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Banheiro público vira palco


Nelson Albuquerque
Do Diário do Grande ABC

02/10/2004 | 10:55


Há quatro anos, a morte social foi o tema escolhido na ELT (Escola Livre de Teatro de Santo André), para a criação da peça Evangelho para Lei-gos. O projeto se desenvolveu, sob direção e dramaturgia de Evill Rebouças, e encontrou lugar para as encenações no banheiro público da galeria do Viaduto do Chá, em São Paulo. Fica em cartaz até 21 de novembro, com apresentações aos sábados e domingos, às 18h, e ingressos a R$ 20.

Por que levar a montagem para um banheiro? "É um lugar onde se jogam as coisas que não prestam para nada", explica o diretor. Na peça, o banheiro é transformado em um condomínio, no qual cada cabine representa um apartamento. A metáfora está aí: o banheiro, lugar de restos, é a moradia de pessoas marginalizadas pela sociedade, pessoas acometidas pela morte social.

O local escolhido é um banheiro público desativado, adaptado para receber um público de 50 pessoas. Sons como barulho de descarga, e odores como um leve cheiro de desinfetante, também são usados para reforçar o clima do ambiente.

A alternativa de se apresentar em um palco, com um cenário que imitasse o banheiro, é descartada pelo diretor. "Se fizermos isso, a peça perde a identidade. Nossa mola mestra dramatúrgica é dialogar com a historicidade do prédio. O público chega no lugar e sabe que ali foi usado para as pessoas fazerem cocô e xixi", afirma.

Optar por esta locação é um exercício de pesquisa de espaços não convencionais. Aliás, a peça Evangelho para Lei-gos foi construída por meio de outros trabalhos de pesquisa realizados pela Cia Artehúmus de Teatro.

Um deles, talvez o mais importante, foi o período de três meses em que integrantes do grupo passaram no Abrigo Municipal Zacchi Narchi, ocupado por moradores de uma favela incendiada em 2002. "Lá, as pessoas vivem em um lugar muito pequeno, em condições deploráveis, mas são pessoas que querem cumprir as leis civis, lutam por trabalho, têm suas crenças", diz Rebouças.

Pés e mãos - Na peça, há três personagens de nome Jesus, além de José e Maria, que revelam a cada cena o retalhamento social em que vivem. Com as portas das cabines fechadas, o público vê apenas parte dos pés e das mãos dos atores. Apenas cerca de 10% da peça possui atores de corpo inteiro.

A atriz Solange Moreno, moradora de Santo André, interpreta Elza, a mãe de uma menina portadora de deficiência física. "A Fátima tem deficiência motora, mas é tida como retardada, com problemas mentais", diz Solange.

A conversa entre as duas é por código, pois a menina não consegue falar. Fátima é o papel da atriz Roberta Ninin, que fez sua pesquisa para construção da personagem em escolas de crianças especiais. A mãe, que havia depositado toda sua esperança de melhoria de vida na filha, sente-se injustiçada por Deus. É uma mulher religiosa, mas que, por raiva, abandona as crenças e resolve prostituir a filha deficiente. "É um espetáculo que incomoda. Ao fim da apresentação, a gente (do elenco) fica com os sentimentos bastante mexidos", afirma Solange.

Além de Rebouças e de Solange, o grupo Artehúmus tem outros integrantes do Grande ABC: Bruno Feldman e Bia Szvat. O elenco ainda conta com Daniel Ortega, Leonardo Mussi, Osvaldo Anzolin e a atriz convidada Gilda Vandenbrande.

A idéia de Evangelho para Lei-gos nasceu em 2000 na ELT, sob a supervisão de Antônio Araújo e Luís Alberto de Abreu. Foi retomada dois anos depois no Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista), com orientação de Reynúncio Napoleão de Lima.

Para sair do papel, a peça recebeu o Prêmio VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, no valor de R$ 15 mil, e o apoio cultural das empresas Allcab Fios Elétricos, de Guarulhos, e Gráfica Jóia, de São Bernardo.

Evangelho para Lei-gos - Teatro. Neste sábado e domingo, às 18h. No banheiro público da galeria do Viaduto do Chá (entrada ao lado do Shopping Light), São Paulo. Tel.: 3241-3815. Temporada: sábados e domingos, sempre às 18h. Ingr.: R$ 20, e R$ 10 (estudantes, vendas com uma hora de antecedência). Até 21 de novembro.



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