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Quando ser mãe passa a ser uma profissão


Bruna Gonçalves
Do Diário do Grande ABC

08/05/2011 | 07:00


A moradora de São Bernardo Sebastiana das Graças Damasceno tem 58 anos, 60 filhos, 16 netos e muito a comemorar no Dia das Mães. Há 29 anos, sua vida mudou, quando passou a se dedicar profissionalmente, em tempo integral, aos filhos de sobrenomes diferentes: virou mãe social.

É uma profissão regulamentada pela lei 7.644, que garante remuneração, férias, uma folga na semana e 13º salário.

Elas vivem em casas-lares, cuja missão é cuidar de até dez crianças, realizar as tarefas domésticas, gerenciar os possíveis conflitos e estabelecer regras para os menores que estão afastados da família biológica por ordem judicial. Entre as razões, abandono, violência, miséria, abuso ou exploração sexual.

A equipe do Diário conversou com quatro mães sociais, que contaram como é a profissão e o desafio de lidar com tanto filhos. No Dia das Mães, as crianças só têm a comemorar, e garantem que nada é mais gratificante do que receber um beijo e abraço da tia ou mãe (como eles as chamam). Mas as mães confessam que ao mesmo tempo em que dão carinho, impõem regras.

É assim que Sebastiana atua em uma das seis casa-lares na Aldeia Infantil SOS Brasil, em São Bernardo. Antes de ser mãe social, trabalhava em metalúrgica e dava aulas de catecismo.

Foi na igreja que recebeu o convite do padre para ser mãe social. "A minha intenção era ajudar, não sabia que iria ter todos benefícios e salário. Hoje vejo que não é um trabalho, é uma missão", afirma, com um sorriso no rosto. Ela recebe cerca de R$ 1.200 por mês.

É entre uma risada e outra que a veterana dá um conselho. "É uma profissão em que é preciso abrir mão de um fim de semana e de outras coisas para cuidar dos filhos dos outros. Cada um tem sua história, seus conflitos, e é preciso lidar com isso diariamente. Faço por amor."

Para a psicóloga da PUC (Pontífica Universidade Católica) de São Paulo e educadora Flávia Montagna, o desejo de cuidar tem que ser maior do que a questão profissional. "É uma profissão em que a mulher vai precisar participar, educar e fazer parte do desenvolvimento destas crianças."

NOVATA - No Lar e Escola Pequeno Leão, em São Bernardo, Regina Célia Lopes, 40, é a novata. São oito casa-lares, mas apenas cinco estão habitadas, atendendo 50 crianças entre 2 e 17 anos.

Ela começou há um ano cobrindo férias como tia social, cuja função é cuidar das crianças até que a mãe social retorne.

Há menos de um mês, surgiu uma vaga e Regina passou a ser responsável por nove crianças, entre 9 e 15 anos.

Regina define o trabalho como desafiante. "Está sendo ótima experiência, aprendo muito com eles e espero que também aprendam comigo. Tem que ter paciência, estabelecer limites e ensinar a valorizar as coisas, porque ao saírem daqui vão enfrentar muita coisa pela frente", afirma.

Ela tem duas filhas biológicas, de 13 e 23 anos. "A mais velha vive com a avó no interior e a mais nova vive com meu irmão e uma amiga."

 

Encontrar mulher disposta à função é tarefa difícil

Para os profissionais que buscam contratar mães sociais a tarefa não é facil. Eles alegam que muitas mulheres dizem adorar crianças, mas ao saber como funciona, muitas acabam recusando. Na região são cerca de 324 crianças que vivem em abrigos - com exceção de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que não informaram. Mas apenas em São Bernardo com mães sociais.

"É uma profissão em extinção. Poderíamos ter mais casas-lares, mas são poucas as mulheres que querem largar a vida para se dedicar. Elas dizem que gostam de crianças, mas de brincar com a dos vizinhos", relata Maria Aparecida Antunes Traçatto, 36 anos, pedagoga e assistente de desenvolvimento da Aldeia Infantil SOS Brasil.

A filósofa, educadora e mestre em educação Tânia Zagury afirma que as mães sociais precisam ter preparo, acompanhamento psicológico e educacional para conseguir desenvolver um bom trabalho. "As mulheres nascem com instinto. Mesmo que não seja mãe, a partir do momento que decidem cuidar de uma criança, vão saber exercer o papel de mãe."

Foi assim com Jucilene Brito Barbosa, 38, que desde 2006 é mãe social. "Tinha feito cadastro no posto de trabalho. Quando me chamaram, pensei que seria um trabalho de creche. Mas encarei o desafio ao saber que iriar morar na casa-lar", recorda Jucilene, que começou na Aldeia Infantil SOS Brasil e hoje cuida de dez crianças entre 3 a 17 anos no Lar e Escola Pequeno Leão.

"Não me vejo sendo mãe biológica, mas com eles consigo fazer com que me vejam como mãe."

Para um de seus filhos, Victor (nome fictício), 17, no início foi difícil. "Depois que me acostumei, fiz amigos, conheci a Ju e hoje trabalho de aprendiz em um supermercado. Quero fazer biologia ou engenharia mecânica."

 

Mãe social tem filho biológico, é noiva e cuida de dez crianças

A mãe social Cleide Ana Lopes de Menezes. 36 anos, consegue conciliar a profissão com a vida pessoal. Ela é mãe de um garoto de 6 anos (filho biológico) e de mais dez crianças entre 2 e 17 anos no Lar e Escola Pequeno Leão, em São Bernardo.

Mesmo com tantos filhos para cuidar, ela está noiva há dois meses e o casamento deve acontecer em 2012.

"Já nos conhecíamos fazia um tempo, mas há seis meses começamos a namorar.Contei para ele do meu trabalho, e ele entendeu. Às vezes ele vem me visitar à tarde e se diverte com as crianças. Elas o adoram", afirmou.

Para ela, que passa as folgas na sua casa, é possível conciliar as duas coisas e, além de tudo, ainda colhe os bons frutos da profissão.

A começar pelo filho, que passou a conviver com mais crianças e aprendeu a importância de dividir as coisas.

"No início você pensa que é difícil. Antes de trabalhar no lar, na época que ainda era orfanato, tinha uma visão muito diferente de como as crianças eram tratadas. Depois que passei a trabalhar, mudou muita coisa, e acho que isso é muito importante."

Cleide disse que os filhos a chamam de mãe e tia, "É muito engraçado, pois até o meu filho mesmo me chama de tia."

Os filhos de Cleide a definem como boazinha. "Gosto do jeito dela. Ela é boazinha, sempre ajuda a gente, e também fazemos o mesmo", disse André (nome fictício), 7 anos.

Para ela, cada um a conquista pelo seu jeito. "É muito gratificante esse trabalho."



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Quando ser mãe passa a ser uma profissão

Bruna Gonçalves
Do Diário do Grande ABC

08/05/2011 | 07:00


A moradora de São Bernardo Sebastiana das Graças Damasceno tem 58 anos, 60 filhos, 16 netos e muito a comemorar no Dia das Mães. Há 29 anos, sua vida mudou, quando passou a se dedicar profissionalmente, em tempo integral, aos filhos de sobrenomes diferentes: virou mãe social.

É uma profissão regulamentada pela lei 7.644, que garante remuneração, férias, uma folga na semana e 13º salário.

Elas vivem em casas-lares, cuja missão é cuidar de até dez crianças, realizar as tarefas domésticas, gerenciar os possíveis conflitos e estabelecer regras para os menores que estão afastados da família biológica por ordem judicial. Entre as razões, abandono, violência, miséria, abuso ou exploração sexual.

A equipe do Diário conversou com quatro mães sociais, que contaram como é a profissão e o desafio de lidar com tanto filhos. No Dia das Mães, as crianças só têm a comemorar, e garantem que nada é mais gratificante do que receber um beijo e abraço da tia ou mãe (como eles as chamam). Mas as mães confessam que ao mesmo tempo em que dão carinho, impõem regras.

É assim que Sebastiana atua em uma das seis casa-lares na Aldeia Infantil SOS Brasil, em São Bernardo. Antes de ser mãe social, trabalhava em metalúrgica e dava aulas de catecismo.

Foi na igreja que recebeu o convite do padre para ser mãe social. "A minha intenção era ajudar, não sabia que iria ter todos benefícios e salário. Hoje vejo que não é um trabalho, é uma missão", afirma, com um sorriso no rosto. Ela recebe cerca de R$ 1.200 por mês.

É entre uma risada e outra que a veterana dá um conselho. "É uma profissão em que é preciso abrir mão de um fim de semana e de outras coisas para cuidar dos filhos dos outros. Cada um tem sua história, seus conflitos, e é preciso lidar com isso diariamente. Faço por amor."

Para a psicóloga da PUC (Pontífica Universidade Católica) de São Paulo e educadora Flávia Montagna, o desejo de cuidar tem que ser maior do que a questão profissional. "É uma profissão em que a mulher vai precisar participar, educar e fazer parte do desenvolvimento destas crianças."

NOVATA - No Lar e Escola Pequeno Leão, em São Bernardo, Regina Célia Lopes, 40, é a novata. São oito casa-lares, mas apenas cinco estão habitadas, atendendo 50 crianças entre 2 e 17 anos.

Ela começou há um ano cobrindo férias como tia social, cuja função é cuidar das crianças até que a mãe social retorne.

Há menos de um mês, surgiu uma vaga e Regina passou a ser responsável por nove crianças, entre 9 e 15 anos.

Regina define o trabalho como desafiante. "Está sendo ótima experiência, aprendo muito com eles e espero que também aprendam comigo. Tem que ter paciência, estabelecer limites e ensinar a valorizar as coisas, porque ao saírem daqui vão enfrentar muita coisa pela frente", afirma.

Ela tem duas filhas biológicas, de 13 e 23 anos. "A mais velha vive com a avó no interior e a mais nova vive com meu irmão e uma amiga."

 

Encontrar mulher disposta à função é tarefa difícil

Para os profissionais que buscam contratar mães sociais a tarefa não é facil. Eles alegam que muitas mulheres dizem adorar crianças, mas ao saber como funciona, muitas acabam recusando. Na região são cerca de 324 crianças que vivem em abrigos - com exceção de Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que não informaram. Mas apenas em São Bernardo com mães sociais.

"É uma profissão em extinção. Poderíamos ter mais casas-lares, mas são poucas as mulheres que querem largar a vida para se dedicar. Elas dizem que gostam de crianças, mas de brincar com a dos vizinhos", relata Maria Aparecida Antunes Traçatto, 36 anos, pedagoga e assistente de desenvolvimento da Aldeia Infantil SOS Brasil.

A filósofa, educadora e mestre em educação Tânia Zagury afirma que as mães sociais precisam ter preparo, acompanhamento psicológico e educacional para conseguir desenvolver um bom trabalho. "As mulheres nascem com instinto. Mesmo que não seja mãe, a partir do momento que decidem cuidar de uma criança, vão saber exercer o papel de mãe."

Foi assim com Jucilene Brito Barbosa, 38, que desde 2006 é mãe social. "Tinha feito cadastro no posto de trabalho. Quando me chamaram, pensei que seria um trabalho de creche. Mas encarei o desafio ao saber que iriar morar na casa-lar", recorda Jucilene, que começou na Aldeia Infantil SOS Brasil e hoje cuida de dez crianças entre 3 a 17 anos no Lar e Escola Pequeno Leão.

"Não me vejo sendo mãe biológica, mas com eles consigo fazer com que me vejam como mãe."

Para um de seus filhos, Victor (nome fictício), 17, no início foi difícil. "Depois que me acostumei, fiz amigos, conheci a Ju e hoje trabalho de aprendiz em um supermercado. Quero fazer biologia ou engenharia mecânica."

 

Mãe social tem filho biológico, é noiva e cuida de dez crianças

A mãe social Cleide Ana Lopes de Menezes. 36 anos, consegue conciliar a profissão com a vida pessoal. Ela é mãe de um garoto de 6 anos (filho biológico) e de mais dez crianças entre 2 e 17 anos no Lar e Escola Pequeno Leão, em São Bernardo.

Mesmo com tantos filhos para cuidar, ela está noiva há dois meses e o casamento deve acontecer em 2012.

"Já nos conhecíamos fazia um tempo, mas há seis meses começamos a namorar.Contei para ele do meu trabalho, e ele entendeu. Às vezes ele vem me visitar à tarde e se diverte com as crianças. Elas o adoram", afirmou.

Para ela, que passa as folgas na sua casa, é possível conciliar as duas coisas e, além de tudo, ainda colhe os bons frutos da profissão.

A começar pelo filho, que passou a conviver com mais crianças e aprendeu a importância de dividir as coisas.

"No início você pensa que é difícil. Antes de trabalhar no lar, na época que ainda era orfanato, tinha uma visão muito diferente de como as crianças eram tratadas. Depois que passei a trabalhar, mudou muita coisa, e acho que isso é muito importante."

Cleide disse que os filhos a chamam de mãe e tia, "É muito engraçado, pois até o meu filho mesmo me chama de tia."

Os filhos de Cleide a definem como boazinha. "Gosto do jeito dela. Ela é boazinha, sempre ajuda a gente, e também fazemos o mesmo", disse André (nome fictício), 7 anos.

Para ela, cada um a conquista pelo seu jeito. "É muito gratificante esse trabalho."

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