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Populaçao de Piracicaba caiu pela metade em 16 anos


Do Diário do Grande ABC

20/05/2000 | 15:28


Em Piracicaba, cidade de 300 mil habitantes a 160 km de Sao Paulo, o processo de expulsao de pequenos produtores do campo foi bastante visível nos últimos anos. De 1980 a 1996, a populaçao no campo caiu pela metade, fechando o período com um contingente de apenas 11 mil pessoas.

Segundo Marly Pereira, secretária de Agricultura do município, o processo de modernizaçao da atividade gerou esse êxodo. "O aumento da tecnificaçao e a necessidade de ter maior escala na produçao acabou tirando a competitividade de pequenos agricultores", afirma a secretária. No caso de Piracicaba, a crise do algodao amplo o problema. "A cotonicultura oferecia muito trabalho no campo, mas o aparecimento do bicudo (uma praga) deixou a atividade inviável e nao há mais plantio no município" diz.

A saída para muitos desses pequenos produtores de Piracicaba foi migrar para a zona urbana, nem sempre com sucesso. No caso do granjeiro Eurides Daniel, 56 anos, a mudança foi recompensada. Dono de uma propriedade de sete alqueires onde plantava hortaliças, Daniel resolveu arrendar a área para o plantio de cana-de-açúcar, um dos principais motores da economia piracicabana.

Em Piracicaba, surpreendentemente, ele se manteve como produtor de hortaliças. Daniel aluga uma área de 18,4 mil metros quadrados dentro do perímetro urbano, onde mantém uma horta. Como aluguel, o proprietário do terreno apenas lhe pede que pague o IPTU. "Foi uma bela mudança e a renda melhorou bastante", diz o granjeiro, que emprega três funcionários. "Aqui, eu nao gasto com transporte para levar a produçao para a cidade nem preciso vender para intermediários, os próprios moradores da regiao vêm aqui para comprar minhas verduras", comemora.

A Prefeitura de Piracicaba tem tentado colaborar com essas hortas urbanas. A administraçao deu desconto de 50% no IPTU e na conta de água dessas áreas. Como resultado, há atualmente 124 hortas regularizadas em terrenos baldios da cidade.

Para o ex-lavrador e hoje taxista Antônio Malaquias Ribeiro, 50 anos, a mudança para a cidade também foi satisfatória. Caseiro de uma propriedade de 40 alqueires, Ribeiro vivia de dois salários mínimos e do que produzisse em uma pequena área cedida por seu empregador. Tendo que alimentar a esposa e cinco filhos, há cinco anos ele decidiu tentar a sorte na cidade. "O preço do adubo estava muito alto e o que eu recebia com a venda da safra mal dava para pagar o que tinha gasto", explica. "Eu só vivia mesmo do salário, que nao estava chegando."

Ribeiro deixou o filho mais velho como caseiro da propriedade e comprou um táxi. Atualmente, o ponto que possui na rodoviária intermunicipal de Piracicaba lhe garante uma renda pelo menos duas vezes maior do que a do campo. "Comprei uma casa em Piracicaba e nao tenho do que reclamar", afirma.

A mesma sorte nao teve o ex-lavrador Osvaldo Maestro. Com 53 anos e aparentando ter 20 anos mais, Maestro deixou o campo há dez anos e está há cinco desempregado. Ele trabalhava em uma propriedade de 80 alqueires na zona rural de Piracicaba. O acordo com o empregador era de que os dois rachariam pela metade os custos e os ganhos com as lavouras de milho, algodao, arroz e feijao que ele plantasse. Há dez anos, o sistema começou a fazer água. "Os juros do banco ficaram muito altos e nao tinha safra que pagasse as dívidas", explica. O proprietário da fazenda acabou optando por criar apenas gado naquela área, e Maestro deixou o lugar.

"Ainda trabalhei dois anos para o mesmo patrao em uma fazenda de cana, mas depois arrumei emprego na cidade", explica. Maestro disse que conseguiu emprego como vigia durante algum tempo em empresas de Piracicaba. "Mas atualmente, eles só querem dar trabalho para gente mais moça e tenho que viver de bicos." Como opçao, sobrou ao ex-lavrador capinar esporadicamente terrenos baldios de Piracicaba e fazer pequenos consertos. "Faço festa quando consigo tirar R$ 100 em um mês", diz.



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Populaçao de Piracicaba caiu pela metade em 16 anos

Do Diário do Grande ABC

20/05/2000 | 15:28


Em Piracicaba, cidade de 300 mil habitantes a 160 km de Sao Paulo, o processo de expulsao de pequenos produtores do campo foi bastante visível nos últimos anos. De 1980 a 1996, a populaçao no campo caiu pela metade, fechando o período com um contingente de apenas 11 mil pessoas.

Segundo Marly Pereira, secretária de Agricultura do município, o processo de modernizaçao da atividade gerou esse êxodo. "O aumento da tecnificaçao e a necessidade de ter maior escala na produçao acabou tirando a competitividade de pequenos agricultores", afirma a secretária. No caso de Piracicaba, a crise do algodao amplo o problema. "A cotonicultura oferecia muito trabalho no campo, mas o aparecimento do bicudo (uma praga) deixou a atividade inviável e nao há mais plantio no município" diz.

A saída para muitos desses pequenos produtores de Piracicaba foi migrar para a zona urbana, nem sempre com sucesso. No caso do granjeiro Eurides Daniel, 56 anos, a mudança foi recompensada. Dono de uma propriedade de sete alqueires onde plantava hortaliças, Daniel resolveu arrendar a área para o plantio de cana-de-açúcar, um dos principais motores da economia piracicabana.

Em Piracicaba, surpreendentemente, ele se manteve como produtor de hortaliças. Daniel aluga uma área de 18,4 mil metros quadrados dentro do perímetro urbano, onde mantém uma horta. Como aluguel, o proprietário do terreno apenas lhe pede que pague o IPTU. "Foi uma bela mudança e a renda melhorou bastante", diz o granjeiro, que emprega três funcionários. "Aqui, eu nao gasto com transporte para levar a produçao para a cidade nem preciso vender para intermediários, os próprios moradores da regiao vêm aqui para comprar minhas verduras", comemora.

A Prefeitura de Piracicaba tem tentado colaborar com essas hortas urbanas. A administraçao deu desconto de 50% no IPTU e na conta de água dessas áreas. Como resultado, há atualmente 124 hortas regularizadas em terrenos baldios da cidade.

Para o ex-lavrador e hoje taxista Antônio Malaquias Ribeiro, 50 anos, a mudança para a cidade também foi satisfatória. Caseiro de uma propriedade de 40 alqueires, Ribeiro vivia de dois salários mínimos e do que produzisse em uma pequena área cedida por seu empregador. Tendo que alimentar a esposa e cinco filhos, há cinco anos ele decidiu tentar a sorte na cidade. "O preço do adubo estava muito alto e o que eu recebia com a venda da safra mal dava para pagar o que tinha gasto", explica. "Eu só vivia mesmo do salário, que nao estava chegando."

Ribeiro deixou o filho mais velho como caseiro da propriedade e comprou um táxi. Atualmente, o ponto que possui na rodoviária intermunicipal de Piracicaba lhe garante uma renda pelo menos duas vezes maior do que a do campo. "Comprei uma casa em Piracicaba e nao tenho do que reclamar", afirma.

A mesma sorte nao teve o ex-lavrador Osvaldo Maestro. Com 53 anos e aparentando ter 20 anos mais, Maestro deixou o campo há dez anos e está há cinco desempregado. Ele trabalhava em uma propriedade de 80 alqueires na zona rural de Piracicaba. O acordo com o empregador era de que os dois rachariam pela metade os custos e os ganhos com as lavouras de milho, algodao, arroz e feijao que ele plantasse. Há dez anos, o sistema começou a fazer água. "Os juros do banco ficaram muito altos e nao tinha safra que pagasse as dívidas", explica. O proprietário da fazenda acabou optando por criar apenas gado naquela área, e Maestro deixou o lugar.

"Ainda trabalhei dois anos para o mesmo patrao em uma fazenda de cana, mas depois arrumei emprego na cidade", explica. Maestro disse que conseguiu emprego como vigia durante algum tempo em empresas de Piracicaba. "Mas atualmente, eles só querem dar trabalho para gente mais moça e tenho que viver de bicos." Como opçao, sobrou ao ex-lavrador capinar esporadicamente terrenos baldios de Piracicaba e fazer pequenos consertos. "Faço festa quando consigo tirar R$ 100 em um mês", diz.

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