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Cotidiano

Publicado em quinta-feira, 27 de abril de 2017 às 07:00 Histórico

Lei do cão

Arlindo é homem velho e morador de rua. Razões de sobra ele tem para endurecer e engolir toda a humilhação que este mundo caprichosamente lhe tem reservado, desde que nascera. Talvez por esta razão tenha se acostumado ao desprezo que caleja.

Perambula por aí e já nem repara nas ruas, nas casas e nas pessoas ao redor. De fato não se importa. Tudo o que lhe basta é caminhar e ter a atenção toda ela voltada para os objetos descartados que, de alguma forma, lhe são úteis. Tesouros soltos ou escondidos em sacos de lixo, é o que são. Não povoam em seu mundo os valores, para os quais, grande parte da população dedica a vida. Segue simplesmente sua jornada que não sabe ao certo qual é, sem dar ouvidos a quem quer que, por ventura, lhe dirija a palavra. Gente que não merece a sua atenção. Pessoas que, pela evidente falta de afinidade, passam despercebidas por ele. E justamente por isso, não se deu conta do grupo de rapazes desocupados que, como todo vagabundo de carteirinha, adora se ocupar com assuntos que não lhe diz respeito.

E Arlindo, homem rude andando pela noite, era prato cheio para um embate que os tirasse da monotonia, principalmente quando este cismou de estacionar seu surrado carrinho de supermercado, cheio de quinquilharias, junto ao meio fio da praça, com a intenção de vasculhar o lixo que ali se amontoava em sacos. Ansiava encontrar objeto qualquer que pudesse transformar num trocado e com isso tocar em frente o seu instinto de sobrevivência.

Mas ali, naquela hora em que o movimento começava a diminuir, Arlindo era observado. Notou a conversa bruscamente interrompida e sentiu pesar-lhe nos ombros os olhares que lhe causavam certo desconforto. Estranhou o fato de perceber as pessoas, já que não era dado a isso. É possível até que pressentisse o perigo, embora duvidasse que algum bandido se dispusesse a assaltar um mendigo.

Inadvertidamente, então, se pôs a procurar e a sua mente, habituada ao convívio com a sujeira, não ponderou acerca da necessidade de conservar limpo o local. Jogava para lá e para cá objetos que não eram de seu interesse, chamando a atenção do grupo que aguardava ansioso a oportunidade para interferir em favor da limpeza pública. Nem passou pela cabeça daquele que para se conservar limpo o local, seria preciso também removê-lo dali. É porque a consciência deformada dos tais nãos lhes concedia um grama sequer de bom-senso, de sensibilidade; que sua inteligência minguada parte sempre para a covardia quando algo destoa do cotidiano comum ou que seja passível de promover uma diversão.

Os rapazes passaram, então, a implicar com Arlindo pela desordem e a exigir que este recolhesse a sujeira espalhada. Logicamente que o pouco entendimento de Arlindo também não lhe permite enxergar com clareza os fatos da vida, suas regras, conduta refinada e coisa e tal, motivo mais do que suficiente para que resmungasse qualquer coisa desagradável e desse as costas para o grupo, concedendo a este o deleite que ansiavam. E assim, para punir o infrator, os homens pegaram o seu carrinho e o viraram de cabeça para baixo esparramando pelo asfalto noturno todo o seu tesouro. O velho limitou-se a olhar incrédulo e impotente. Tudo o que lhe restava era desvirar seu instrumento de trabalho, apanhar e ajeitar tudo novamente, apesar de lhe faltar coragem para a empreitada - como denunciava seu olhar.

Quem narrou esta história presenciou-a cheia de revolta, sobretudo, por não poder vingar Arlindo, cujo nome descobrira por meio da placa na lateral do carrinho. Nome que ficou de cabeça para baixo, tal qual era a vida do homem.

Rodolfo de Souza nasceu e mora em Santo André. É professor e autor do blog cafeecronicas.wordpress.com
E-mail para esta coluna: souza.rodolfo@hotmail.com. 



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