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Gente do ABC - A guardiã da história de Rio Grande


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

29/01/2006 | 09:31


Com respeitáveis cabelos brancos, Gisela Leonor Saar, 75 anos, fala como os contadores de histórias. Não perde o fio da meada e passa seguidos minutos emendando personagens e fatos. Aos poucos, retratos do passado de Rio Grande da Serra, onde vive desde que nasceu, vão se formando na imaginação de quem ouve. Há pelo menos 30 anos, ela se dedica à tarefa de juntar papéis. Guardo tudo – livros, jornais, revistas, enciclopédias. Foi assim, juntando os pedacinhos das antigas, que ela se transformou na guardiã da memória do município.

A casa em que Gisela Saar vive, no Jardim Maria Paula, se transformou em referência para os alunos da cidade, que freqüentam diariamente sua biblioteca particular para fazer os trabalhos de escola. Ela também dá palestras em toda a região, e recebe turmas para cursos especiais. É assim, democratizando o conhecimento, que dona Gisela mantém os pés no passado. E os olhos no futuro.

Solteira, ela mora com a irmã numa casa que não dependeria do acervo de livros e documentos para ser cheia de história. Os móveis são de 1890 e pertenciam à avó de dona Gisela, que era alemã. Além do sangue germânico, tem também ascendência inglesa. “Tive uma educação muito rígida. Papai, que era inglês e filho de alemão, nos ensinou o amor aos livros, à cultura. Vem daí esse meu apego ao conhecimento. Vem do berço.”

Dona Gisela estudou Direito no Largo São Francisco, faculdade da USP (Universidade de São Paulo), e concluiu os estudos em 1963. Era considerada “bem moderninha” para a época, tempo em que as mulheres eram criadas para não voar tão alto. “Meus pais sempre fizeram questão que estudássemos. Comecei em Ribeirão Pires, depois fiz o ginásio em Santo André, e em seguida a faculdade no Centro de São Paulo. Era um período turbulento, pré-ditadura militar. Eu até participei de algumas greves, mas preferia observar. Registrar aqueles momentos todos, analisar. Eu presenciei a história.”

A advogada começou a trabalhar cedo, aos 19 anos, na Indústria Química Eletrocloro, hoje Solvay Indupa. Como dominava os idiomas inglês e alemão, e ainda tinha conhecimentos de francês e espanhol, não teve dificuldades para conseguir uma vaga. De secretária, chegou à diretoria da empresa. Viajava muito e passava semanas longe de casa. Foi o que a fez recusar proposta de casamento de um aviador búlgaro, que queria levá-la para morar na Europa. “Sempre lutei muito pela minha independência. E acabei priorizando a minha liberdade, o meu desenvolvimento. Este foi o meu caminho. De jeito nenhum me arrependo. Mas às vezes penso em como teria sido.”

O interesse pela história de Rio Grande da Serra começou no final dos anos 1970, quando as autoridades demoliram a Capela Santa Cruz, hoje ruínas ao lado da Igreja Matriz da cidade. A destruição dividiu os moradores – dona Gisela encabeçava o grupo que não se conformava em ver a construção dos jesuítas no chão. “Foi aí que passei a devorar a história de Rio Grande, para ter argumentos que justificassem o absurdo que era não se preservar a capela. Não parei mais. Todo papel que cai na minha mão é como se caísse do céu, um presente de Deus.”

Nos arquivos de dona Gisela, descansam documentos históricos que nem a Prefeitura possui. Ela espera a construção da Casa de Cultura para entregar as relíquias ao poder público. Enquanto o espaço não sai de projeto, ela guarda tudo com zelo. Além de quase mil volumes de livros sobre os mais variados temas, a biblioteca, batizada José de Anchieta, tem outro milhar de exemplares de livros espíritas, que podem ser retirados. Os demais, ainda não catalogados, só podem ser consultados na própria casa.

Para receber os visitantes, dona Gisela, que se locomove em cadeira de rodas, conta com a ajuda da secretária Rosa, que arrasta os móveis, espalha as cadeiras e auxilia na pesquisa. Ao final, serve bolo feito quase na hora, café e limonada. “Dedico hoje minha vida a esse trabalho. Não sairia de Rio Grande da Serra por nada. Às vezes, a neblina me deprime um pouco. Mas minhas raízes estão bem fortes neste chão.”



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Gente do ABC - A guardiã da história de Rio Grande

Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

29/01/2006 | 09:31


Com respeitáveis cabelos brancos, Gisela Leonor Saar, 75 anos, fala como os contadores de histórias. Não perde o fio da meada e passa seguidos minutos emendando personagens e fatos. Aos poucos, retratos do passado de Rio Grande da Serra, onde vive desde que nasceu, vão se formando na imaginação de quem ouve. Há pelo menos 30 anos, ela se dedica à tarefa de juntar papéis. Guardo tudo – livros, jornais, revistas, enciclopédias. Foi assim, juntando os pedacinhos das antigas, que ela se transformou na guardiã da memória do município.

A casa em que Gisela Saar vive, no Jardim Maria Paula, se transformou em referência para os alunos da cidade, que freqüentam diariamente sua biblioteca particular para fazer os trabalhos de escola. Ela também dá palestras em toda a região, e recebe turmas para cursos especiais. É assim, democratizando o conhecimento, que dona Gisela mantém os pés no passado. E os olhos no futuro.

Solteira, ela mora com a irmã numa casa que não dependeria do acervo de livros e documentos para ser cheia de história. Os móveis são de 1890 e pertenciam à avó de dona Gisela, que era alemã. Além do sangue germânico, tem também ascendência inglesa. “Tive uma educação muito rígida. Papai, que era inglês e filho de alemão, nos ensinou o amor aos livros, à cultura. Vem daí esse meu apego ao conhecimento. Vem do berço.”

Dona Gisela estudou Direito no Largo São Francisco, faculdade da USP (Universidade de São Paulo), e concluiu os estudos em 1963. Era considerada “bem moderninha” para a época, tempo em que as mulheres eram criadas para não voar tão alto. “Meus pais sempre fizeram questão que estudássemos. Comecei em Ribeirão Pires, depois fiz o ginásio em Santo André, e em seguida a faculdade no Centro de São Paulo. Era um período turbulento, pré-ditadura militar. Eu até participei de algumas greves, mas preferia observar. Registrar aqueles momentos todos, analisar. Eu presenciei a história.”

A advogada começou a trabalhar cedo, aos 19 anos, na Indústria Química Eletrocloro, hoje Solvay Indupa. Como dominava os idiomas inglês e alemão, e ainda tinha conhecimentos de francês e espanhol, não teve dificuldades para conseguir uma vaga. De secretária, chegou à diretoria da empresa. Viajava muito e passava semanas longe de casa. Foi o que a fez recusar proposta de casamento de um aviador búlgaro, que queria levá-la para morar na Europa. “Sempre lutei muito pela minha independência. E acabei priorizando a minha liberdade, o meu desenvolvimento. Este foi o meu caminho. De jeito nenhum me arrependo. Mas às vezes penso em como teria sido.”

O interesse pela história de Rio Grande da Serra começou no final dos anos 1970, quando as autoridades demoliram a Capela Santa Cruz, hoje ruínas ao lado da Igreja Matriz da cidade. A destruição dividiu os moradores – dona Gisela encabeçava o grupo que não se conformava em ver a construção dos jesuítas no chão. “Foi aí que passei a devorar a história de Rio Grande, para ter argumentos que justificassem o absurdo que era não se preservar a capela. Não parei mais. Todo papel que cai na minha mão é como se caísse do céu, um presente de Deus.”

Nos arquivos de dona Gisela, descansam documentos históricos que nem a Prefeitura possui. Ela espera a construção da Casa de Cultura para entregar as relíquias ao poder público. Enquanto o espaço não sai de projeto, ela guarda tudo com zelo. Além de quase mil volumes de livros sobre os mais variados temas, a biblioteca, batizada José de Anchieta, tem outro milhar de exemplares de livros espíritas, que podem ser retirados. Os demais, ainda não catalogados, só podem ser consultados na própria casa.

Para receber os visitantes, dona Gisela, que se locomove em cadeira de rodas, conta com a ajuda da secretária Rosa, que arrasta os móveis, espalha as cadeiras e auxilia na pesquisa. Ao final, serve bolo feito quase na hora, café e limonada. “Dedico hoje minha vida a esse trabalho. Não sairia de Rio Grande da Serra por nada. Às vezes, a neblina me deprime um pouco. Mas minhas raízes estão bem fortes neste chão.”

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