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Rueiros, ruaceiros e arruaceiros


Creso Peixoto

07/10/2017 | 07:00


 Abro a porta de casa. Domingo de Sol forte. Olhos quase fechados ao me abaixar para pegar o jornal sobre a grama.
– Água mesmo só da mangueira! Murmuro, enquanto um vento suave empurra folhas na rua, quebrando o silêncio da dominical manhã interiorana.
Busco a sombra de uma folha de palmeira. Um vulto de canto de olho quebra o aparente equilíbrio. Alguém parado na esquina, segurando-se na grade de uma casa.
– Dona Ana Guarnieri! Murmuro novamente. O corpo franzino contrasta com seu poder redacional de temas religiosos em jornais locais. Não se deixa abater pelas restrições físicas. Sai às ruas e anda, contrabalanceando estudo, trabalho e devoção. Cuida do corpo ao caminhar pelo bairro, mesmo com a teimosia dele em dizer que não deveria.
Eu também alterno serviço com caminhadas, devidamente acompanhado de minha mulher, companheira de vida e serviço. Usamos da rua para relaxar e conversar. Claro, um olho sempre disponível em riscos que eram praticamente desconhecidos em nossas infâncias: ameaçadores veículos mesmo em faixas de pedestres e pessoas que não deveriam estar fora de grades.
Praticamos exercícios aeróbios. Andar pelo menos 20 a 40 minutos, sem parar, impondo ritmo que faz com que todo o organismo reaja. Não basta apenas cortar os alimentos errados. Ana, eu e a patroa somos rueiros.
Andar gera economia? Quando andamos de carro, consumimos 20 vezes mais energia do que quando a pé. O combustível? A gordura da cintura. Quando se gasta, gera ainda felicidade...
Fazem parte do cenário urbano pessoas deitadas nas ruas ou simplesmente andando sem rumo. Vivem sem precisar de endereço com CEP. Para sobreviver, vendem coisas nos semáforos, oferecem brinquedinhos para pedestres, envoltos em chamativas bolhas de sabão. Haja chocolate aerado ou amendoim em curiosos baldes com brasa, garantindo algo quente nos congestionamentos de inverno. São ruaceiros, os que vivem nas ruas, apesar de alguns dicionários considerarem sinônimo de rueiros. Nos Estados Unidos há os panhandlers, seguradores de panela, em tradução direta. Vivem nas ruas pedindo dinheiro e comida, porque não querem se enquadrar ao padrão de comportamento obrigatório para viver em abrigos do governo. Como uma parte destes é agressiva na forma de pedir, há pessoas que os veem com forte opinião negativa. No Brasil, alguns que empunham rodinho e bisnaga em semáforos também tendem a ser malvistos. Como vão direto aos para-brisas sem perguntar se podem limpar, parecem dizer que o motorista está obrigado a pagar. Mas estes também são ruaceiros.
Voltando às ruas de nossas grandes cidades, outro tipo de comportamento gera conceito bem distinto sobre os que usam ruas. Quarteirões à frente de um campo de futebol, grupo vestindo camisetas de mesma cor empurra outro grupo com camisetas também iguais, mas de outra cor. Não são torcedores. Em outro momento e noutro canto da cidade, rapazes agridem travestis, simplesmente porque não concordam com o diferente. Não suportam a liberdade, não querem respeitar. São arruaceiros, palavra que vem de arruaça, reunião de gente armada para promover desordem.
Termino de molhar o jardim. Jogo água rápido no carro que está no abrigo, afinal, estamos em período de estiagem. Fico na dúvida se minha pressa é mesmo porque quero evitar o desperdício ou porque possa gerar opinião negativa dos quem me vêem. Afinal, da rua criam-se conceitos sobre pessoas, surgem movimentos que influenciam em qualquer tema que possa até mudar uma nação. São espaços livres e assim precisam permanecer.
Na calçada em que estava Ana Guarnieri não há mais ninguém. Ela já deve estar em sua casa, talvez escrevendo. A cidade ainda descansa da semana de trabalho. Os portões eletrônicos ainda não se abriram para encher as vias públicas de carros, com calçadas cada vez mais vazias de gente.



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