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Quatro décadas de utopia

O ano de 1968 representa o ápice de uma geração que empunhou a juventude como uma bandeira


Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

11/05/2008 | 07:01


Há quarenta anos, uma revolução comportamental e política chacoalhou as estruturas sociais em todo o mundo. Classificado pelo sociólogo francês Edgar Morin como ‘êxtase da história', o ano de 1968 representa o ápice de uma geração que empunhou a juventude como uma bandeira e ‘não acreditou em ninguém com mais de 30 anos.'

As mentes dos garotos e garotas que amavam os Beatles, os Rolling Stones e Che Guevara com a mesma intensidade, eram povoadas por projetos coletivos de transformação da sociedade, experiências com drogas psicodélicas, gestos de liberdade sexual e inconformismo com os valores estabelecidos.

Nesta edição, o Diário inicia uma série de reportagens sobre o conturbado ano de 1968, que serão publicadas sempre aos domingos, ao longo deste mês.

É proibido proibir - Entre as diversas manifestações que marcaram 1968 estão os protestos juvenis na França. Em maio daquele ano, estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit tomaram as ruas de Paris e protestaram contra o autoritarismo do governo do general Charles De Gaulle. A mobilização estudantil começou cerca de dois meses antes, na Faculdade de Nanterre, cidade da periferia parisiense, onde os jovens reivindicavam o direito de as moças visitarem os rapazes nos dormitórios.

Os discursos dos manifestantes eram pontuados por palavras de ordem como ‘É proibido proibir' e ‘Seja realista, peça o impossível.'

Vietnã - Nos Estados Unidos, uma parcela significativa da juventude protestou contra o envolvimento do País na Guerra do Vietnã, o mais polêmico e violento conflito armado da segunda metade do século 20. Em abril daquele ano, na cidade norte-americana de Memphis, o reverendo negro Martin Luther King, combativo ativista do movimento pela igualdade racial, foi brutalmente assassinado.

A morte do líder religioso resultou no fortalecimento dos protestos pelos direitos civis e no recrudescimento da relação entre manifestantes e a polícia. O Partido dos Panteras Negras desempenhou importante papel nesse período.

 
Militares no poder -  Sob um truculento regime militar, o Brasil viveu tempos de censura prévia, prisões políticas e exílio. Assassinado por um soldado da PM, em março de 1968, durante um confronto entre estudantes e policiais no Restaurante Calabouço, no Rio, o jovem Edson Luís Lima Souto, então com 18 anos, tornou-se o primeiro mártir de um período posteriormente conhecido como Anos de Chumbo.

Nessa fase, os militares utilizaram como instrumento de repressão o AI-5 (Ato Institucional Nº 5), promulgado em 13 de dezembro pelo presidente Arthur da Costa e Silva

Em 1968, a MPB promoveu um acalorado debate entre compositores engajados e defensores das tradições musicais, como Geraldo Vandré e Edu Lobo, e os tropicalistas, liderados por Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Ecos de uma geração libertária

Os desdobramentos do terremoto sociocultural provocado por uma geração que defendeu o poder jovem e o amor livre são o tema de 1968 - O que Fizemos de Nós (Planeta, 222 págs., R$ 74,90), novo livro do jornalista Zuenir Ventura, de 76 anos. A obra é vendida em uma caixa comemorativa, juntamente com o best-seller do autor, 1968 - O Ano que Não Terminou, lançado há 20 anos. Ambos os livros serão comercializados separadamente, mas ainda não há previsão de lançamento dessas edições.

Em sua mais recente produção, Zuenir conversou com personagens fundamentais daquele período, marcado pela liberdade proposta pelos hippies e a influência política de líderes de esquerda como Karl Marx, Mao Tse-Tung e Che Guevara. Entre as personalidades que mostraram suas versões da história, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que participou da luta armada contra o regime militar; o cantor e compositor Caetano Veloso, figura da linha de frente do tropicalismo, e o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, um dos principais nomes do movimento estudantil na década de 1960.

Em entrevista ao Diário, o autor falou sobre a herança deixada por 1968, as diferenças entre as manifestações realizadas naquele ano no Brasil e no Exterior, e a influência que exercem nos jovens de hoje.

DIÁRIO - O que 1968 deixou de melhor e de pior para as gerações posteriores?

ZUENIR VENTURA - As drogas são o pior legado de 1968. Elas não foram inventadas por 1968, mas havia uma crença ingênua de que iam ser instrumentos de expansão da consciência. Houve a transformação das drogas em um instrumento de morte, porque elas foram dominadas pelas multinacionais do tráfico e se tornaram um dos negócios mais rentáveis do mundo. Tornaram-se uma espécie de flagelo e a gente não sabe como combatê-las.

DIÁRIO - Qual foi o legado positivo?

ZUENIR - Tem uma herança muito positiva que se traduz no plano das liberdades individuais. Os jovens que acreditavam fazer uma revolução política, fizeram uma revolução nos costumes. A mulher avançou nas suas conquistas, na liberdade de usar o próprio corpo. O movimento gay teve avanços inacreditáveis e é o único hoje em dia capaz de botar nas ruas 3 milhões de pessoas. Outro que avançou foi o movimento ecológico.

DIÁRIO - Entre as personalidades que o senhor entrevistou, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que já foi um radical de esquerda, mostrou posições políticas mais moderadas. A professora Heloísa Buarque de Hollanda revelou otimismo em relação ao futuro. Já o ex-guerrilheiro César Benjamin, o Cesinha, apresentou uma visão pessimista. Qual deles se manteve mais coerente aos princípios éticos e políticos da juventude de 1968?

ZUENIR - Eu acho a história do Cesinha muito bonita. Ele já era militante aos 14 anos, foi preso, exilado e hoje mantém uma lealdade admirável aos seus princípios. Mas independentemente da concordância ou não com o que eles pensam, não faço julgamento dos meus personagens.

DIÁRIO - O ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, um dos principais líderes estudantis nos anos 1960, teve os direitos políticos cassados, por conta de denúncias de envolvimento com o escândalo do Mensalão. Ele é a mancha na história de 1968?

ZUENIR - É o personagem mais polêmico, o que provoca mais discussões. Não fiz a defesa dele nem o condenei. Como já falei, evito julgar meus personagens.

DIÁRIO - Quais as diferenças que poderíamos destacar entre os protestos ocorridos naquele ano no Brasil e no Exterior?

ZUENIR - Na França, os protestos de maio de 1968 começaram com uma motivação sexual. A reivindicação original dos estudantes era de dormitórios mistos, em que podiam ficar rapazes e moças. Nos Estados Unidos, os jovens protestavam contra a Guerra do Vietnã e pelos direitos civis. No México, também tinha uma questão comportamental. As garotas seguravam cartazes em que se lia: ‘Virgindade Dá Câncer'. No Brasil, era ‘Abaixo a Ditadura'.

 
DIÁRIO - Durante a produção do livro, o senhor foi a uma rave para conhecer o comportamento dos jovens de hoje e traçar paralelos entre gerações. Fale um pouquinho sobre essa experiência.

ZUENIR - Tive um aprendizado e desfiz estereótipos em relação a essa geração. A rave não foi nada daquela imagem que eu tinha, que era a de uma orgia decadente. Uma das coisas que aprendi foi não ter essa visão meio arrogante dos mais velhos. A geração anterior achava que a de 1968 era louca. Não podemos cometer o mesmo erro. Cabe a nós compreendermos os jovens.

No cinema, a marginalidade

Ângela Corrêa
Do Diário do Grande ABC

Pirações estéticas, desfechos incompreensíveis, heróis que pouco despertam empatia, ruptura total e salvadora com os padrões que a indústria do entretenimento impunha como símbolo de sucesso. Quando se fala em produção cinematográfica, nenhum dos elementos acima era novidade em maio de 1968, sobretudo para a turma de cineastas da bíblia Cahiers du Cinema. Desde o início daquela década, a sétima arte vivia um momento incrivelmente veloz de transformação.

"Era algo quase sem precedentes, só comparável aos anos 1920. Houve o nascimento da Nouvelle Vague na França, o Cinema Novo no Brasil, além de importantes produções checas e cubanas", comenta o cineasta e crítico de cinema Francisco César Filho.

Com tanta efervescência, as manifestações em todo o mundo há 40 anos funcionaram como a última pedra para consolidar o período como um dos mais significativos em termos de linguagem, estética, experimentações e técnica. O marco zero do movimento social para a sétima arte foi a interrupção da 21ª edição do Festival de Cannes (leia mais na reportagem abaixo).

Na França, onde, mais do que política, os protestos clamavam por modificações comportamentais, jovens encabeçados pela intelectualidade parisiense jogou no cinema uma porção de possibilidades de assuntos a explorar. "Passou a haver uma liberdade para temas ligados à juventude, contemporâneos, urgentes. Falava-se abertamente sobre drogas, sexo e outras polêmicas", diz o crítico.

Filmes emblemáticos que completam quatro décadas este ano são Teorema (Pier Paolo Pasolini), Se... (Lindsey Anderson), O Homem de Kiev (John Frankenheimer), As Corças (Claude Chabrol), O Profundo Desejo dos Deuses (Shohei Imamura), Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone), Beijos Proibidos (François Truffaut), Sentado à Sua Direita (Valério Zurlini) e O Bebê de Rosemary (Roman Polanski).

Deflagradores - O reflexo mais visível do impacto das marchas na produção de filmes para o público de massa se deu, claro, em Hollywood. "Um dos marcos foi Easy Rider - Sem Destino, que expressava o máximo de liberdade que se podia imaginar", afirma Francisco César Filho.

O longa-metragem, nascido de um roteiro de Dennis Hopper e Peter Fonda, colocou os dois atores na estrada sobre duas motocicletas Chopper. A desculpa? Uma viagem de Los Angeles até New Orleans. No caminho, encontram hippies, um advogado de porta de cadeia (Jack Nicholson) e se submetem a muitas ‘viagens' embaladas por drogas. Hopper (que, antes da interpretação, tinha como principal função a de fotógrafo), também dirigiu a produção.

Mesmo quem não assistiu ao filme, se emociona quando ouve a trilha sonora encabeçada por Born to be Wild, do Steppenwolf, acrescido de clássicos de Jimi Hendrix, The Band e The Byrds. Se hoje, à luz de um certo cinismo, esses elementos são clichê, à época foi arrasadoramente radical.

Ficção científica - Mas não era só da estampa malucões drogados que vivia a contracultura cinematográfica. Para o cineasta Carlos Reichenbach, que àquele ano já estudava a sétima arte em São Paulo, a principal obra daquele período foi 2001 - Uma Odisséia no Espaço, lançada por Stanley Kubrick em 1968. A adaptação da obra de Arthur C. Clarke feita pelo controverso cineasta resultou em uma retomada nas produções de ficção científica. "É o filme-símbolo mesmo no sentido metafórico. Os malucos da época elegeram como o ‘ideal a ser visto sob o efeito do LSD'", afirma Carlão.

Blockbusters - Os mais preconceituosos podem duvidar, mas os ares revolucionários vindos da Europa influenciaram e impulsionaram carreiras de futuras máquinas de fazer bilheteria no chamado cinemão norte-americano.

"Caras como George Lucas e Steven Spielberg tiveram estréias cheias de experimentações. Com a ruptura dos antigos padrões, as experiências começaram a ser valorizadas e estimuladas", diz Francisco Cesar Filho.

Depois de muitos testes na faculdade, George Lucas conseguiu rodar o primeiro longa, THX 1168, três anos depois de 2001, uma adaptação de uma idéia original que teve durante a universidade.

Tratava-se de uma história futurista em que a raça humana foi relegada a um abrigo subterrâneo e o sexo era ato ilegal. Robert Duvall interpreta o personagem título que, burlando as regras, engravida uma mulher e é condenado à prisão. A saga de Star Wars só se concretizou em 1977.

Brasil - Enquanto o País vivia sob o impacto de Terra em Transe, filmado em 1967, Gláuber Rocha preparava O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O filme lhe rendeu o prêmio de melhor diretor em Cannes naquele ano.

Em São Paulo, em especial, se testemunhava o nascimento de um cinema que se optou chamar de ‘marginal'. A produção emblema daquele ano foi O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla (1946-2004). Júlio Bressane, com seu Matou a Família e Foi ao Cinema, do ano seguinte, pavimentou essa fama. Joaquim Pedro de Andrade escolheu o herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade e lançou Macunaíma em 1969.

Cannes relembra período

Em 10 de maio de 1968, abertura oficial da 21ª edição do Festival de Cannes, completava-se também quatro dias em que o tempo começou a esquentar em Paris diante de manifestações contra prisões efetuadas em Nanterre em represália a protestos contra a Guerra do Vietnã, dois meses antes. Diante de tamanha movimentação e pressão de alguns intelectuais da época, os organizadores resolveram encerrar as premiações dias depois. Não houve cerimônia e alguns filmes acabaram não sendo exibidos.

Como uma homenagem aos cineastas que não puderam exibir seus filmes na mostra competitiva daquele ano em função dos acontecimentos, a edição deste ano do Festival, que começa na próxima quarta-feira inclui, entre outros, o francês Eu Te Amo, Eu Te Amo, de Alain Resnais, o espanhol Peppermint Frappé, de Carlos Saura, e o inglês Quatro Devem Morrer de Peter Collinson.

As universidades foram fechadas em Paris em 6 de maio. Havia violenta ocupação policial nas principais ruas parisienses e as manifestações eram reprimidas com veemência (um filme recente, Os Sonhadores. que o italiano Bernardo Bertolucci filmou em 2003, usa o período como pano de fundo para as aventuras de jovem norte-americano e um casal de irmãos franceses).

Apesar de tudo, o festival seguiu no litoral francês e demorou a reagir aos acontecimentos, apesar de profissionais do cinema sugerirem o encerramento do Festival três dia após o início, quando uma grande passeata foi convocada nacionalmente.

A atriz italiana Monica Vitti e os diretores Louis Malle e Roman Polanski, que integravam o júri, saíram às ruas para protestar, enquanto os cineastas François Truffaut, Jean-Luc Godard, Roger Vadim e Claude Lelouch protestavam publicamente contra o afastamento do diretor da Cinemateca.

Foi só durante a exibição do filme de Carlos Saura, no dia 18 de maio, que o fundador do prêmio Robert Favre Le Bret decidiu jogar a toalha, anunciando o encerramento para o dia seguinte.




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