou a até como combustível. Muitos preferiam e ainda preferem enterrar o lixo. São coisas que naquele momento todo mundo reprovava e hoje... Outro exemplo de resistência: o skate, eu estava louco para montar pista de skate em toda Diadema, mas sofri muita pressão contrária, pessoas organizavam a população para não deixar porque seria encontro de vagabundos. Hoje o skate está sendo glorificado como o esporte mais importante aí na mídia. E tive que fazer algumas pistas com muitas dificuldades. São essas coisas, tudo que se faz de novo sofre com essa experiência. Acho que ajudou algumas pessoas pelo menos a refletir. Sou o primeiro autor da lei do Dia da Consciência Negra do Brasil, primeiro em Diadema e segundo no Estado de São Paulo, e hoje é nacionalmente o Dia da Consciência Negra, tem município que é até feriado. Naquele momento sofri uma pressão muito grande na Assembléia, não queriam nem aprovar na comissão que discutia, depois o movimento negro foi lá e me ajudou. São coisas que tive de passar, é igual greve, todo mundo estava no clima, clima tenso, mas se não tem alguém para fazer mesmo, poderia não ter acontecido, poderíamos ter atrasado o movimento e tem de ter alguém que vá e diga ‘vou fazer’, mesmo que isso aí custe sua vida. Tive que arriscar e confiar em três mil pessoas que iriam entrar na fábrica e não ligariam as máquinas. Não é que eu queira ser herói, não é isso, mas teve que ser eu. Tive que fazer. Ah, mas depois outras fábricas pararam, sim, mas fica a experiência da Scania, dá coragem, reflete, faz com que o trabalhador perceba que é possível porque lá foi feito, eu tive que arriscar tudo, arrisquei a vida, sai de casa sem saber o que ia acontecer, se daria certo a greve ou não, se eles descobrissem antes de acontecer, me levariam para o DOPS e não aconteceria nada. Quantos não foram torturados e não acontecia nada na fábrica, porque o trabalhador não tinha passado pela experiência de parar, então é algo significativo, não quero ser melhor do que ninguém, nem mais inteligente do que ninguém, mas foi dado a mim essas tarefas, as primeiras greves, depois a primeira administração do PT de um operário frente a Prefeitura. Acho que graças a Deus  posso dizer que erros tiveram, mas os acertos foram muito maiores e acho que contribui para o crescimento do PT. Os espinhos que vêm pelo caminho são coisas naturais.

DIÁRIO – Esses espinhos se referem à saída do partido e à sua trajetória pós-PT?

GILSON – Hoje alguns falam ‘você não deveria ter saído, deveria ter ficado’. Quem sabe se tivesse um pouco mais de maturidade poderia ter ficado mesmo, porque o sofrimento de ter saído foi maior do que sentiria se tivesse ficado, foi muito maior. Quantas vezes (nesses anos) falava para mim mesmo: ‘Eu estou fora do PT...estou fora’. Então, agora possivelmente vou voltar ao PT. Ajudando a derrotar aquele que me fez sair. É uma alegria muito grande. Derrotando aquele que me fez sair, que usou todos os meios para que eu saísse do PT, todos os meios de golpe, coisa que não gosto. Hoje estou quase voltando ao PT.

DIÁRIO – Ainda não foi oficializado esse retorno?

GILSON – Não, não foi oficializado até falei para o Filippi, ‘olha Filippi eu preciso ter uma conversa contigo, para você dar a linha aí de qual é a hora de voltar, qual é o momento’. Acredito até que no aniversário de 25 anos do PT, quem sabe nessa data vou assinar a ficha do partido, mas ainda não sei. Vou dizer uma coisa, nesse ponto estou feliz, muito feliz, pelo PT ter caminhado bastante. Hoje temos o presidente da República, que saiu da mesma diretoria que a nossa, que foi o meu presidente do sindicato, acho que contribui um pouquinho para que ele chegasse a ser presidente.

DIÁRIO – Mas ao longo desses 25 anos, o PT não perdeu alguma coisa no caminho? Foram muitas transformações, tanto do partido como da conjuntura do país.

GILSON – Pelo que sinto, as pessoas que realmente fundaram o PT têm compromisso, acho que não perderam essa vontade de realizar aquilo que nós sonhamos. Agora no enfrentamento da administração, às vezes as pessoas avaliam que devam caminhar por aqui, com determinadas posições, mas acho que os sonhos das pessoas não mudaram. É que as pessoas podem achar que esse caminho é o mais correto. Por exemplo, tem gente dentro do PT hoje que está contra os juros altos, outros estão a favor para segurar a inflação. Quem tem razão? É complicado. Estou avaliando melhor as coisas nesse sentido, posso lutar favorável àquilo que defendo, mas não é por isso que é motivo de se ter um racha, achar que está tudo perdido. Acredito que temos que insistir naquele ponto de vista que defendemos como correto... Mas não dizer que, por isso, vai estourar tudo, vai brigar com todo mundo por conta de um pensamento, que um dia a pessoa possa dizer que estava errada naquela avaliação. Acho que deve ser assim, estava lendo uma matéria sobre hiperatividade, tenho problema de hiperatividade, tive problema para estudar, falta de paciência e tal, e agora estou tentando me educar um pouco, em cima dessa minha postura...Muitas vezes tem gente que fala o Gilson não é democrático, porque vai com tudo, atropela... Sou democrático, tenho certeza disso, só que às vezes, pela minha hiperatividade, pelo meu impulso, acabo me atropelando, e dá essa impressão de que não sou democrático. Às vezes, acerto com isso, se não fosse na esquerda não teria parado... Agora que o Zé Augusto (ex-prefeito José Augusto da Silva Ramos, hoje no PSDB) fez comigo dentro do PT foi muito cruel, muito cruel, e não tenho aquele arrependimento de culpa de ter saído, mas sinto que poderia ter tido um pouco mais de paciência para brigar contra ele ali dentro mesmo, para brigar contra ele pelas atitudes dele ali dentro, isso é uma questão de avaliação. Perdi nesse caso por não ter ficado dentro, devia ter continuado brigando, mas ganhei no caso da Scania, e ganhei em muitas atitudes que tomei na prefeitura. Demora, às vezes, muitos anos para você mostrar que estava certo ou errado.

DIÁRIO – E essa experiência agora de participar do governo petista como secretário?

GILSON – Cultura é uma coisa que eu gosto muito. Haja vista o Carnaval, organizado no primeiro mandato, eu pessoalmente trabalhei para organizar o Carnaval. E no segundo mandato, teve a Casa da Música, Hip Hop, Casa da Fotografia, etc. No primeiro mandato também teve, com todas as dificuldades, o Festival de Dança na cidade, uma série de atividades culturais na cidade que acho que o Filippi deve ter observado. Acho que o Filippi deve ter tido alguma informação de que eu gostava de cultura e colocou esse desafio, ele está me dando todo o apoio.

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