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Bourdain: a serviço do prazer


Ricardo Ditchun
Do Diário do Grande ABC

19/10/2003 | 18:14


Anthony Bourdain é um sujeito feliz. Não só pelo fato de ele mesmo afirmar essa condição, mas por sabermos de forma invejável que este é um daqueles raros profissionais muito bem pagos para fazer coisas absolutamente prazerosas: comer bem e correr o mundo todo para isso. Badalado chef de Nova York, sua cidade natal e referência mundial para assuntos gastronômicos, Bourdain tem 47 anos, mas aparência de garotão. No momento, comanda a cozinha do simpático bistrô Les Halles, localizado na Park Avenue South, mas sua faceta escritor lhe reserva aventuras.

Recentemente, o chef esteve no Brasil e se fartou com sanduíches de mortadela, empadas, tapiocas e caipirinhas. Veio para divulgar seu mais recente título em português, Em Busca do Prato Perfeito (Companhia das Letras, 346 págs, R$ 41), originalmente publicado em 2001, nos Estados Unidos. Responde ainda por Cozinha Confidencial (Companhia das Letras, 2001), best-seller que fez ele ser odiado pelos colegas cozinheiros e amado pelos leitores. A obra reúne artigos que entregam tudo o que acontece (sobretudo de ruim) nos bastidores dos restaurantes (sobretudo os de nariz empinado).

Formado no Culinary Institute of America, Bourdain relata em Em Busca as muitas tentativas que fez pelo mundo para encontrar a mais perfeita combinação entre alimento e ambiente, entre a comida e o lugar em que ela é servida. Antes de escrever, passou um ano experimentando de tudo em locais refinados e sujinhos de países como Rússia, Vietnã, Japão e México. Provou de coração de cobra a pedaços de iguana.

Um pequeno trecho, eleito para chamar a atenção dos leitores na contracapa de Em Busca, dá idéia do que Bourdain enfrentou: “Era como mastigar o soldado desconhecido, se ele tivesse sido enterrado num tanque de tartarugas, há muito esquecido. Carne mesmo, que é bom, não havia, só uma pele dura, borrachenta, nodosa, com ossinhos melados. Quando eu eventualmente conseguia cortar um pouco de carne entre os ossos e a pele, me arrependia amargamente. Era escura, oleosa, viscosa e com um aroma repugnante de salamandra no vapor.”

Mas o projeto “prato perfeito” de Bourdain, é claro, não se limitou a experiências apavorantes como essa da iguana. A idéia apresentada ao editor foi: “Fico em hotéis caros e em pensões vagabundas. Como de tudo, comida maravilhosa, exótica, apavorante, fazendo coisas legais, como as que a gente vê no cinema, e procurando a refeição perfeita. Que tal?”. Funcionou. Além disso, do livro, Bourdain foi acompanhado de uma equipe de TV a cabo (a Food Network), companhia que gerou o conteúdo para o programa Cooks Tour.

Se ele encontra a tal refeição ideal, ou prato perfeito? É a velha história de revelar na fila do cinema, para quem ainda não viu o filme, que o mocinho morre no final. Nas entrelinhas, a proposta de Bourdain é de percepção intelectual superior.

Sua narrativa simples – e portanto deliciosa como costuma ser a melhor das experiências gustativas – certamente não foi elaborada para leitores fast food. O novo livro de Bourdain tem muito de recado existencialista. Em Busca do Tempo Perdido só começou a surgir quando o escritor francês Marcel Proust (1871-1922), aos 39 anos, tomou um gole de chá com madeleine, um bolinho de farinha de trigo, manteiga, ovos e açúcar, aromatizado com limão ou laranja. Foi uma explosão mental que recompôs lembranças e gerou uma obra-prima em sete romances. A felicidade, como o prato perfeito, é uma questão de relação entre situações e sentimentos da infância à velhice.



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