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Cotidiano nebuloso


Rodolfo de Souza

12/10/2017 | 07:00


 Tenho lido crônicas ultimamente. Aliás, desde que iniciei essa minha inebriante atividade de leitor, acho que me apeguei de verdade ao seu jeito, à sua cara. Desconfio até que se pareça um pouco comigo. E tempo considerável se passou desde que nos conhecemos, eu e ela. Foram décadas percorrendo as estradas que as suas palavras abriram.
Crônica é, por assim dizer, o retrato do cotidiano da vida das pessoas e das cidades, o que faz dela muito rica e sempre recheada dos dissabores e das alegrias, oriundos das mentes que fazem desta existência o que ela é. Às vezes cômica, por vezes trágica, mística, enigmática talvez... Trata-se, afinal, de um mundo todo ele moldado pelo caminhar do ser humano que, por séculos, vem deixando suas pegadas por esta vasta e arredondada planície. A mesma que nasceu com uma cara bonita e, com o tempo, acabou por adquirir outra, sutilmente menos bela, e que vem se tornando ainda mais nebulosa a cada dia, a despeito do charme que ainda conserva. Razão de sobra para que eu insista nesse ofício.
Os cronistas de antigamente costumavam viajar pela poesia extraída com muito zelo e cuidado do dia a dia das pessoas, das cidades com seus bondes, bares, marquises, enfim. Como hoje, todo movimento, natural aos olhos de qualquer um, poderia, nas habilidosas mãos do escritor, se transformar num magnífico texto, cuja magia atravessava gerações.
Hoje o olhar atento do cronista continua a espreitar os acontecimentos merecedores de algumas palavras carinhosamente deitadas no branco do papel. Esforça-se, inclusive, para não deixar sem sabor o seu texto. Até porque, aquela pitada de poesia que vaga pela mente artista não pode faltar quando se pretende tocar o coração leitor.
E o cotidiano moderno, assim como se viu no passado, tem oferecido ao escritor farta gama de inspiração, embora esta, nos dias de hoje, tenha origem, quase sempre, nos percalços que já se tornaram corriqueiros. Nunca se viu, por exemplo, um Brasil assim, entregue ao desânimo que aos poucos tenta minar a poesia que vai no peito do cronista e que, com certeza, sempre carrega de brilho as suas palavras. Todos sabem que bandido sempre deu as cartas aqui, debaixo desta imensa lona verde-amarela. Só não se conhecia a dimensão da coisa. Imaginava-se um bicho pouco menor, e que este povo estava sujeito somente aos batedores de carteiras das ruas movimentadas. Santa ingenuidade!
Não bastasse tudo isso, o terror de além-mar enche as páginas dos jornais com uma frequência vertiginosa, e o ser humano ainda vive assustado com receio de que o dedo nervoso possa não se conter de tanta ansiedade e acionar o famigerado botão que tanto medo colocou nos corações humanos de décadas passadas.
Vê, amigo, como fica difícil tocar esse ofício de escritor de crônicas, que às vezes faz do senso de humor sua bandeira, só para conservar o espírito brasileiro que costuma fazer troça de tudo?
Mas é preciso manter a linha, a despeito da loucura que do alto ceifou as vidas de gente que assistia a um espetáculo musical lá em terras do Norte, notícia que me chegou carregada de assombro e me deixou sem palavras, sobretudo, bem-humoradas.



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