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Cultura & Lazer

Publicado em sexta-feira, 25 de março de 2011 às 07:01 Histórico

Profissão Mulher

Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Antes de dizer qualquer palavra, a atriz Fernanda Montenegro, 81 anos, foi aclamada pelo público que lotou o Teatro Lauro Gomes, em São Bernardo, na noite de quarta-feira. Bastou aparecer às 21h, com meia hora de atraso, para a plateia deixar as poltronas e aplaudir calorosamente - como geralmente acontece nas salas de teatro, mas ao fim dos espetáculos.

Convidada para refletir sobre a mulher, a atriz lançou mão de alguns questionamentos. "Por que estou aqui? Por que aceito falar em momento de comemoração? É por vaidade? Talvez. Seria pretensão? Pode ser. Há pessoas na plateia que têm uma vida mais interessante que a minha", disse.

Nessa noite, o intuito de Fernanda era desconstruir a fantasia que existe em torno de seu ofício. Queria ser vista mesmo como um ser humano que veio conversar. "Usamos o corpo e a alma para sermos muito. Isso é uma anomalia. A minha profissão não é prioritária". Segundo ela, a disciplina do ator deve ser igual à militar. "Se não levarmos o nosso ofício com respeito, ninguém vai sentir falta de nós. Se não houver padeiro, costureira, professor, enfermeiro, vão fazer falta".

Há 60 anos, vive no palco. Lembrando por onde já passou e do que sobreviveu, chega à conclusão de que hoje se joga para o que der e vier, feito uma sinhá velha. "Tenho de teatro o que tenho de televisão. São 120 anos, além de cinema, rádio e publicidade. Devo ter 150 anos de trabalho. Digo isso não por demagogia. Ser artista não é profissão. É ter excelência no trabalho, seja a profissão qual for".

No encontro, Fernanda também aproveitou para falar sobre a sua vida particular. Fora das luzes, ela é carioca, neta de imigrantes que vieram para o Brasil como trabalhadores rurais. A mãe foi dona de casa e o pai, operário.

"Na minha casa, o fundamental era ser independente através do ofício. Eu me considero uma trabalhadora braçal. Se hoje estou usando grife, é porque tenho de estar aqui em estado de festa, em homenagem às mulheres". Para ela, só existe mês da mulher "porque as coisas não estão resolvidas".

Entre as leituras que fez, havia o preceito "Da Vantagem de Ser Bobo", de Clarice Lispector. "Peço licença a Clarice para dizer "Da Vantagem de Ser Boba", no feminino". Depois, perguntou: "Não é lindinho?!". E emendou: "Clarice tem uma frase que levo como lema: ‘Eu sou mais forte que eu'".

Na sequência, foi a vez das perguntas, que mais tiveram tom de homenagens. Depois de ser elogiada com "você é mais linda pessoalmente", recebeu o desafio de se descrever com uma palavra. Então, disse: "Alegrinha". Essa é a Fernanda, exemplo de ser humano que enfrenta luta constante para se manter viva no ofício. "Esse querer estar aqui precisa ser tão forte a ponto de obrigar vocês a sairem de casa, a não mudarem de canal"

Muito prazer, dona Fernanda 

Dona Fernanda chegou muito elegante. Cabelo penteado para trás, blusa branca com babados discretos, terninho em tons de cinza. Foi recebida por uma plateia bastante comovida, formada por mais de 300 mulheres e 20 e poucos homens. A senhora pequenina, de 81 anos, aceitou modestamente a devoção do público, mas se manteve firme no propósito de mostrar que seu baú de histórias é como o de toda gente. 

Depois de vestir os óculos para ver de perto, começou a falar de si mesma. Da profissão que abraçou por acaso há mais de 60 anos, da dedicação espartana aos palcos, das escolhas e valores cuidados como jardim. Emprestou a nós, ouvintes atentos e boquiabertos, a grandeza de ser ela. Dona Fernanda vê arte brotar em todo ofício, em tudo o que é bem feito, onde há coração.

A cada frase que lia de outras mulheres ilustres, dona Fernanda transformava o corriqueiro em algo valioso. Entregava doses generosas de reflexão e respostas que presenteavam com alívio e esperança. "Que espaço o passado reserva para a minha liberdade hoje?", questionou, citando Simone de Beauvoir. Livre, nua de vaidade, dona Fernanda sorria.

Eu sabia que estava diante da maior atriz brasileira. Mas, por longos minutos, fui envolvida por uma mulher simples, alguém de casa. Era como se eu pudesse esquecer os rótulos de sua grandeza para me concentrar apenas no que ela mostrava ali, num palco de teatro ao lado da minha casa. Nas coisas que eu não via ela dizer na televisão. 

O encanto quase quebrou para mim quando o público começou a fazer perguntas. Foi uma enxurrada de reverências a Fernanda Montenegro. Fiquei perdida, procurando a dona Fernanda debaixo dos confetes - merecidíssimos - que jogavam nela. Perguntaram qual a palavra que melhor a definiria. Ela respondeu: "Alegrinha". E eu pude me despedir de dona Fernanda com o coração tranquilo. (Illênia Negrin)



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