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Pagode resiste

Lucas Motta/Divulgação  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Grupos que fizeram sucesso nos anos 1990 não
pararam no tempo e continuam lançando projetos


Karine Manchini

10/09/2017 | 07:00


 Faça o teste: junte os amigos e cante algum trecho de um dos sucessos que marcaram a década de 1990 na voz dos pagodeiros (‘Lua vai/Iluminar os pensamentos dela’ fica como sugestão). Imediatamente alguém vai cantar junto, continuar a letra e começar a puxar, um atrás do outro. Embora muitos neguem que gostam do estilo, a maioria conhece os hits. É que o pagode tocava incansavelmente nas rádios e todos os programas da televisão recebiam como convidados os tais grupos enormes, com seus estilos e dancinhas características.

O curioso é que até hoje alguns músicos que fazem pagode – considerado como derivado do samba (leia mais na página 3) e, por isso, tem quem entenda que seja menos nobre – não gostam do título. Afirmam que tocam samba e ponto. Outros têm tanto orgulho da escola que continuam a lançar projetos.

O Turma do Pagode, criado em 1996, por exemplo, continua firme e forte. E como forma de homenagear quem serviu de influência para o início de carreira, Leíz, Caramelo, Rubinho, Marcelinho, Filé, Fabiano Art, Neni, e Thiagão gravaram Misturadin, disponível nas plataformas digitais. A coletânea tem participações especiais de Chrigor, Netinho de Paula, Leandro Lehart e Márcio Art, do Art Popular e Belo. “Gravar músicas que fizeram parte da nossa vida é maravilhoso. Somos fãs e amigos de todos”, explica Thiagão.

Entre as novidades, está Cobertor de Orelha, com clipe que ultrapassou 7 milhões de views no YouTube e atuação do ex-jogador Denilson. “Traz o pagode que crescemos ouvindo, mas também segue linha mais moderna”, conta Marcelinho. O grupo vai passar com a turnê em 11 de novembro pela Estância Alta da Serra, São Bernardo.

VELHA GUARDA
Um dos nomes mais conhecidos do estilo musical, o cantor andreense Péricles, ex-integrante do Exaltasamba, também participa de Misturadin. Não à toa. Ele foi um que contribuiu muito para que a grande fase noventista do pagode jamais fosse esquecida. “Foi época maravilhosa que abriu as portas para muita gente. Acho que o Exaltasamba, assim como outros – Raça Negra, Fundo de Quintal –, deu a sua contribuição. Tivemos a coragem de quebrar barreiras e lutar contra vários preconceitos até conseguir se consolidar no mercado. Deu tudo certo”, conta o músico, que passou pela primeira formação do Exaltasamba em 1986, voltou em 1989 e ficou até 2012, quando decidiu seguir carreira solo.

Péricles sempre foi apaixonado por música e sua família foi a chave para o fortalecimento deste amor. “Fui criado em um ambiente em que eu e meus irmãos ganhávamos discos de presente. A música estava nas festas, nos aniversários, no dia a dia. Lembro dos meus pais cantando dentro de casa e meu avó, que era artista, ouvindo os bons programas de rádio e grandes orquestras. Escutava muito Trio Mocotó e acompanhava a carreira de Jorge Ben Jor, Agepê, Martinho da Vila e Elza Soares. Era obrigatório ter pelo menos um disco de samba em casa”, relembra.

Em turnê com seu novo trabalho, Deserto da Ilusão, o andreense vai se apresentar em São Paulo nos dia 20 e 21, no Teatro Bradesco. Em 11 de outubro, ele estará em Ribeirão Pires e, em 11 de novembro, também vai subir ao palco da Estância.

Além do Laralará
O Brasil e sua mistura de povos e raças carregam consigo diversas origens culturais. Os movimentos musicais não são diferentes. Pagode e samba, originalmente, eram nomes de festas com batuque da época dos escravos. O samba se transformou primeiro em gênero musical no início do século 20. Somente por volta do fim dos anos 1970 e começo dos 1980, em uma quadra em Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro, foi desenvolvido um tipo de samba com instrumentos diferentes. Grupos, como o Fundo de Quintal, e sambistas, como Almir Guineto e Jorge Aragão, deram início ao pagode.

“Trata-se de samba cadenciado, com sua estrutura rítmica. A formação dos grupos também era nova: um cantor principal e outros, atrás, fazendo vozes e tocando alguns instrumentos. Um deles é o banjo, de origem norte-americana, mas com cordas afinadas como um cavaquinho”, explica o doutor em Comunicação e professor da Universidade Metodista Herom Vargas.

O pagode foi chegando devagar até que, na década de 1990, ganhou cara mais ‘comercial’ e estourou. Raça Negra, Exaltasamba, Soweto, Só pra Contrariar, Molejo, Negritude Júnior, Katinguelê, Art Popular, Pixote, Karametade são alguns nomes que trouxeram a junção de melodias, sobretudo super-românticas, e batidas com interferência de instrumentos eletrônicos.

PAGODEIROS
Por essas e outras, o pagode marcou gerações. Há quem continue selecionando os hits para o setlist da vida. “Comecei a escutar quando tinha 10 anos por influência dos meus tios. Ouço até hoje e curto muito Raça Negra, Art Popular, Fundo de Quintal e Molejo”, conta o comerciante de São Bernardo Alexandre Carlos Festa, 31 anos. A empresária Mariana Romanini Chippari, 34, de Ribeirão Pires, também foi testemunha do sucesso dos anos 1990. Ela é tão fã que consegue enxergar as mudanças que o estilo sofreu no decorrer dos anos. “Acho que hoje as letras são mais ‘melosas’ e, principalmente, muito repetitivas, tem ‘laralalá’ demais. Em quase todas as músicas se ouve só isso”. E completa: “As letras românticas do Exaltasamba, Raça Negra e Katinguelê marcaram muito a minha adolescência.”

Engano de quem pensa que o pagode marcou somente a faixa etária dos 30 anos. Prova viva é o estagiário de comunicação Augusto de Souza, 23, de Santo André. Fã de Exaltasamba, Os Travessos, Só Pra Contrariar, Sensação, Pique Novo e Katinguelê, ele conta que o estilo sempre foi trilha sonora para os começos e términos de relacionamentos.

Souza não lamenta ser ainda criança quando o estilo musical estourou. Pelo contrário. O estudante vê grande vantagem em poder, aos poucos, descobrir mais um grupo de pagode daquela época. Ele também percebe diferenças entre os ‘pagodes’. “Antigamente, o processo era mais simples. Se o compositor estava sofrendo, com um papel e uma caneta na mão ele escrevia uma letra que fazia chorar junto. Não se preocupava tanto em criar algo épico, só queria criar”, analisa o jovem, que festeja a sorte de ter conhecido o cantor Péricles. Eles moram em bairros próximos em Santo André.



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Pagode resiste

Grupos que fizeram sucesso nos anos 1990 não
pararam no tempo e continuam lançando projetos

Karine Manchini

10/09/2017 | 07:00


 Faça o teste: junte os amigos e cante algum trecho de um dos sucessos que marcaram a década de 1990 na voz dos pagodeiros (‘Lua vai/Iluminar os pensamentos dela’ fica como sugestão). Imediatamente alguém vai cantar junto, continuar a letra e começar a puxar, um atrás do outro. Embora muitos neguem que gostam do estilo, a maioria conhece os hits. É que o pagode tocava incansavelmente nas rádios e todos os programas da televisão recebiam como convidados os tais grupos enormes, com seus estilos e dancinhas características.

O curioso é que até hoje alguns músicos que fazem pagode – considerado como derivado do samba (leia mais na página 3) e, por isso, tem quem entenda que seja menos nobre – não gostam do título. Afirmam que tocam samba e ponto. Outros têm tanto orgulho da escola que continuam a lançar projetos.

O Turma do Pagode, criado em 1996, por exemplo, continua firme e forte. E como forma de homenagear quem serviu de influência para o início de carreira, Leíz, Caramelo, Rubinho, Marcelinho, Filé, Fabiano Art, Neni, e Thiagão gravaram Misturadin, disponível nas plataformas digitais. A coletânea tem participações especiais de Chrigor, Netinho de Paula, Leandro Lehart e Márcio Art, do Art Popular e Belo. “Gravar músicas que fizeram parte da nossa vida é maravilhoso. Somos fãs e amigos de todos”, explica Thiagão.

Entre as novidades, está Cobertor de Orelha, com clipe que ultrapassou 7 milhões de views no YouTube e atuação do ex-jogador Denilson. “Traz o pagode que crescemos ouvindo, mas também segue linha mais moderna”, conta Marcelinho. O grupo vai passar com a turnê em 11 de novembro pela Estância Alta da Serra, São Bernardo.

VELHA GUARDA
Um dos nomes mais conhecidos do estilo musical, o cantor andreense Péricles, ex-integrante do Exaltasamba, também participa de Misturadin. Não à toa. Ele foi um que contribuiu muito para que a grande fase noventista do pagode jamais fosse esquecida. “Foi época maravilhosa que abriu as portas para muita gente. Acho que o Exaltasamba, assim como outros – Raça Negra, Fundo de Quintal –, deu a sua contribuição. Tivemos a coragem de quebrar barreiras e lutar contra vários preconceitos até conseguir se consolidar no mercado. Deu tudo certo”, conta o músico, que passou pela primeira formação do Exaltasamba em 1986, voltou em 1989 e ficou até 2012, quando decidiu seguir carreira solo.

Péricles sempre foi apaixonado por música e sua família foi a chave para o fortalecimento deste amor. “Fui criado em um ambiente em que eu e meus irmãos ganhávamos discos de presente. A música estava nas festas, nos aniversários, no dia a dia. Lembro dos meus pais cantando dentro de casa e meu avó, que era artista, ouvindo os bons programas de rádio e grandes orquestras. Escutava muito Trio Mocotó e acompanhava a carreira de Jorge Ben Jor, Agepê, Martinho da Vila e Elza Soares. Era obrigatório ter pelo menos um disco de samba em casa”, relembra.

Em turnê com seu novo trabalho, Deserto da Ilusão, o andreense vai se apresentar em São Paulo nos dia 20 e 21, no Teatro Bradesco. Em 11 de outubro, ele estará em Ribeirão Pires e, em 11 de novembro, também vai subir ao palco da Estância.

Além do Laralará
O Brasil e sua mistura de povos e raças carregam consigo diversas origens culturais. Os movimentos musicais não são diferentes. Pagode e samba, originalmente, eram nomes de festas com batuque da época dos escravos. O samba se transformou primeiro em gênero musical no início do século 20. Somente por volta do fim dos anos 1970 e começo dos 1980, em uma quadra em Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro, foi desenvolvido um tipo de samba com instrumentos diferentes. Grupos, como o Fundo de Quintal, e sambistas, como Almir Guineto e Jorge Aragão, deram início ao pagode.

“Trata-se de samba cadenciado, com sua estrutura rítmica. A formação dos grupos também era nova: um cantor principal e outros, atrás, fazendo vozes e tocando alguns instrumentos. Um deles é o banjo, de origem norte-americana, mas com cordas afinadas como um cavaquinho”, explica o doutor em Comunicação e professor da Universidade Metodista Herom Vargas.

O pagode foi chegando devagar até que, na década de 1990, ganhou cara mais ‘comercial’ e estourou. Raça Negra, Exaltasamba, Soweto, Só pra Contrariar, Molejo, Negritude Júnior, Katinguelê, Art Popular, Pixote, Karametade são alguns nomes que trouxeram a junção de melodias, sobretudo super-românticas, e batidas com interferência de instrumentos eletrônicos.

PAGODEIROS
Por essas e outras, o pagode marcou gerações. Há quem continue selecionando os hits para o setlist da vida. “Comecei a escutar quando tinha 10 anos por influência dos meus tios. Ouço até hoje e curto muito Raça Negra, Art Popular, Fundo de Quintal e Molejo”, conta o comerciante de São Bernardo Alexandre Carlos Festa, 31 anos. A empresária Mariana Romanini Chippari, 34, de Ribeirão Pires, também foi testemunha do sucesso dos anos 1990. Ela é tão fã que consegue enxergar as mudanças que o estilo sofreu no decorrer dos anos. “Acho que hoje as letras são mais ‘melosas’ e, principalmente, muito repetitivas, tem ‘laralalá’ demais. Em quase todas as músicas se ouve só isso”. E completa: “As letras românticas do Exaltasamba, Raça Negra e Katinguelê marcaram muito a minha adolescência.”

Engano de quem pensa que o pagode marcou somente a faixa etária dos 30 anos. Prova viva é o estagiário de comunicação Augusto de Souza, 23, de Santo André. Fã de Exaltasamba, Os Travessos, Só Pra Contrariar, Sensação, Pique Novo e Katinguelê, ele conta que o estilo sempre foi trilha sonora para os começos e términos de relacionamentos.

Souza não lamenta ser ainda criança quando o estilo musical estourou. Pelo contrário. O estudante vê grande vantagem em poder, aos poucos, descobrir mais um grupo de pagode daquela época. Ele também percebe diferenças entre os ‘pagodes’. “Antigamente, o processo era mais simples. Se o compositor estava sofrendo, com um papel e uma caneta na mão ele escrevia uma letra que fazia chorar junto. Não se preocupava tanto em criar algo épico, só queria criar”, analisa o jovem, que festeja a sorte de ter conhecido o cantor Péricles. Eles moram em bairros próximos em Santo André.

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