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O pianista


Rodolfo de Souza

09/03/2017 | 07:00


 O pianista encheu de música a noite do sítio. Talvez cause estranheza ao amigo leitor a presença de um piano numa localidade um tanto diferente do que se imagina seja o nicho de um instrumento concebido para grandes orquestras e palcos, que durante uma apresentação é capaz de manter quase sem piscar os olhos da assistência. Seleta plateia que, embevecida, acompanha a destreza do instrumentista que retira do piano notas e mais notas que se espalham pelo ambiente carregado de suntuosidade e poesia musical.

Mas ali no sítio, por incrível que possa parecer ao apreciador de um bom concerto nos municipais do mundo, a música adquiriu um perfil, qualquer coisa mais encantador e ousado, propenso mesmo a transcender para a atmosfera pura da mata e da montanha. E o pianista, completamente envolvido com o seu poema musical não se deu conta de que ficara de lado o glamour, tão peculiar a espetáculos como este em que, num piano de cauda branco, se executa peças populares e outras não tão populares. Peças dotadas do poder de bulir com a alma, sobretudo, da pouca gente que ali se espalhou para assistir à apresentação e empreender viagem que a saudade se esmerou em criar, aproveitando-se, tinhosa que é, da fragilidade dos corações que, todos sabem, foram criados para isso. Para que serve, afinal, um coração senão para se desmanchar em instantes de tamanha beleza como este?

E foi assim que, repleto da descontração do momento, o artista tratou de espalhar suas notas que ressoaram pela noite e deixaram enciumada a natureza farta daquele lugar. A mesma que pensou que a música vinha da casa só para calar a sua voz noturna.

Qual o quê! De início até que sentiu o despeito invadir-lhe o cerne verde e molhado do orvalho daninho. Mas depois, meio contrafeita ainda, concluiu a turrona que tão rara beleza só poderia ter vindo para complementar a musicalidade que ela, há milênios, promove mundo afora. E foi então que resolveu conter a frustração e apreciá-la, quem sabe, para colher dela notas que jamais pensara existir.

E as pessoas que acompanhavam o pianista ficaram sem entender muito bem esta relação tão particular, tão íntima, dele com a música. Música que retira, com muita sutileza, das teclas do seu instrumento de produzir arte e encher de poesia a noite de quem o acompanha, carregado de nostalgia.

E vários foram os pedidos que o pianista prontamente executou para o deleite de todos. Gente incansável que, se possível fosse, vararia a noite assim, carregada de emoção. Alguns talvez endurecidos pela dor que lhes esconde singularidades como esta que, volta e meia, surgem só para lembrar que também é parte desta vida de incertezas e desafetos.

A limpeza da alma que se experimentou naquela noite serviu de fato para mostrar que nem tudo é angústia e que a arte está aí para tornar mais bela a existência e, oxalá, recarregar de coragem o âmago que, às vezes, parece querer sucumbir ao desespero.

A plateia da casa do sítio não poderia, pois, deixar de sentir-se privilegiada pela magia daquele momento fugaz, mas intenso, que despertou as pessoas para a beleza do mundo, beleza escancarada bem diante dos olhos, normalmente cegos para ela.

 


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