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Autor celebra os letristas da MPB em livro


Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

27/02/2006 | 08:29


Um convite à boa conversa ou um estímulo para um sarau bem descontraído. Essas são as únicas pretensões do livro MPB – Versos para a sua Prosa (De Gustar, 181 págs., R$ 25), escrito pelo auditor Raul Corrêa da Silva, que reuniu 365 frases, uma para cada dia do ano, compostas por artistas de diversas gerações, desde a década de 20 até os dias de hoje. Sem experiência literária ou prática musical, o autor é um apaixonado pela música e utilizou como fonte de consulta sua vasta coleção de discos, composta por mais de 5 mil títulos. A pesquisa para produção do livro durou dois anos.

O formato é muito semelhante ao de um CD e reflete a intenção de Corrêa em produzir um trabalho atraente e leve, sem caráter enciclopédico. Na abertura do livro, fartamente ilustrado com desenhos que sintetizam as mensagens das músicas, há um desenho do botão play dos aparelhos de som, que instiga o leitor a iniciar a degustação musical. Após a última citação, aparece a ilustração com o símbolo da tecla eject. Bem interessante.

Há espaço para todos os estilos presentes na discoteca de Corrêa, do erudito ao popular. A prosa pode começar com o sentimentalismo derramado dos sertanejos Zezé Di Camargo e Luciano; a sofisticação poética de Chico Buarque e Francis Hime; o lirismo hippie de Zé Rodrix e Tavito; o erotismo brega do cantor Wando; ou a fina malemolência de Noel Rosa. “A música me acompanha há muito tempo. ‘Por que não fazer uma homenagem aos compositores brasileiros?, pensei”, explica o autor.

É curioso constatar como um mesmo tema pode ser desenvolvido em múltiplos enfoques e como a música é moldada pelas transformações sociais e culturais. A canção romântica, por exemplo, perdeu recato e nuances líricos do início do século e se adaptou à linguagem popular.

“Quando a fábrica apita, faz reclame de você”, cantava em Três Apitos o bamba Noel Rosa em homenagem à amada. Os “dois filhos de Francisco”, Zezé e Luciano, já foram mais diretos: “Eu sou o seu apaixonado de alma transparente, um louco alucinado, meio inconseqüente”, verso de É o Amor, o maior sucesso comercial interpretado pela dupla predileta do presidente Lula. Se a intenção é rimar “amor e dor”, basta relembrar os lamentos de Maysa, em Tarde Triste: “Por onde andará quem amei, será que também vive assim, sofrendo como só eu sei.” Haja dor-de-cotovelo.

Salve o compositor popular – Ainda segundo Corrêa, a maioria das pessoas não presta muita atenção no trabalho de composição, e acaba confundindo autor com intérprete. “Os compositores são patinhos feios, ficam meio esquecidos. As rádios nunca dizem quem é o autor”, diz o auditor autor, que frisa ter recebido autorização das editoras dos artistas mencionados.

Além da intenção lúdica, MPB – Versos para a sua Prosa tem como virtude justamente a valorização do letrista, espécie de poeta que consegue traduzir os desejos humanos respeitando as limitações impostas pelas métricas de uma melodia. Boa audição.

Em versos

“Eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”, de A Palo Seco, Belchior

“O mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó”, O Mundo é um Moinho, Cartola

“Meu coração não se cansa de sempre sempre te amar”, As Pastorinhas, Noel Rosa/ João de Barro (Braguinha)

“Dei para maldizer o nosso lar, para sujar teu nome,

te humilhar, e me entregar a qualquer preço,

te adorando pelo avesso”, Atrás da Porta,

Francis Hime/Chico Buarque

“Se você quiser prender o seu amor dê liberdade

 para ele”, Companhia, Cazuza/Frejat/

Ezequiel Neves

“Meu samba é a voz do povo, se alguém gostou eu posso cantar de novo”, A Voz do Povo,

João do Vale/ Luiz Vieira

“Que essa vida entre assim como se fosse o sol desvirginando a madrugada”, Explode Coração, Gonzaguinha

“Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”, Coração Tranqüilo, Walter Franco

“Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”, A Flor e o Espinho, Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito/Alcides Caminha

“Eu nem vejo a hora de lhe dizer aquilo tudo que eu decorei”, Ando Meio Desligado, Arnaldo Baptista/Rita Lee/Sérgio Dias, no grupo Mutantes



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