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Visibilidade feminina nas artes

Thatiane Cardoso/Divulgação  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

No mercado artístico, o espaço da mulher e discriminação de gênero ganham discussão


Daniela Pegoraro

02/12/2018 | 07:00


No ano passado, o cartaz em amarelo vivo estampava as ruas paulistanas com a seguinte pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?” A reflexão era trazida pelo coletivo Guerrilla Girls, acrescentando que 60% dos nus presentes no espaço eram femininos, em contraposição com o número de artistas que faziam parte do acervo – apenas 6%. Desde então, o debate acerca do espaço da mulher nas artes plásticas e visuais acirrou-se. Movimentos se debruçam no resgate de nomes femininos que foram apagados dos livros de história do universo artístico, instigar a inserção de trabalhos outrora marginalizados e debater questões de gênero.

A percepção da posição de mulheres no mercado da arte vem em forte comparação desde os espaços acadêmicos do segmento. As salas de aulas são compostas majoritariamente pelo gênero, provando que as faculdades formam mais artistas femininas em relação ao homem. No entanto, em exposição em museus, galerias e até mesmo no âmbito institucional, vê-se uma supremacia masculina. “É um enfrentamento diário e permanente. Se é um artista homem, então ele deve ter alguma coisa importante a dizer. Se é mulher, existe desconfiança da produção dela. Já cheguei a mostrar uma obra e receber um comentário incondizente com o assunto, relacionado à minha aparência”, conta a artista visual Thatiana Cardoso, 34, de São Bernardo.

Suas obras em questão são consideradas feministas, justamente por discutir papéis de gênero. A partir de utensílios domésticos – usualmente de cor rosa – realiza trabalhos de fotografia e vídeo, descontextualizando o objeto a parecer um corpo ou algo erótico. “Meu trabalho tem uma questão ainda mais complicada, porque é uma crítica institucional. Então estou criticando um sistema que vai legitimar meu trabalho. Quem determina essa inserção são os homens, e são eles que estão ditando as regras do jogo”, acrescenta Thatiana. Além da discriminação misógina, enxerga a situação da mulher na arte como marginalizada somada a dupla jornada de trabalho e cuidados que lhes recaem com os filhos – e, por isso, tem de se dedicar em dobro para ser reconhecida como artista. “O esforço é gigantesco. A sensação é que estou correndo carregando pedra, mas tenho que chegar na frente de alguma forma. Tem a ver com encarar a produção artística da maneira mais séria possível”, comenta.

Mas nem todo mundo se sente discriminada desta forma. Lourdes Sakotani, 69, também é de São Bernardo, e nunca percebeu-se em situação do tipo. No entanto, concorda com Thatiana no quesito de produção. “A mulher, para não sofrer opressão no mercado, precisa mostrar que tem um trabalho contundente. As preocupações a mais sempre atrapalham, e por isso é preciso foco”, explica a artista, que realiza trabalho com gravuras.

A ideia de que o mercado da arte brasileira recebe com igualdade os gêneros pode parecer realidade se forem avaliados grandes nomes atuais, como Beatriz Milhazes e Adriana Varejão. No entanto, a curadora paulistana Julia Lima, 31, explica que essa percepção é ilusória. “Essas artistas incríveis são a exceção que confirma a regra. Elas são o ponto fora da curva. Quando você for a um leilão, uma exposição de galeria, vamos continuar tendo uma majoritária presença masculina”, comenta.

Neste sentido, a curadora tem realizado constante trabalho com foco na inserção feminina no mundo artístico – incluindo um projeto futuro em São Bernardo, na Oma Galeria. O espaço conta com o chamado clube do colecionador, em que assinantes recebem obras únicas compostas especialmente para os participantes. No início de 2019, as produções serão criadas unicamente por mulheres. “Por outro lado, o problema por trás disso é que corremos risco de achar suficiente fazer exposição de mulheres só por conta do gênero, sem se debruçar em suas produções, na análise e contextualização dos trabalhos. Elas merecem mais do que isso. Jamais vou fazer uma exposição e colocar uma artista só por ela ser mulher. Até porque, quando seguimos para uma mostra coletiva, o trabalho dessas pessoas continua não aparecendo”, explica Julia.

PASSO PARA O FUTURO
Embora o cenário pareça decepcionante, a conquista de espaço pelas artistas tem se intensificado. Os protestos contra o machismo no mundo da arte começaram na década de 1970. De acordo com Katy Deepwell, editora do N.Paradoxa: International Feminist Art Journal, a presença internacional de artistas mulheres em grandes exposições e galerias privadas anteriormente era inferior a 10%. Hoje, a porcentagem subiu para 30%.

“O que aconteceu é que o mundo da arte se expandiu, tanto fisicamente quanto no número de pessoas, locais e lugares onde a arte pode ser mostrada internacionalmente, especialmente em bienais, mercados e no aumento de revendedores e leilões”, explica Katy, em entrevista ao Diário. A escritora veio recentemente ao Brasil para seminário ministrado no Masp sobre a presença e a política de uma dinâmica local/global na arte e no feminismo contemporâneo. Ela acrescenta ainda que não existe uma única explicação para o fenômeno de crescimento da visibilidade da mulher, e cita também a importância que as artistas têm tomado para a arte moderna. 



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Visibilidade feminina nas artes

No mercado artístico, o espaço da mulher e discriminação de gênero ganham discussão

Daniela Pegoraro

02/12/2018 | 07:00


No ano passado, o cartaz em amarelo vivo estampava as ruas paulistanas com a seguinte pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?” A reflexão era trazida pelo coletivo Guerrilla Girls, acrescentando que 60% dos nus presentes no espaço eram femininos, em contraposição com o número de artistas que faziam parte do acervo – apenas 6%. Desde então, o debate acerca do espaço da mulher nas artes plásticas e visuais acirrou-se. Movimentos se debruçam no resgate de nomes femininos que foram apagados dos livros de história do universo artístico, instigar a inserção de trabalhos outrora marginalizados e debater questões de gênero.

A percepção da posição de mulheres no mercado da arte vem em forte comparação desde os espaços acadêmicos do segmento. As salas de aulas são compostas majoritariamente pelo gênero, provando que as faculdades formam mais artistas femininas em relação ao homem. No entanto, em exposição em museus, galerias e até mesmo no âmbito institucional, vê-se uma supremacia masculina. “É um enfrentamento diário e permanente. Se é um artista homem, então ele deve ter alguma coisa importante a dizer. Se é mulher, existe desconfiança da produção dela. Já cheguei a mostrar uma obra e receber um comentário incondizente com o assunto, relacionado à minha aparência”, conta a artista visual Thatiana Cardoso, 34, de São Bernardo.

Suas obras em questão são consideradas feministas, justamente por discutir papéis de gênero. A partir de utensílios domésticos – usualmente de cor rosa – realiza trabalhos de fotografia e vídeo, descontextualizando o objeto a parecer um corpo ou algo erótico. “Meu trabalho tem uma questão ainda mais complicada, porque é uma crítica institucional. Então estou criticando um sistema que vai legitimar meu trabalho. Quem determina essa inserção são os homens, e são eles que estão ditando as regras do jogo”, acrescenta Thatiana. Além da discriminação misógina, enxerga a situação da mulher na arte como marginalizada somada a dupla jornada de trabalho e cuidados que lhes recaem com os filhos – e, por isso, tem de se dedicar em dobro para ser reconhecida como artista. “O esforço é gigantesco. A sensação é que estou correndo carregando pedra, mas tenho que chegar na frente de alguma forma. Tem a ver com encarar a produção artística da maneira mais séria possível”, comenta.

Mas nem todo mundo se sente discriminada desta forma. Lourdes Sakotani, 69, também é de São Bernardo, e nunca percebeu-se em situação do tipo. No entanto, concorda com Thatiana no quesito de produção. “A mulher, para não sofrer opressão no mercado, precisa mostrar que tem um trabalho contundente. As preocupações a mais sempre atrapalham, e por isso é preciso foco”, explica a artista, que realiza trabalho com gravuras.

A ideia de que o mercado da arte brasileira recebe com igualdade os gêneros pode parecer realidade se forem avaliados grandes nomes atuais, como Beatriz Milhazes e Adriana Varejão. No entanto, a curadora paulistana Julia Lima, 31, explica que essa percepção é ilusória. “Essas artistas incríveis são a exceção que confirma a regra. Elas são o ponto fora da curva. Quando você for a um leilão, uma exposição de galeria, vamos continuar tendo uma majoritária presença masculina”, comenta.

Neste sentido, a curadora tem realizado constante trabalho com foco na inserção feminina no mundo artístico – incluindo um projeto futuro em São Bernardo, na Oma Galeria. O espaço conta com o chamado clube do colecionador, em que assinantes recebem obras únicas compostas especialmente para os participantes. No início de 2019, as produções serão criadas unicamente por mulheres. “Por outro lado, o problema por trás disso é que corremos risco de achar suficiente fazer exposição de mulheres só por conta do gênero, sem se debruçar em suas produções, na análise e contextualização dos trabalhos. Elas merecem mais do que isso. Jamais vou fazer uma exposição e colocar uma artista só por ela ser mulher. Até porque, quando seguimos para uma mostra coletiva, o trabalho dessas pessoas continua não aparecendo”, explica Julia.

PASSO PARA O FUTURO
Embora o cenário pareça decepcionante, a conquista de espaço pelas artistas tem se intensificado. Os protestos contra o machismo no mundo da arte começaram na década de 1970. De acordo com Katy Deepwell, editora do N.Paradoxa: International Feminist Art Journal, a presença internacional de artistas mulheres em grandes exposições e galerias privadas anteriormente era inferior a 10%. Hoje, a porcentagem subiu para 30%.

“O que aconteceu é que o mundo da arte se expandiu, tanto fisicamente quanto no número de pessoas, locais e lugares onde a arte pode ser mostrada internacionalmente, especialmente em bienais, mercados e no aumento de revendedores e leilões”, explica Katy, em entrevista ao Diário. A escritora veio recentemente ao Brasil para seminário ministrado no Masp sobre a presença e a política de uma dinâmica local/global na arte e no feminismo contemporâneo. Ela acrescenta ainda que não existe uma única explicação para o fenômeno de crescimento da visibilidade da mulher, e cita também a importância que as artistas têm tomado para a arte moderna. 

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