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Che: 50 anos de morte e a crise na esquerda

Há cinco décadas era fuzilado, na Bolívia, o guerrilheiro que liderou a revolução cubana, mas políticos intitulados socialistas na América Latina vivem em declínio de credibilidade


Raphael Rocha
do Diário do Grande ABC

09/10/2017 | 07:07


Há 50 anos, o guerrilheiro Ernesto Che Guevara era executado pelo tenente boliviano Mario Terán Salazar, um dia depois de ser capturado pelo exército local na Quebrada del Churro. Passadas as cinco décadas de morte, o mito sobre o argentino nascido em Rosário permanece, mas ao lado dele uma crise que parece sem precedentes na esquerda em toda a América Latina.

Che optou pela luta armada em diversos países latino-americanos, modelo esse questionado até hoje – agentes da CIA (serviço de inteligência dos Estados Unidos) dizem que, antes de ser fuzilado, Che confessara ter matado 2.000 pessoas. Sua batalha mais conhecida foi travada ao lado de Fidel Castro, um advogado de ideais comunistas. Juntos, capitanearam a revolução cubana que resultou na queda de Fulgencio Batista, no fim dos anos 1959. Com ascensão de Fidel ao poder, virou ministro da Indústria e presidente do Banco Nacional de Cuba. Colocou em prática o modelo educacional até hoje venerado.

Depois de sua morte, em 9 de outubro de 1967, se tornou inspiração para diversos grupos (guerrilheiros ou não) de combate às ditaduras militares na América Latina nos anos 1960, 1970 e 1980 – neste período, Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile, Peru e, claro, o Brasil (entre 1964 e 1985) viveram sob regime militar.

O ideal socialista – que tinha em Cuba sua meta – levou ao poder diversos líderes de esquerda nesses países nos anos 1990 e 2000, como Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia), Nestor e Cristina Kirchner (Argentina), José Pepe Mujica (Uruguai), Fernando Lugo (Paraguai) e Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil).

Porém, esses líderes passaram a ruir à frente dos governos, levando a uma crise no campo da esquerda, até mesmo de credibilidade, e trazendo à tona os defensores dos regimes militares. Declínio esse explicado pelos diversos casos de corrupção, por problemas econômicos (como o enfrentado na Venezuela desde o fim do período de Hugo Chávez até o mandato de Nicolás Maduro) e até mesmo destituição de presidentes – Lugo e Dilma Rousseff (PT), sucessora de Lula, passaram por processo de impeachment.

Para a professora Claudete Pagotto, coordenadora de Ciências Sociais da Universidade Metodista de São Paulo, esses governos de esquerda na América Latina que ruíram com o tempo deixaram de assumir o que era pregado pelo socialismo, algo que Che defendeu enquanto guerrilheiro e, posteriormente, ministro no governo cubano.

“Na verdade eles foram alternativa ao neoliberalismo. Mas não procuraram estruturas políticas e econômicas que rompessem com o neoliberalismo vigente. Fizeram concessões em diversas situações. Cuba é socialista. O que fizeram lá foi uma revolução. Destituíram, através das forças armadas, um governo ditador. É diferente do que aconteceu em qualquer outro país, via democrática do sistema capitalista”, analisa Claudete. “Esses governos progressistas e mais à esquerda do que à direita na América Latina não têm viés guevarista. Têm viés progressista, que assimila os movimentos do capitalismo buscando viés mais social.”

A boliviana Loyola Guzmán Lara conviveu com Che Guevara em sua luta na Bolívia, participando de reuniões nas quais o líder guerrilheiro detalhava como pretendia lutar no país e até mesmo falava de planos de batalhas no Peru e na Argentina, sua terra natal. “Ele nos disse da sua posição sobre o papel dos países socialistas e as lutas de libertação no mundo. Eu estava muito confiante de que esta era a maneira de libertar nossos países, mas estava ciente de que a luta iria durar muitos anos e seria dura e difícil”, comenta Loyola, ao Diário, por e-mail.

Ao analisar a queda dos governos de esquerda na América Latina, Loyola discute o papel de Evo Morales, presidente da Bolívia desde 2006, e eleito destacando discurso de representação dos camponeses bolivianos. Crítica da administração de Evo, ela afirma que o político “não fez uma revolução cultural democrática e apresenta imagem diferente no Exterior”.

“Nas reuniões internacionais da ONU (Organização das Nações Unidas) ou da OEA (Organização dos Estados Americanos), ele (Evo) diz ser indígena e que os direitos da mãe terra devem ser respeitados, mas insiste em construir uma estrada através do centro do Território Indígena e do Parque Nacional Isiboro Sécure, que destruirá uma região amazônica e três povos indígenas das terras baixas. Permitiu a repressão de homens, mulheres e crianças na área de Chaparina, em setembro de 2011, quando realizavam a oitava marcha indígena que dizia ‘não’ à estrada. Existem muitas medidas contraditórias. Eu vejo Evo Morales incoerente. Diz que governa obedecendo o povo, mas faz exatamente o contrário. Não leva em consideração a opinião das pessoas.”

Loyola é enfática ao dizer que o legado de Che Guevara permanece, a despeito da crise de identidade de líderes de esquerda da atualidade. “Continua o legado de solidariedade e sacrifício. Acho que ele era um homem de grande coerência entre seu pensamento, sua palavra e sua ação.”

Cido Faria é economista e coordenador do Centro de Memória do Grande ABC, além de autor de livros a respeito dos conflitos na América Latina no século 20. Ele reconhece que Che Guevara continua sendo inspiração cinco décadas após sua morte. “Foi exemplo de vida, despojado de bens materiais, profundamente humano e ético, um símbolo de rebeldia, um mártir. Ele morreu com valentia e continua encantando não só os jovens de hoje, como a geração que resistiu às ditaduras na América Latina. Che ainda vive em corações e mentes. A direita não tem ídolos para mostrar. Não tem heróis.”

Faria também admite a saturação das gestões ditas de esquerda. “Esse tipo de governo de esquerda na América Latina está esgotado. Foram governos de conciliação com as elites nacionais, onde os grandes parceiros da esquerda (banqueiros, multinacionais, grande mídia, latifundiários, rentista, etc) não perderam nada. As ações estratégicas das esquerdas na América Latina precisam mudar. Mas como?”, questiona, ainda sem resposta à essa indagação.

“O Che é a referência, enquanto liderança de uma sociedade para além do capital. Vai ficar na história por muito tempo. Não dá para passar pelo século 20 sem passar por Cuba e essencialmente pela figura utópica radical dele”, finaliza Claudete Pagotto, da Universidade Metodista. 


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