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Publicado em segunda-feira, 7 de outubro de 2013 às 07:00 Histórico

Memórias de um pracinha andreense durante a Segunda Guerra Mundial

Andréa Iseki/DGABC

Mãe. Foi a primeira palavra que o então pracinha brasileiro de 21 anos disse quando foi atingido por uma granada das forças alemãs na Itália. Ainda hoje, aos 92 anos, a lembrança faz as lágrimas escorrerem dos olhos de Miguel Garofalo, andreense com memória de ouro e presidente da Associação dos Ex-Combatentes do ABCDMRR, que completou ontem 50 anos (leia mais ao lado). “Andei por quatro quilômetros sangrando até a base. A ponte que passava sobre o rio tinha caído e tivemos de atravessar. As cicatrizes não me deixam esquecer.”

Mas a experiência do 2º tenente reformado da Segunda Guerra Mundial não é permeada apenas por momentos tristes. Ele se lembra da convivência com os italianos, povo sofrido e arrasado pela guerra, que via nos brasilianos soldados amistosos e pessoas dispostas a dividir suas marmitas para que passassem menos fome. “O uniforme da FEB (Força Expedicionária Brasileira) era parecido com o dos nazistas. Quando desembarcamos em Nápoles, começaram a nos xingar, mas expliquei, em italiano, que éramos brasileiros e estávamos ali para ajudar.”

Filho de italianos, Garofalo chegou ao país de origem dos pais em 16 de julho de 1944, com os primeiros 5.081 homens do total de 25.445 enviados da FEB. Foi à guerra por causa de uma moça. “Minha tia tinha salão de beleza em Santo André, onde eu ia com frequência para olhar as jovens de permanente. Um dia, pediu que eu levasse uma delas para o baile da Rhodia, onde eu trabalhava.” 

No baile, o chefe de Garofalo queria dançar com a jovem, mas ela respondeu que ‘só dançava com o Miguel’. No dia seguinte, no Clube Primeiro de Maio, a situação se repetiu. Quando foi convocado, Garofalo escutou do comandante que, se o chefe escrevesse uma carta dizendo que ele trabalhava na Rhodia e era essencial para a empresa, seria dispensado. “Não pensei que fosse para a guerra. Meu pai era idoso, minha mãe doente, e tinha um irmão cego.”

O chefe fez a carta, mas o que Garofalo não sabia é que a assinatura valia apenas por 60 dias. Pois passado esse prazo, o jovem foi convocado e não teve o que fazer. A moça? Nunca mais viu.

NA ITÁLIA

Após a chegada em Nápoles, Garofalo passou 15 dias na província de Civitavecchia, a quatro quilômetros de Roma. Ali, os soldados viram o quanto a guerra havia afetado o país. “No primeiro dia, dividimos nossas marmitas com alguns meninos que apareceram no acampamento. No dia seguinte, havia mais de 300 pessoas implorando por comida.”

A convivência com os italianos era bem diferente do período em que os nazistas ocuparam a nação, que foi aliada da Alemanha na Segunda Guerra. “As pessoas contavam que os alemães invadiam as casas, levavam a comida e estupravam as mulheres.” 

Os horrores do conflito eram tão latentes que, ao se ver sozinho com uma jovem de outro vilarejo por onde a FEB passou, Garofalo teve de explicar à adolescente em prantos que não lhe faria mal. “Ela me abraçou, agradeceu e choramos juntos.”

Em Camaiore, bombardeios noturnos deixavam pouco tempo para descanso. “Em uma manhã, acordei e abri a janela da casa onde estávamos escondidos. A bomba, do tamanho de uma criança de uns dez anos, estava lá, não tinha explodido. Se tivesse, não estaria aqui para contar essa história.”

RETORNO

Ao narrar o reencontro com a mãe, após ser enviado de volta ao Brasil antes do fim do conflito por causa dos ferimentos, mais uma vez as lágrimas enchem os olhos de Garofalo. “Ela achava que eu tinha ficado cego e aleijado. Mas lá estava, inteiro.”

Ainda no hospital, no Rio de Janeiro, Garofalo lembra do encontro com o então presidente Getúlio Vargas. “Ele agradeceu por eu ter derramado o sangue pela pátria.” 

A narrativa de Garofalo é tão rica de detalhes que leva quase uma hora, mas não se percebe que o tempo passou. “Tenho orgulho do que vivi. Se não fosse o Exército, não seria o homem que sou hoje.” 

Desfile marca Jubileu de Ouro da Associoação dos Ex-Combatentes

Fundada em 6 de outubro de 1963 com objetivo de auxiliar os brasileiros que aqui ou na Itália serviram à pátria durante a Segunda Guerra Mundial, a Associação dos Ex-Combatentes do ABCDMRR completou 50 anos com desfile cívico ontem pela manhã. Atualmente, conta com 70 associados, entre viúvas e ex-combatentes, sendo que em torno de dez participaram efetivamente da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Nos anos 1970, a associação chegou a reunir 563 pessoas.

O desfile, que foi realizado na Avenida Dom Jorge Marcos de Oliveira, 100, na Vila Guiomar, em Santo André, reuniu jovens dos Tiros de Guerra de Santo André, São Bernardo e São Caetano, além de representantes das guardas-civis municipais, Marinha, Aeronáutica, Polícia Rodoviária, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos).

A associação conta ainda com museu, que abriga diversos itens relacionados à guerra, tais como uniformes, macas, bombas, capacetes, entre outros, e pode ser visitado por escolas e demais interessados. Há também biblioteca com livros, fotografias, mapas e vídeos relacionados ao tema. Para se manter, a entidade conta também com o aluguel de salão que fica na parte de cima da associação. 

O terreno foi doado ao grupo em 21 de janeiro de 1983, pelo então prefeito Antonio Pezzolo. Em 1992, foi efetivado o processo de tombamento histórico do prédio pelo prefeito Celso Daniel.

Graças à luta de associações espalhadas pelo Brasil, os ex-combatentes garantiram, por meio da Lei 8.059/90, o direito a ter uma pensão especial para si e seus dependentes. 

A Segunda Guerra Mundial, maior confronto armado da história, começou em setembro de 1939 e colocou em combate os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) contra os Aliados, cerca de 50 nações, inclusive Inglaterra, União Soviética, Estados Unidos, França e Brasil, que entrou na guerra em 1942. Em 8 de maio de 1945, a Alemanha foi derrotada, marcando o Dia da Vitória na Europa. O Japão seria vencido em agosto do mesmo ano, terminando a guerra. A Itália já havia saído do conflito em 1943. 

No Brasil também se lutou a guerra

Apesar de não ter saído do Brasil, os pensionistas Décio Molan, 92 anos, e Francisco Assis Pereira da Silva, 90, também vivenciaram a Segunda Guerra Mundial no Exército brasileiro. Aqui não havia combates, mas a retaguarda para a FEB (Força Expedicionária Brasileira) era essencial para o sucesso da missão do Brasil.

Molan era rádio-telegrafista e lembra bem das mensagens que recebia nos dois anos em que serviu no Nordeste do País. “Cada vitória e cada conquista dos Aliados, para nós, significava esperança de que a guerra estivesse perto do fim.”

Mesmo assim, a mensagem que mais se esperava vinha dentro dos envelopes enviados pelas famílias dos pracinhas. “Sentia muita falta e a única coisa que desejava era que a guerra acabasse logo para poder voltar para casa, para junto dos meus.”

Já Silva chegou a ser convocado para embarcar para a Itália. Foi ao Rio de Janeiro, de onde saiam os navios ingleses que levavam os pracinhas brasileiros para a Itália. A três dias da data do embarque, a guerra acabou. 

Cerca de 500 pessoas iriam para a Itália naquele mês de maio, e muitos eram casados e estavam com a família no Rio, segundo Silva. “Foram outros três dias de festa. Pelas ruas, o povo comemorava, uma alegria só.”

Ao retornar para casa, Silva trabalhou por 26 anos na Prefeitura de São Paulo. Foi varredor de rua, motorista, fiscal, até ser beneficiado com a pensão especial para os ex-combatentes. “Apesar de não ter ido para a guerra, fui preparado para isso. Fiz exames e treinamentos. Deixei a vida para trás. Nada mais justo que ter esse reconhecimento para mim e para minha família no futuro.”

HISTÓRICO

Dos 25.445 brasileiros que foram à Itália, 451 morreram em combate e outros 2.772 ficaram feridos. Outros 35 foram feitos prisioneiros e 16 desapareceram. A campanha do Brasil na Segunda Guerra Mundial é considerada vitoriosa, pois a FEB completou todas as missões que lhe foram confiadas como reforço às tropas aliadas no país. 



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