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Esportes

Publicado em segunda-feira, 20 de março de 2017 às 07:37 Histórico

As lições de Lais Souza

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

O ser humano só tem ideia da sua fragilidade quando se depara com situações como a da ex-ginasta da Seleção Brasileira Lais Souza. Um passeio de esqui, um erro de cálculo, uma fatalidade. Em questão de segundos, a menina que encantava o Brasil com suas piruetas improváveis não podia mais andar, falar ou sentir. Ficou quatro meses em cama de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), resistindo a um diagnóstico cruel, que, na melhor hipótese, indicava a necessidade de ficar ligada a aparelhos para poder respirar. Da mesma forma que desafiava a lógica ao dar cambalhotas no ar, contrariou tudo e a todos, sobreviveu, fala, come e respira, mas ainda luta diariamente para fazer coisas simples do cotidiano da maioria das pessoas: ficar em pé ou usar o celular.

A culpa pelo acidente de Lais recai sobre a intensidade com que ela decidiu viver. Entrou para a ginástica artística aos 4 anos e não saiu mais. Foram 19 anos de rotina absolutamente desgastante, com oito horas diárias de treinos em esporte que não permite erros. Se a mente estava sã, o corpo dava sinais de fragilidade, com oito lesões nos joelhos. Mas ficar parada não se encaixava no plano de vida proposto por essa ribeirão-pretense de 28 anos que entrou no esporte para gastar a energia.

Depois de relutar e medir os riscos, Lais aceitou o desafio de integrar a equipe brasileira que iria aos Jogos Olímpicos de Inverno, em Socchi, na Rússia, em 2014. Pela facilidade de realizar acrobacias, se aventurou no esqui aéreo, que consiste em descer rampa em alta velocidade e fazer um salto. O risco de queda existia, ainda mais para uma interiorana que só conhecia neve pela televisão.

Foi justamente em atividade para desestressar que aconteceu o acidente. Era 28 de janeiro de 2014, a ex-ginasta estava esquiando em Salt Lake City, nos Estados Unidos, quando perdeu o controle e se chocou a uma árvore. Sofreu trauma grave na coluna cervical, que pressionou a medula e a tornou tetraplégica. Acidente bem similar ao do heptacampeão da Fórmula 1, Michael Schumacher, que o mantém em coma desde o fim de 2013.

De lá para cá, Lais tem superado os desafios dia a dia. Muitos já ficaram para trás, como respirar sozinha, comer e falar. Mas ela quer mais. No início do mês teve grande avanço. “Fiquei em pé com ajuda de extensor. Venho melhorando dia a dia, estou melhor, talvez mais forte, só um pouquinho de movimento, mas esse pouquinho é muito para mim. A única coisa que acontece de ruim é a minha pressa, que é grande. Sou ansiosa”, revelou Lais, em entrevista ao Diário, durante passagem por Santo André.

A ex-ginasta assumiu que não foi e nem está sendo fácil. Se antes os aplausos da torcida eram o combustível para saltar mais alto, hoje os abraços e beijos que recebe por onde passa funcionam da mesma maneira. Ela arrastou dezenas de fãs ao Grand Plaza Shopping durante sessão de fotos. “Eu me sinto acarinhada. As crianças, o público em geral, me tratam bem”, disse ela, que virou referência para muitos tetraplégicos que sonham se recompor. “Nunca imaginei virar referência. Isso é bacana.”

A persistência é a marca de Lais. Provavelmente reflexo da época de atleta, ela não perde um dia de fisioterapia. “Enquanto não estiver movimentando 100%, não ficarei tranquila. É bem parecido com trabalho, com o esporte. Às vezes, a gente acorda meio desmotivada, mas de pensar de estar perdendo um dia...Melhor pensar que mais um dia (de tratamento) é menos um dia de recuperação”, ensinou ela, que planeja cursar psicologia no segundo semestre.

Já que virou exemplo, Lais tenta explicar para quem vive situação parecida como fez para superar a revolta inicial ao tomar conhecimento que ficaria tetraplégica. “Só quem está ali na cama, sentindo, sabe o que é. Mas na hora certa, tem de encarar o dia, saber que tem outras coisas lá fora, desde a família, o Sol, a Lua, seja lá o que for, mas tem de tentar mudar e aproveitar. A vida é curta para ficar desperdiçando”, finalizou. 



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