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Absurdo existencialista

'O Estrangeiro', com direção de Guilherme Leme, estará
em cartaz neste final de semana no Sesc Santo André


Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

20/09/2011 | 07:00


O sentimento de não pertencimento e a tarefa de assimilação da mecânica que engendra as relações no mundo, assim como a dificuldade ou o cinismo necessário para se compactuar com aspectos da vida social, são ideias que podem passar longe da cabeça de muitos no dia a dia, mas que não passaram incólumes à avaliação que Albert Camus fez em 'O Estrangeiro', que Guilherme Leme verteu para o teatro e apresenta no fim de semana no Sesc Santo André.

A adaptação assinada pelo dinamarquês Morten Kirkskov, e dirigida por Leme em parceria com Vera Holtz, já rodou o Brasil inteiro antes de chegar a São Paulo há um ano.

O enredo conta a história de Meursault, um pacato cidadão para quem o ‘tanto faz' é via de regra. Os dias para o personagem são todos iguais, não importa receber um aumento, casar ou sua mãe morrer. Sem ganhar ou perder, ele se satisfaz com coisas como nadar ou dormir com sua namorada, Marie. A importância do seu mundo é feita através das sensações e dos impulsos naturais.

"O sol é uma propriedade de Meursault. Ele não tem o lado das emoções trabalhado, mas apenas o das sensações. Se encanta com a natureza e se sente afetado por ela", conta Leme.

Tudo muda no dia em que ele comete um crime - mata um árabe - e é julgado e condenado. Na prisão, com a liberdade e o mundo de sensações restritos, Meursault se enxerga como fruto do absurdo da vida. Primeiro vem o espanto da constatação. Em seguida, a revolta e depois, a salvação.

"É uma vida, como todas as outras, que existe independentemente do homem, que é feita de acasos e pela natureza."

INDIVÍDUO
É só a partir do julgamento que há um estranhamento entre a relação do personagem com o mundo. "Ele se revolta com o padre e desperta para a consciência de que há um jogo do qual ele não quis fazer parte. Meursault é um homem nu e cru. Nós, os homens considerados normais, não conseguimos viver sem uma dose de hipocrisia. Ninguém consegue, ao mesmo tempo, viver, sentir e falar só a verdade. Ou você sente menos e fala mais ou você sente mais e fala menos ou mais. A verdade absoluta, o sentimento real, não é revelado completamente", considera o ator.

As recordações da vida, na falta do próprio ato de viver, tornam-se a salvação do personagem. "Quanto mais pensava mais coisas esquecidas ia tirando da memória. Compreendi então que um homem que houvesse vivido um único dia poderia sem custo passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar", diz Meursault em determinado trecho do livro.

Com mais tempo para refletir sobre sua condição, o homem cria meios de reconstruir a sua história, identificar o que não presta e refinar o que tirou de bom da existência. O prazer das sensações fala mais alto, mas Meursault teve um longo caminho de vida ‘normal' para descobrí-lo.

"É uma descoberta de vida que você só se depara a partir do momento em que existe. Ela deixa de fazer relação e não tem importância quando você não existe para ela", pensa Guilherme Leme.

O Estrangeiro - Teatro. No Sesc Santo André - Rua Tamarutaca, 302. Tel.: 4469-1200. Sábado e domingo, às 20h. Ingr.: R$ 5 a R$ 20.



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