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Conversa na varanda - revolucionários do sexo III


Especial para o Diário

23/03/2008 | 07:02


Nesta última parte sobre os revolucionários do sexo, escolhi três brasileiros que muito contribuíram para a mudança na forma de se viver o amor e o sexo.

José Ângelo Gaiarsa

 (1920 - ...)

 O médico psicoterapeuta paulista, de Santo André, José Ângelo Gaiarsa começou a estudar Wilhelm Reich (Áustria, 1897-1957) ainda nos anos 1950. Tornou-se precursor de suas idéias no Brasil. Em 1966, publicou um artigo intitulado A Juventude Diante do Sexo, que sofreu censura por ser considerado obsceno. O estudo que originou um artigo foi depois publicado na íntegra em 1967, num livro com esse mesmo título.

 Nos anos 1970, Gaiarsa intensificou o seu trabalho em terapia corporal, num consultório no Centro de São Paulo, referência para os envolvidos com a crítica dos valores tradicionais, da família e da sexualidade convencional. Era um espaço singular, meio circense, entre parque de diversões e centro de convivência, além de consultório. Este espaço também foi abrigo para alguns militantes foragidos da polícia política do golpe militar.

 Entre os anos 1980 e 1990, participou diariamente de um programa de TV matinal, com alcance em todo País. Nesse programa falava sobre os conflitos da família, sexualidade, corpo e comunicação. Talvez nenhum psicoterapeuta tenha exercido uma influência tão constante e ampla sobre a família brasileira.

 Gaiarsa publicou mais de 30 livros. Sobre sexualidade, pode-se destacar a trilogia intitulada O Livro Negro da Família e do Sexo, o quase autobiográfico Sexo, Reich e Eu e, em 2005, Sexo, o que Ninguém Fala Sobre Ele. Suas idéias sobre as relações entre corpo, consciência e comunicação vêm sendo absorvidas em meios acadêmicos. São objeto de dissertações de mestrado e teses de doutorado, em instituições como PUC e Unesp.

Roberto Freire (1927- ...)

 O escritor e psicoterapeuta Roberto Freire é um libertário anarquista. Criou, no início dos anos 1970, a somaterapia, terapia corporal e em grupo baseada nas idéias de Reich. A maior originalidade da Soma é combater a neurose com o prazer e a liberdade.

 Vários Estados brasileiros mantêm núcleos de tratamento ligados às suas idéias. Em seus mais de 30 anos de atividade publicou muitos livros de ficção ou de ensaios, nos quais desenvolve uma defesa acirrada e apaixonada do tesão, palavra quase intraduzível, signo aberto, como todas as gírias. Em leitura bastante livre podemos dizer que tesão significa desejo sexual acrescido de entusiasmo existencial.

 Para defender a proposta, Roberto escreveu Sem Tesão Não Há Solução, uma de suas obras mais conhecidas. São bem conhecidos também os livros, Utopia e Paixão e Ame e Dê Vexame. Roberto Freire sofreu perseguição política por suas idéias durante a ditadura militar, mas se manteve atuante. É também dramaturgo e jornalista.

Leila Diniz (1943-1972)

 Há uma foto de Leila, grávida, de biquíni, na praia, em 1971, paradigma da nova mulher de Ipanema. Leila sintetizou a mulher que falava palavrão, escolhia os homens com quem queria e ia para a cama. Ela representa, na foto, todas as meninas ‘de família’ com desprezo por conceitos como virgindade e casamento burguês. Elas estudavam, trabalhavam, moravam sozinhas, namoravam e não davam satisfações. Nada que fizessem era chocante demais.

 Leila, além de encarnar essa geração, tornou-se atriz, fazendo Todas as Mulheres do Mundo, filme dirigido por seu ex-marido, Domingos de Oliveira. Ao lado de Paulo José, Leila explodiu sua personalidade em cada close de sorriso, que não deixava dúvidas quanto ao seu prazer em estar ali. Um paralelo que pode ser traçado em relação à sua fulgurante personalidade é com Marilyn Monroe, que também se destacava ao lado de dez mulheres igualmente bonitas. Leila irradiava a malícia que faz a diferença, além dos traços equilibrados.

 A banda de Ipanema ajudou a elaborar o mito Leila Diniz; as telas dos cinemas, em suas muitas participações explosivas, como em Os Paqueras, de Roberto Farias, também, mas sua entrevista ao O Pasquim escandalizou conservadores e credenciou enorme número de novos fãs.

 Ela, muito sinceramente, disse que fazia sexo com quem lhe despertasse tesão. Rui Castro, em seu livro Ela é Carioca, sobre o bairro de Ipanema, conta que o contrato de Leila com a Rede Globo não foi renovado, e um diretor haveria dito: “Não há papel de puta na próxima novela”. Como se vê, as coisas mudaram, e uma parte dessa mudança, devemos a essa moça, de deslumbrante empatia, que morreu tão jovem, num trágico vôo sobre a Índia.

Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga, é autora de O Livro de Ouro do Sexo (Ediouro). E-mail para a coluna: rlnl@uol.com.br. Site: www.camanarede.com.br


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