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Publicado em domingo, 19 de agosto de 2012 às 07:20 Histórico

Cracolândia se instala perto de escolas em Santo André


Rafael Ribeiro
Do Diário do Grande ABC

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Lixo espalhado pelas ruas. Mau cheiro. Usuários consomem pedras de crack livremente. A degradação humana é visível. Olhos inchados observam a fogueira, enquanto no fundo há gritaria e confusão. A via pública se transforma em banheiro. Entidades distribuem comida e roupas, quase sempre usadas como moeda de troca por mais drogas.

O cenário, típico da parte da região central da Capital conhecida como Cracolândia, devido à proliferação de usuários e à perda do poder público, há cerca de seis meses vem se tornando realidade na Vila Guiomar, em Santo André. Tudo ao lado de prédios residenciais, próximo de duas escolas estaduais de ensino Fundamental e Médio a cerca de três quilômetros do Paço Municipal e em meio a bairros considerados de elite na cidade.

"Estamos perdendo a guerra", lamenta uma moradora aposentada de 68 anos, 25 deles no local. O medo do conflito com usuários e traficantes faz com que os habitantes da Vila Guiomar fiquem no anonimato. Mas o desespero torna-se visível em suas feições e palavras. "Dói você falar que mora aqui e o pessoal dizer que é a Cracolândia do Grande ABC", disse outro, um vendedor de 38, há 12 no bairro.

A solução é manter portões dos prédios trancados e janelas fechadas. O Diário esteve por uma semana rondando pelas ruas onde a situação é mais crítica. Mesmo em horários variados, quase sempre somente os dependentes químicos as ocupam. Acuados, os moradores evitam sair de casa. "Não podemos nem receber visita. As pessoas não querem vir aqui. Têm medo de deixarem o carro na rua, de serem roubadas", apontou uma secretária de 33 anos, há oito no local.

Roubos ainda não existem. Mas os moradores não sabem por quanto tempo. Enquanto isso, convivem com uma rotina de perda de sono. As madrugadas costumam ser o horário crítico, principalmente às sextas-feiras, quando até 50 pessoas se aglomeram no bairro. Os horários do almoço e do início da noite também são movimentados. Trabalhadores param para comprar droga ou consumi-la junto dos outros. Se diferenciam. Bem vestidos, admitem o vício com vergonha. "Não tenho nem o que dizer", disse um jovem motoqueiro, enfurecido.

Mariana, como pediu para ser chamada, tem o que falar. Dizendo ter 24 anos, loira e quase sempre com roupas curtas, revela que se droga desde os 16. Descobriu o meio mais fácil de garantir seu vício, prostituindo-se. "É o jeito", disse, enquanto desce de um Corsa preto na Rua Catequese e sobe a Rua Almeida Garrett para encontrar os amigos contando os R$ 40 ganhos.

"Não tem desculpa. O problema é de todo mundo. Todos nós temos que agir conjuntamente", disse Guerdson Ferreira, delegado seccional de Santo André. Ele alega que faz operações constantes no local e já conseguiu resultados.

O assunto é tema recorrente nas reuniões do bairro da Conseg (Conselho de Segurança). A Prefeitura foi cobrada para implantar projetos sociais como quadra de esportes e melhorar iluminação, mas pouco fez. Alega que o foco não é coibir o uso, mas garantir tratamento. Para isso, faz visitas, oferece acolhimento e duas unidades de Núcleo de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas na cidade. "Mas não tem jeito, essas pessoas não têm família e quase sempre voltam para as ruas", disse Ferreira.

 

Especialista diz que concentração é prejudicial

 

Para o urbanista e professor da USP (Universidade de São Paulo) Cândido Malta, a degradação da Vila Guiomar pode se acentuar caso não haja resposta imediata do poder público. "A concentração de usuários em um único lugar é fatal", indicou. A Cracolândia paulistana é o exemplo.

"Mas não é apenas a dispersão que melhorará. É um problema que só se resolve socialmente. Não adianta apenas melhorar o bairro, ‘deixá-lo limpo'. Tem que se acabar com o consumo. E a classe média, que é quem consome a droga, não vai deixar de comprar", disse.

Os números da Prefeitura mostram que há aumento da procura por tratamento desde que o Ministério da Saúde passou a tratar como caso médico e não de polícia o porte de drogas. Até junho, os serviços oferecidos já registravam cerca de 640 atendimentos. No ano passado foram 1.530 até dezembro. E em 2010, antes da nova regulamentação, somente 970 pessoas pediram ajuda.

Junto com entidades como a Casa Amarela, a URD (Unidade de Redução de Danos) tem papel principal na atuação municipal contra o crack, fazendo o trabalho de acolher e encaminhar os dependentes químicos aos serviços médicos.

"É um pessoal que deve ser socorrido. Mas temos carências grandes para encaminhá-los aos órgãos competentes", disse o delegado seccional Guerdson Ferreira.

 

 



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