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A virada do ano numa casa de verdade


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

31/12/2005 | 08:14


Selma, Natália, Ana e Idalina não se conhecem. Em comum, a vontade de criar os filhos bem, o medo da violência, da comida faltar na panela, e o tempo às vezes ingrato que demora para andar quando se tem pressa. As quatro nunca se viram, mas se encontram no mesmo gosto diferente que o Réveillon deste ano reservou para elas. Depois de viverem boa parte de suas vidas num barraco de madeira, elas começam 2006 numa casa de concreto. Contempladas por projetos de moradias populares, as quatro famílias não imaginavam tal desfecho para este ano. E definem a passagem: "Foi como ir do inferno para o céu."

Numa região como a do Grande ABC, com um déficit habitacional que ultrapassa as 100 mil moradias, conseguir um teto seguro é mesmo um "milagre", como ressalta a dona-de-casa Idalina Antônia da Silva Santos, 22 anos. Ela nasceu e cresceu num casebre de madeirite com a mãe e os cinco irmãos no Jardim Oratório, em Mauá. Quando se casou, há seis anos, comprou um barraco por R$ 1 mil no mesmo bairro, mas em condições piores, nas palafitas. Embaixo do piso, corria a água suja de um córrego, e o cheiro insuportável que fazia engasgar as crianças.

"É a primeira vez que moro numa casa de tijolo. Não sabia o que era isso. Quando me mudei, parecia um sonho. Tudo cheiroso, imagina...", conta Idalina. Ela saiu das palafitas – a exemplo de outras 98 famílias – e há três meses mora de aluguel, bancado pela Prefeitura, até que as casas do CDHU (Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano) sejam entregues, em 2007. Até lá, vai agradecendo a Deus por sair de onde morava.

"Não canso de agradecer. Já rezei muito. Meu marido ganha pouco. Sem essa ajuda, nunca que a gente ia conseguir um lugar melhor. Esse ano, minha família passou o Natal aqui em casa. Foi um orgulho, sabe?", diz, segurando a barriga volumosa em que carrega o quarto filho, uma menina, Katlen, que deve nascer em fevereiro. Idalina é mãe de Karen, 5 anos, Richard, 2, e Gabriel, 1. Os pequenos nem sabem o que fazer com tanto espaço para brincar, e correm ainda dentro na sala, entre os móveis recém-comprados de segunda mão.

Numa casa simpática pintada de azul no Parque São Bernardo, em São Bernardo, Ana Novaes Santos, 41 anos, ainda arrumava a bagunça e retirava roupas e utensílios domésticos das caixas. Ela, o marido e os quatro filhos mudaram-se na véspera de Natal, depois de passar quase três anos vivendo no improviso. Foram dois anos no alojamento Cora Coralina, um dos seis que abrigam moradores removidos de área de risco. Mas até o abrigo da Prefeitura se mostrou um tanto capenga: o cômodo em que viviam ameaçou a desabar, e eles foram alocados num salão de tapume.

"O alojamento era, por incrível que pareça, pior do que o barraco que a gente morava. Não tinha privacidade. Não dava pra usar o banheiro, imundo. Roubavam o chuveiro e até as nossas roupas do varal. No barraco era ruim também, porque tinha esgoto na porta de casa, as crianças viviam doentes. Hoje, estou no paraíso", relata. No Réveillon do ano passado, passou dormindo com os filhos. Ou melhor, tentando dormir. Os "moleques" faziam muito barulho, falavam palavrão demais. Esse ano, pretendia que tudo fosse diferente. "Vou até convidar uns amigos para vir aqui e passar o ano com a gente", planejava Ana, na semana do Ano-Novo. Se o dinheiro não fosse tão curto, ia fazer almoço de graça para comemorar a nova moradia.

"Chega de ratos" – A pequena Nathália, 2 anos, ainda dorme na mesma cama dos pais, Selma Maria Cruz, 36, e Severino Francisco da Silva, 53. A nova casa da família, que fica num conjunto do CDHU no Sacadura Cabral, em Santo André, ainda é pequena para as cinco pessoas que vivem nela. Mas ninguém reclama. Antes, Nathália dormia na cama dos pais porque Selma tinha medo de deixá-la no bercinho. "Lá no barraco tinha muito rato. Não conseguia deixar minha nenê lá sozinha. Várias vizinhas deixavam as crianças, e os ratos comiam a pontinha do dedo ou da orelha", relata.

Selma morava na favela do Corintinha, oficialmente denominada Gonçalo Zarco. Fez a mudança há seis meses, assim como outras 63 famílias que viviam perto da sua, na insalubridade. De lá, só tem saudade dos poucos amigos que deixou. "Se não fosse essa oportunidade, eu ainda ia ter de conviver com o esgoto brotando do meu chão. Minha filha mais velha nem comia, de tanto nojo que ficava. Ninguém acostuma com uma vida tão difícil. Para nós, essa casa é uma bênção", define.

Em Diadema, o recém-inaugurado conjunto do CDHU, na avenida Casa Grande, tem 320 apartamentos. Num deles, térreo e adaptado para deficientes físicos, vive Natália Cândida Lourenço dos Santos, 33 anos, os quatro filhos e o marido. Antes, viviam no núcleo Krones, na antiga favela da Coca-Cola, que está em processo de urbanização. Moravam na parte mais crítica, num quartinho espremido. Há sete anos esperavam pela casa. "Via os meus filhos crescendo e ficava desesperada. Eu cresci na favela Naval, e queria dar uma vida diferente pra eles. Tinha muita criminalidade por ali, mau exemplo. Aqui a gente está no céu praticamente", afirma. Hoje, o filho Natan, 6 anos, vive no parquinho. O final feliz de uma história que começou num amontoado de madeira e no sufoco da viela.



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A virada do ano numa casa de verdade

Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

31/12/2005 | 08:14


Selma, Natália, Ana e Idalina não se conhecem. Em comum, a vontade de criar os filhos bem, o medo da violência, da comida faltar na panela, e o tempo às vezes ingrato que demora para andar quando se tem pressa. As quatro nunca se viram, mas se encontram no mesmo gosto diferente que o Réveillon deste ano reservou para elas. Depois de viverem boa parte de suas vidas num barraco de madeira, elas começam 2006 numa casa de concreto. Contempladas por projetos de moradias populares, as quatro famílias não imaginavam tal desfecho para este ano. E definem a passagem: "Foi como ir do inferno para o céu."

Numa região como a do Grande ABC, com um déficit habitacional que ultrapassa as 100 mil moradias, conseguir um teto seguro é mesmo um "milagre", como ressalta a dona-de-casa Idalina Antônia da Silva Santos, 22 anos. Ela nasceu e cresceu num casebre de madeirite com a mãe e os cinco irmãos no Jardim Oratório, em Mauá. Quando se casou, há seis anos, comprou um barraco por R$ 1 mil no mesmo bairro, mas em condições piores, nas palafitas. Embaixo do piso, corria a água suja de um córrego, e o cheiro insuportável que fazia engasgar as crianças.

"É a primeira vez que moro numa casa de tijolo. Não sabia o que era isso. Quando me mudei, parecia um sonho. Tudo cheiroso, imagina...", conta Idalina. Ela saiu das palafitas – a exemplo de outras 98 famílias – e há três meses mora de aluguel, bancado pela Prefeitura, até que as casas do CDHU (Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano) sejam entregues, em 2007. Até lá, vai agradecendo a Deus por sair de onde morava.

"Não canso de agradecer. Já rezei muito. Meu marido ganha pouco. Sem essa ajuda, nunca que a gente ia conseguir um lugar melhor. Esse ano, minha família passou o Natal aqui em casa. Foi um orgulho, sabe?", diz, segurando a barriga volumosa em que carrega o quarto filho, uma menina, Katlen, que deve nascer em fevereiro. Idalina é mãe de Karen, 5 anos, Richard, 2, e Gabriel, 1. Os pequenos nem sabem o que fazer com tanto espaço para brincar, e correm ainda dentro na sala, entre os móveis recém-comprados de segunda mão.

Numa casa simpática pintada de azul no Parque São Bernardo, em São Bernardo, Ana Novaes Santos, 41 anos, ainda arrumava a bagunça e retirava roupas e utensílios domésticos das caixas. Ela, o marido e os quatro filhos mudaram-se na véspera de Natal, depois de passar quase três anos vivendo no improviso. Foram dois anos no alojamento Cora Coralina, um dos seis que abrigam moradores removidos de área de risco. Mas até o abrigo da Prefeitura se mostrou um tanto capenga: o cômodo em que viviam ameaçou a desabar, e eles foram alocados num salão de tapume.

"O alojamento era, por incrível que pareça, pior do que o barraco que a gente morava. Não tinha privacidade. Não dava pra usar o banheiro, imundo. Roubavam o chuveiro e até as nossas roupas do varal. No barraco era ruim também, porque tinha esgoto na porta de casa, as crianças viviam doentes. Hoje, estou no paraíso", relata. No Réveillon do ano passado, passou dormindo com os filhos. Ou melhor, tentando dormir. Os "moleques" faziam muito barulho, falavam palavrão demais. Esse ano, pretendia que tudo fosse diferente. "Vou até convidar uns amigos para vir aqui e passar o ano com a gente", planejava Ana, na semana do Ano-Novo. Se o dinheiro não fosse tão curto, ia fazer almoço de graça para comemorar a nova moradia.

"Chega de ratos" – A pequena Nathália, 2 anos, ainda dorme na mesma cama dos pais, Selma Maria Cruz, 36, e Severino Francisco da Silva, 53. A nova casa da família, que fica num conjunto do CDHU no Sacadura Cabral, em Santo André, ainda é pequena para as cinco pessoas que vivem nela. Mas ninguém reclama. Antes, Nathália dormia na cama dos pais porque Selma tinha medo de deixá-la no bercinho. "Lá no barraco tinha muito rato. Não conseguia deixar minha nenê lá sozinha. Várias vizinhas deixavam as crianças, e os ratos comiam a pontinha do dedo ou da orelha", relata.

Selma morava na favela do Corintinha, oficialmente denominada Gonçalo Zarco. Fez a mudança há seis meses, assim como outras 63 famílias que viviam perto da sua, na insalubridade. De lá, só tem saudade dos poucos amigos que deixou. "Se não fosse essa oportunidade, eu ainda ia ter de conviver com o esgoto brotando do meu chão. Minha filha mais velha nem comia, de tanto nojo que ficava. Ninguém acostuma com uma vida tão difícil. Para nós, essa casa é uma bênção", define.

Em Diadema, o recém-inaugurado conjunto do CDHU, na avenida Casa Grande, tem 320 apartamentos. Num deles, térreo e adaptado para deficientes físicos, vive Natália Cândida Lourenço dos Santos, 33 anos, os quatro filhos e o marido. Antes, viviam no núcleo Krones, na antiga favela da Coca-Cola, que está em processo de urbanização. Moravam na parte mais crítica, num quartinho espremido. Há sete anos esperavam pela casa. "Via os meus filhos crescendo e ficava desesperada. Eu cresci na favela Naval, e queria dar uma vida diferente pra eles. Tinha muita criminalidade por ali, mau exemplo. Aqui a gente está no céu praticamente", afirma. Hoje, o filho Natan, 6 anos, vive no parquinho. O final feliz de uma história que começou num amontoado de madeira e no sufoco da viela.

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