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A lei que não se revoga


Creso Peixoto

02/12/2017 | 07:00


Pontes ou viadutos? Ponte, palavra de origem latina, interliga lados de rio ou canal. Sobre a Marginal do Tietê? Ponte. Viaduto, palavra de origem inglesa, viaduct, para transpor depressão do terreno. Quem olha a ambos, não vê diferença. Apenas nomenclatura. São denominadas obras de arte especiais: exigem projeto específico e acarretam alto custo em único local.

Pontes e viadutos oferecem imponentes espaços visuais por causa de seu porte. Nomes nestas estruturas garantem memória e informação daqueles que cumpriram papéis de destaque na sociedade. O Viaduto Padre Fiorente Elena mantém a memória de carisma e fé por 48 anos dados ao Grande ABC, além de garantir continuidade da Avenida Rotary para a Demarchi, sobre a Via Anchieta.

Viadutos custam milhões de reais. Justifica-se tanto dinheiro? Em janeiro passado, foi entregue um destes entre Natal e Parnamirim, no Rio Grande do Norte, a custo de R$ 7 milhões e oferta de passagem para 90 mil veículos por dia. Valeu a pena o investimento? Supondo-se economia de apenas R$ 0,01 em tempo e combustível para cada veículo, por não ter de ficar parado em semáforo, e que o viaduto dure 50 anos, evitaria gasto global de R$ 16 milhões, mais que o dobro do custo. Estudos rigorosos exigem considerar custo calculado, o crescimento do tráfego, que dá mais benefício, e o custo da manutenção da estrutura e do pavimento, que reduzem a vantagem. Mesmo assim, neste estudo simplificado, pode-se dizer que a obra é viável, com retorno financeiro e claro atendimento social.

A casa cai. Estas estruturas exigem constante fiscalização e manutenção. Parecem adolescentes: grandes, mas ainda com possível comportamento de criança. Tem de olhar sempre... Erraram? Diálogo fraterno e incisivo. Ato disciplinar, se necessário. Os ferros da ponte estão aparecendo? Correção urgente. Parecem dizer que estão doentes. Placas de concreto estão aparentemente soltando? Imediato fechamento ao tráfego e intervenção. Há casos em que a estrutura parece estar gritando que vai cair. Engenheiros de transportes dizem que pavimento não preocupa tanto quanto pontes e viadutos, porque já nascem caídos... Estas estruturas gigantescas podem sim cair, parcial ou totalmente. E não há fase de sua vida útil que se possa dizer que não corra risco. Podem cair quando em construção ou em operação, bastando para isto erros de projeto, métodos construtivos falhos, falta de fiscalização e de manutenção e até de colisões de grandes veículos.

Linha do tempo. Nas últimas décadas, viadutos e estruturas ilustram tragédias urbanas inomináveis. Belo Horizonte, 4 de fevereiro de 1971. Dez mil toneladas de concreto e aço matam 65 trabalhadores e ferem outros 50, na queda da Estrutura da Gameleira, pavilhão público em construção. Apenas em 2014 as famílias são indenizadas, ano da queda de um viaduto em construção, que deixa dez mortos.

Na São Paulo dos anos 1970 incêndios marcam grandes estruturas. Andraus, 1972. Joelma, 1974. Grande Avenida, 1981. O que desaba são as 222 famílias de seus mortos. A placa que desprega de viaduto paulistano em 19 de novembro de 2017 impede uma juíza de poder intervir em quaisquer indenizações para culpados. Ela está morta.

No Rio de Janeiro, um estrondo e nuvem de pó quebram o dia a dia carioca. Desaba parte do Viaduto Paulo de Frontin em 20 de novembro de 1971. Vinte e nove pessoas nunca mais chegariam ao Estácio. Sursis garantiu liberdade ao engenheiro, condenado por erro durante a construção. 

Quarenta e cinco anos se passam. Uma forte onda derruba parte da Ciclovia Tim Maia. Duas famílias aguardam para sempre seus queridos. Usuários e moradores aguardam justiça e querem garantia nas estruturas urbanas. Há considerável quantidade de pesquisa e métodos para prever ondas. Tim parecia brincar, mais uma vez, com suas extrovertidas respostas.

A lei que sempre é cumprida? A da gravidade.



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