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Publicado em domingo, 17 de abril de 2011 às 07:08

Falta de estrutura emperra atendimento


Maíra Sanches
Do Diário do Grande ABC

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Trata-se de uma cadeia de problemas. A inexistência de local adequado para receber milhares de pessoas diariamente nos setores de emergência dos hospitais públicos do Grande ABC multiplica as dificuldades enfrentadas pelos pacientes. Quem busca por assistência médica em prontos-socorros e depende da realização de exames perde, em média, seis horas para completar todos os procedimentos. Em alguns casos a espera pode atravessar a madrugada, sem distinção de idade ou sexo.

A realidade flagrada pela equipe do Diário em quatro de cinco prontos-socorros do Grande ABC na semana passada está na contramão do que o próprio SUS (Sistema Único de Saúde) preconiza: a política de humanização no atendimento. A exceção está em São Caetano.

O primeiro dia de observação foi no CHM (Centro Hospitalar Municipal) de Santo André, onde a situação passa longe do aceitável. Pacientes que aguardam consultas dividem espaço com acidentados que chegam a toda hora trazidos por ambulâncias. Rapidamente a limitada sala de espera é ocupada por macas que sustentam pacientes com diversos tipos de enfermidades.

O vaivém de enfermeiros e médicos é tão frenético que, na segunda-feira, quando a equipe do Diário passou cerca de oito horas no local, um homem precisou perambular com os dedos sangrando por 15 minutos até conseguir que refizessem o curativo. A acompanhante tentou ajudar o rapaz, que estava com os dois pés enfaixados, demonstrando impaciência. Quando finalmente a dupla conseguiu a atenção, ele soube que precisava ser engessado.

Por volta de meio-dia, três macas foram alocadas nas laterais livres da sala. Um dos médicos saiu do consultório, que dividia com um ortopedista, para atender uma senhora que chamava a atenção por gemer de dor nas costas. Ela aguardava por exame. "Dói?", perguntou o médico, repetidas vezes, enquanto tocava em partes do corpo da paciente. Ele logo saiu e a idosa continuou no local por pelo menos mais uma hora, sem assistência.

Na tentativa de otimizar o espaço, a Prefeitura informou que a área está incluída nas unidades de Saúde que receberão reparos estruturais neste ano. Já sobre o descuido no trato com os pacientes, informou que irá abrir sindicância para apurar os casos, alegando que não se trata de um protocolo de atendimento do CHM.

 

SÃO BERNARDO

A lentidão no atendimento é praticamente opinião unânime entre usuários do PS Central de São Bernardo. Apesar da queda no movimento registrada desde as inaugurações das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), as 1.500 pessoas que ainda circulam diariamente no local são reféns da falta de agilidade no processo, que inclui consulta, medicação e realização de exames.

No entanto, pelo menos uma cena comum nos hospitais não é realidade do PS Central: as macas improvisadas nos corredores. Por lá, a carência estrutural do prédio, mal planejado e antigo, é o principal entrave para a melhoria do serviço prestado.

De acordo com a Prefeitura, a última reforma foi realizada em 2004. A administração admitiu que o prédio, erguido em 1979, não dispõe de espaço suficiente para atender a atual demanda, mas esclareceu que as equipes médicas recebem treinamento contínuo de capacitação.

A expectativa é que o Hospital de Urgências, previsto para 2012, resolva as deficiências estruturais, otimize o serviço e solucione o deficit de leitos.

 

PS de São Caetano é exceção à regra

 

Se comparado aos hospitais particulares, o Hospital Municipal de Emergências Albert Sabin, em São Caetano, nada deixa a desejar, na opinião dos usuários. Com áreas bem distribuídas e amplas salas de espera, o paciente que recorrer ao hospital não precisa dispor de dia inteiro para realizar exames e passar por consultas. Dependendo do caso, a demora não passa de três horas, com consulta, recebimento de medicação e exames.

Logo na entrada, quando questionado sobre a qualidade do serviço prestado no hospital, um idoso avisou: "Você vai começar a perceber a diferença ali", apontando para as mesas das recepcionistas responsáveis pelo cadastramento dos doentes.

Próximo às salas de ortopedia, a dona de casa Sandra de Oliveira, 47 anos, aguardava a irmã sair da sala de medicação. Enquanto isso, ela não economizou elogios ao avaliar o hospital. Moradora da Vila Califórnia, na Zona Leste de São Paulo, ela contou ter preferido tomar ônibus para se consultar em São Caetano. "O tratamento é maravilhoso. A primeira impressão é a que fica. Não me consulto em outro lugar. Vale a pena vir de longe e ser bem atendida. Aqui é diferente", comentou.

Mas no universo do SUS nada pode ser idealizado como perfeito. Apesar da satisfação da maioria dos pacientes, a operadora de telemarketing Bruna Prado, 20, relatou o descuido de enfermeiras na sala de medicação. Segundo ela, a equipe era dispersa e não amparava os pacientes de forma devida. "Ficam todas conversando no canto e rindo. Erraram minha veia e meu braço inchou. Aconteceu o mesmo com uma senhora ao meu lado. Foi horrível."

A Prefeitura informou que já havia instaurado sindicância para averiguar reclamação semelhante, o que resultou na demissão de duas funcionárias. Além da abertura de nova sindicância para apurar o caso, a Pasta da Saúde afirmou que está reavaliando os convênios de estágio com as enfermeiras.

 

Superlotação atinge Hospital Piraporinha

 

A situação mais preocupante flagrada pela equipe do Diário foi testemunhada nas dependências do HMD (Hospital Municipal de Diadema), conhecido popularmente como Hospital Piraporinha. A falta de estrutura pôde ser notada ainda na fila de espera, que ultrapassava a porta de entrada do PS. Do lado de dentro, cerca de 50 pessoas aguardavam sentadas os chamados vindos da sala de triagem. Apenas em março, 19,3 mil pessoas passaram pelo pronto-socorro, contra 16,3 mil registradas em fevereiro.

Na parte interna, a movimentação era mais visível a partir do corredor que dá acesso à sala de medicação e ao serviço de raio X. Pelo menos 15 macas podiam ser vistas em um espaço reduzido, disputado entre pacientes que aguardavam a primeira avaliação, médicos apressados que falavam ao celular, equipes do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que procuravam espaço para transportar acidentados em macas e enfermeiras que se espremiam para atravessar o caos. Um dos pacientes implorava por silêncio, na falha tentativa de repousar.

Um dos momentos de maior revolta dos pacientes foi quando uma mulher desmaiou em um banheiro. Em seguida, uma enfermeira disparou, sem demonstrar preocupação: "O que eu posso fazer?". Revoltados, os próprios pacientes ajudaram a socorrer a mulher, que foi encaminhada para a medicação. Mais cedo, quem enfatizou o descaso foi a comerciante Cilenis Aparecida Sena, 47, que aguardava a transferência de seu tio, com fratura no fêmur. "A enfermeira me disse: ‘pode esquecer que ele não vai mais andar.' Que sabedoria ela tem para afirmar isso? Nem o ortopedista nos tratou assim. É total falta de respeito com o ser humano." Do outro lado da sala, uma acompanhante exclamou. "Eles acham que fazem mais que o suficiente."

 

PROVIDÊNCIAS

A Prefeitura reconheceu a superlotação do PS do HMD e informou que conseguiu o recurso de R$ 2,9 milhões junto ao governo federal, por meio do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento) para a construção de uma UPA ao lado do prédio do PS, na Avenida Encarnação, que deverá desafogar a demanda atual. As obras terão início no segundo semestre.

 

 

Nardini pleiteia R$ 18 milhões em Brasília

 

A superintendente do Hospital de Clínicas Dr. Radamés Nardini, de Mauá, Vânia Barbosa do Nascimento, esteve quinta-feira com representantes do Ministério da Saúde, em Brasília, em busca de recursos para financiar melhorias estruturais e tecnológicas no PS do hospital, ainda alvo de críticas de boa parte dos usuários. A quantia de R$ 10 milhões seria destinada a modificar a estrutura do prédio, que, assim como em outras regiões, inviabiliza a oferta de um bom atendimento. O valor restante, R$ 8 milhões, poderá ser aplicado na renovação dos equipamentos.

Há três meses a equipe do Diário flagrou situação alarmante no PS. Esta semana, a reportagem voltou ao local e constatou que os problemas do início do ano continuam, ainda que a administração da Fundação ABC tenha amortizado os problemas estruturais com reformas de alas, conforme os próprios usuários reconheceram.

A lentidão no atendimento, que chega a passar de cinco horas, ainda é lembrada como uma das deficiências do setor de emergência. A demora para pegar resultados de exames e também para realizá-los desafia a paciência dos doentes e seus acompanhantes. Na sexta-feira, às 9h30, a fila ganhava o pátio de entrada do PS. Do lado de dentro, cerca de 13 macas alojavam pacientes que esperam por atendimento. Um deles era o marido de Maria Gorete da Silva, que esperava desde quinta-feira à noite a realização de um exame de endoscopia, consumado somente ao meio-dia de sexta-feira.

A direção do hospital alegou que os atendimentos do PS não podem ser paralisados e que os reparos estão sendo realizados de forma gradativa. "Nossa demanda é muito maior do que podemos absorver. Por dia circulam 3.000 pessoas no PS. Não nos agrada a situação de pacientes em corredores, mas jamais poderíamos dispensá-los, mesmo sem ter vagas. Necessitamos de investimento para a recuperação do hospital, que já tem 20 anos", explicou Vânia.

Até o fim do mês, 20 leitos que estão em reforma deverão ser liberados para receber pacientes. Atualmente o hospital opera com 230 leitos de internação. "O caminho está na ampliação do número de leitos da região, e para isso precisamos de investimentos", salientou a superintendente.



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