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Uma bela e premiada estréia


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

11/11/2005 | 08:45


Cinema, Aspirinas e Urubus. Baita título, embora não se julgue livro pela capa nem filme pelo nome. E o que se presencia no longa de estréia do pernambucano Marcelo Gomes justifica o título e a trinca de prêmios que levou na 29ª Mostra BR de Cinema, semana passada: melhor longa na avaliação do júri oficial; melhor filme brasileiro segundo a crítica; e melhor ator para João Miguel, que vive o retirante Ranulfo neste filme que resulta das memórias de um tio-avô, também migrante, do cineasta.

O filme de Marcelo Gomes estréia na semana seguinte ao lançamento de Cidade Baixa, do também estreante Sérgio Machado. Foram os dois representantes brasileiros no último Festival de Cannes. E estão entre as obras que oxigenam o ar estancado da cinematografia nacional recente.

Na tela, dois refugiados, que interagem no início dos anos 40 em meio ao sertão nordestino. Johann (Peter Ketnuth) abandona a Alemanha natal por se indispor com a política nazista e com o alistamento dos cidadãos germânicos para a guerra. Percorre o Nordeste a bordo de um caminhão, dentro do qual vende aspirinas, então uma novidade farmacêutica, por meio de filmes publicitários exibidos a uma população que nunca esteve diante de uma tela de cinema. Ranulfo (João Miguel) toma carona com o galego para escapar à vida miserável imposta pela seca. “Acho que é um filme que tem tudo a ver com o que vivemos hoje. Falamos de um processo de alteridade (a relação com o outro), da compreensão e da aceitação do que é distante, no meio dessa indiferença atual motivada por culturas, religiões e políticas diferentes”, afirma Gomes.

É um filme atual, sem dúvida. Mais que isso. É um filme necessário. Cinema, Aspirinas e Urubus abre e fecha com lampejos ofuscantes de luz branca, a ponto de incomodar a retina, como se Gomes quisesse assim trazer à exposição Vidas Secas, o filme de Nelson Pereira dos Santos inspirado em Graciliano Ramos, com sua fotografia alvejante.

Essa correspondência não procura exatamente a analogia ao filme de Nelson, mas ao Cinema Novo de um modo geral. Traz a escola de Glauber e Nelson à baila como referência, e não como a reverência que contamina uma ou outra produção contemporânea com pretensões similares. Cinema, Aspirinas e Urubus assume responsabilidades históricas, que não precisariam ser suas.

Um risco, que acaba muito bem-administrado pelo diretor. A começar por certo tom cômico do filme, que troca a embalagem circense de O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro (sem demérito destes, por favor) pela naturalidade do sertanejo, transmitida com maestria por João Miguel.

Outro código cinemanovista que Gomes enfrenta é a relação homem-sertão. A despeito do que propagaram seus antepassados artísticos, o diretor não submete os personagens ao ambiente árido. Fecha seus planos nos rostos, quando não em close-ups extremos, para reverter a relação. O sertão está ora sujeito ao homem, que sacoleja dentro do caminhão, que conversa coloquialmente sem grandes pretensões filosóficas, ou, como diz João Miguel, que “come, bebe, faz sexo” como qualquer outro. Sem contar que muito do que se chama ação ocorre fora do plano (uma picada de cobra, uma cena de sexo).

O ambiente é então um detalhe, não uma causa desse relacionamento em eterno conflito: o alemão quer se embrenhar no meio desse lugar tão desgraçado onde “nem a guerra chega” (nas palavras de Ranulfo); já o sertanejo quer abandoná-lo, quer expandir. Um relacionamento inconciliável, dentro de um retrato corajoso sobre os refugiados padronizados segundo cinematografias distintas: fomos educados a pregar o rótulo de refugiado aos foragidos das batalhas ilustradas em filmes (estrangeiros) sobre a Segunda Guerra ou afins. Quando se trata dos refugiados da miséria no território nacional são classificados como retirantes ou, no máximo, migrantes. Cinema, Aspirinas e Urubus provoca, simultaneamente, as tradições nacionais e galegas do cinema. Portanto, um filme de contestação, além de tudo. E tem um título – que só vai entender quem a ele assistir – que é uma beleza.

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (Brasil, 2005). Dir.: Marcelo Gomes. Com João Miguel, Peter Ketnath. Estréia nesta sexta-feira no Shopping ABC 5 e circuito. Duração: 99 minutos. Censura: 14 anos.



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Uma bela e premiada estréia

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

11/11/2005 | 08:45


Cinema, Aspirinas e Urubus. Baita título, embora não se julgue livro pela capa nem filme pelo nome. E o que se presencia no longa de estréia do pernambucano Marcelo Gomes justifica o título e a trinca de prêmios que levou na 29ª Mostra BR de Cinema, semana passada: melhor longa na avaliação do júri oficial; melhor filme brasileiro segundo a crítica; e melhor ator para João Miguel, que vive o retirante Ranulfo neste filme que resulta das memórias de um tio-avô, também migrante, do cineasta.

O filme de Marcelo Gomes estréia na semana seguinte ao lançamento de Cidade Baixa, do também estreante Sérgio Machado. Foram os dois representantes brasileiros no último Festival de Cannes. E estão entre as obras que oxigenam o ar estancado da cinematografia nacional recente.

Na tela, dois refugiados, que interagem no início dos anos 40 em meio ao sertão nordestino. Johann (Peter Ketnuth) abandona a Alemanha natal por se indispor com a política nazista e com o alistamento dos cidadãos germânicos para a guerra. Percorre o Nordeste a bordo de um caminhão, dentro do qual vende aspirinas, então uma novidade farmacêutica, por meio de filmes publicitários exibidos a uma população que nunca esteve diante de uma tela de cinema. Ranulfo (João Miguel) toma carona com o galego para escapar à vida miserável imposta pela seca. “Acho que é um filme que tem tudo a ver com o que vivemos hoje. Falamos de um processo de alteridade (a relação com o outro), da compreensão e da aceitação do que é distante, no meio dessa indiferença atual motivada por culturas, religiões e políticas diferentes”, afirma Gomes.

É um filme atual, sem dúvida. Mais que isso. É um filme necessário. Cinema, Aspirinas e Urubus abre e fecha com lampejos ofuscantes de luz branca, a ponto de incomodar a retina, como se Gomes quisesse assim trazer à exposição Vidas Secas, o filme de Nelson Pereira dos Santos inspirado em Graciliano Ramos, com sua fotografia alvejante.

Essa correspondência não procura exatamente a analogia ao filme de Nelson, mas ao Cinema Novo de um modo geral. Traz a escola de Glauber e Nelson à baila como referência, e não como a reverência que contamina uma ou outra produção contemporânea com pretensões similares. Cinema, Aspirinas e Urubus assume responsabilidades históricas, que não precisariam ser suas.

Um risco, que acaba muito bem-administrado pelo diretor. A começar por certo tom cômico do filme, que troca a embalagem circense de O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro (sem demérito destes, por favor) pela naturalidade do sertanejo, transmitida com maestria por João Miguel.

Outro código cinemanovista que Gomes enfrenta é a relação homem-sertão. A despeito do que propagaram seus antepassados artísticos, o diretor não submete os personagens ao ambiente árido. Fecha seus planos nos rostos, quando não em close-ups extremos, para reverter a relação. O sertão está ora sujeito ao homem, que sacoleja dentro do caminhão, que conversa coloquialmente sem grandes pretensões filosóficas, ou, como diz João Miguel, que “come, bebe, faz sexo” como qualquer outro. Sem contar que muito do que se chama ação ocorre fora do plano (uma picada de cobra, uma cena de sexo).

O ambiente é então um detalhe, não uma causa desse relacionamento em eterno conflito: o alemão quer se embrenhar no meio desse lugar tão desgraçado onde “nem a guerra chega” (nas palavras de Ranulfo); já o sertanejo quer abandoná-lo, quer expandir. Um relacionamento inconciliável, dentro de um retrato corajoso sobre os refugiados padronizados segundo cinematografias distintas: fomos educados a pregar o rótulo de refugiado aos foragidos das batalhas ilustradas em filmes (estrangeiros) sobre a Segunda Guerra ou afins. Quando se trata dos refugiados da miséria no território nacional são classificados como retirantes ou, no máximo, migrantes. Cinema, Aspirinas e Urubus provoca, simultaneamente, as tradições nacionais e galegas do cinema. Portanto, um filme de contestação, além de tudo. E tem um título – que só vai entender quem a ele assistir – que é uma beleza.

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (Brasil, 2005). Dir.: Marcelo Gomes. Com João Miguel, Peter Ketnath. Estréia nesta sexta-feira no Shopping ABC 5 e circuito. Duração: 99 minutos. Censura: 14 anos.

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