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Cotidiano

Publicado em quarta-feira, 1 de março de 2017 às 22:53 Histórico

É Cinzas, e agora?

 De momentos felizes é que se vive de verdade aqui neste mundo. Por isso, é preciso persegui-los e aproveitá-los. Bobagem insistir no contrário. As regras do Carnaval, por exemplo, foram criadas para isso, para que se busque a felicidade a qualquer preço. E não se pode prescindir desta que é a maior festa popular desta Pátria, cujo povo é capaz de esquecer todos os males que assolam sua vida cheia de percalços, em prol da alegria. Folia, música, cerveja e esquecimento dão, pois, o tom das comemorações que duram quatro dias, uma vez por ano.

E tudo de fato fica esquecido nesta época. É como se os demais acontecimentos deixassem de acontecer em razão do Carnaval. E a impressão é justamente essa quando se assiste aos noticiários que passam a se ocupar somente com a cobertura da festa que, somada às matérias futebolísticas, jamais deixadas de lado, criam uma atmosfera de bem-estar, na qual é proibido pensar nos males econômicos, políticos e sociais desta imensa e festeira Pátria Tupinambá.

As brincadeiras de Momo também sugerem que o terror que espalha o medo pelo mundo se aquieta nesta época só para ver requebrar a passista na avenida. Insiste ainda que a fome e a injustiça social na África cessam de existir para dar passagem aos blocos e às escolas de samba. Até o grande urso branco, lá do império do Norte, deixa de lado suas ideias torpes, porque o Carnaval assim o exige. O cessar-fogo, nunca respeitado nas guerras de lá, no Carnaval faz-se cumprir e os bombardeios calam nas noites das cidades de escombros. Refugiados param de refugiar-se, já que não há do que correr, porque o País do Carnaval está em festa. Ninguém mais é preso roubando e economiza-se muito dinheiro com a propina que deixa de ser paga nesses dias. Tampouco é ouvido o clamor dos que sofrem de verdade. Talvez porque deixem de sofrer nos quatro dias de desfiles de belas e brilhantes fantasias e de rostos que esbanjam felicidade.

Mas agora que tudo se acabou, a vida deve voltar à sua angustiante normalidade. Todos os problemas, até então proibidos de existirem, ganham novamente o direito à chateação. Provavelmente fortalecidos pelo descanso merecido. E a maior parte da população, indiferente aos resultados das competições carnavalescas, devagar volta a seguir seu rumo no cotidiano de trens lotados, violência, impostos aviltantes, gestão precária da coisa pública, corrupção desenfreada e um sem-fim de situações que faz lembrar com saudades dos quatro dias em que tudo isso adormece para dar lugar à alegria.

Apesar de que, nem tudo é tristeza nessa vida pós-Carnaval. Fica o futebol, a festa que ano inteiro faz a alegria da gente que deita e rola na cerveja de fim de semana só para esquecer que seu país de sonhos ainda não foi construído, que a sua realidade é bem mais dura, dureza que, paradoxo da vida, presta inestimável serviço ao impedir que se sonhe muito alto, já que a pobreza é assim, alicia a população, convencendo-a de que passar toda a existência comendo arroz, feijão e ovo frito, se encharcando e torcendo é o que há de melhor nesta vida em que impera a mediocridade que, determinada, convence de que não é necessário nada mais. Até porque, logo, logo o Carnaval estará de volta e a alegria voltará a reinar.



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