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Setecidades

Publicado em segunda-feira, 24 de novembro de 2008 às 10:38 Histórico

Resgatar animais de rua exige cuidados especiais

Resgatar um animal abandonado é um ato de amor, mas requer cuidados especiais para que o novo morador da casa não transmita doenças para humanos ou contamine outros bichos de estimação. Para que a boa ação não se torne desastrosa, o dono deve estar disposto a dispensar muita atenção e carinho e a gastar com cuidados veterinários.

A lista de moléstias transmissíveis entre animais e humanos é extensa. "Há doenças de pele, micoses, sarnas, além da leptospirose, que os animais contraem através do contado com a urina do rato; e a raiva, por meio da mordedura de morcegos", explica o chefe da Divisão de Veterinária e Zoonoses de São Bernardo, Paulo Francisco dos Santos.

No entanto, o fato de o animal estar debilitado não deve ser um impedimento para dá-lo a chance de ter uma nova vida, já que grande parte das moléstias pode ser identificada e, principalmente, evitada, com certa facilidade. "A maioria das doenças tem sintomas visíveis, a própria aparência do animal já indica se ele está doente. No entanto, somente um clínico poderá constatar se ele tem algo ou não", orienta Santos.

Os cuidados devem começar já na retirada de um cão ou gato da rua. "Um animal pode reagir de maneira violenta, tanto por medo como por se sentir ameaçado. Muitas vezes ele pode ter dores em conseqüências de traumas ou acidentes", explica o diretor do curso de Veterinária e do Hospital Veterinário da Uniban, José Alberto Pereira da Silva. "Ao se aproximar do animal, fique com as mãos expostas e, de preferência, dê algo para ele comer", completa.

Após o resgate, a primeira providência é levar o cão ou gato a um veterinário. "Antes de colocar esse animal no convívio de outros é necessário fazer uma consulta preventiva. Verificar se ele tem doença de pele, fazer exames de fezes, urina e sangue. Além dos exames clínicos, o veterinário irá orientar sobre banhos para conter possíveis parasitas, como piolhos e carrapatos", aconselha Silva. Nesse processo o novo animal também receberá as vacinas, como as de raiva, e deverá ser esterilizado.

Antes da confirmação de que o animal está sadio e livre de pragas, ele deve ficar separado de outros bichos e não deve transitar pela casa. "Um animal aparentemente sadio pode ser portador de doenças para os humanos", adverte o professor de veterinária. "A quarentena é muito relativa. Esse período de separação deve ser dado pelo profissional que atendeu o animal", comenta.

Nova chance - Um gato machucado e quase morto literalmente cruzou o caminho do professor de Educação Física Mauricio Gawendo, 39 anos. "Ele estava atravessando e caiu cambaleante no meio da rua. Tinha várias feridas e estava cheio de larvas", conta. A primeira providência foi levar o animal ao veterinário. "Estava totalmente debilitado, ferido, desnutrido e desidratado."

A clínica para onde o gato foi levado chegou a aconselhar a eutanásia, hipótese que foi descartada por Gawendo. Foram meses de tratamento com remédios, curativos e, principalmente, muitas despesas. Porém, o sacrifício valeu a pena. "Dois dias depois de ser resgatado, ele não andava e mal levantava a cabeça, comia na mão e tomava água na seringa. Quatro meses depois, estava totalmente recuperado, pesando quatro quilos", relata.

"Espero que o meu exemplo mostre a todos que é possível salvar um animal desacreditado, maltratado, largado na rua, como muitos que todos provavelmente já viram nas marginais e beiras de estradas", aconselha o professor.

A evolução do quadro clínico do gato, que recebeu o nome de Street (rua em inglês), pode ser conferida em diversos vídeos feitos por Gawendo postados o YouTube. No primeiro, feito três meses após o resgate, Street ainda anda com dificuldade. Na última postagem, dez meses depois, o gato já tem vida normal.

O gerente Euclides José Lanzarin, 46 anos, vivenciou a situação de Gawendo em pelo menos 21 ocasiões. Dono de 22 cães - apenas um comprado, da raça labrador - Lanzarin não fica indiferente quando se depara com um animal abandonado na rua.

Grande parte dos animais que cria já foi vítima de maus tratos. "Tenho um cachorro com 14 anos, nenhum cão sobrevive tanto tempo na rua. Ou seja, ele teve um dono que em um determinado momento não o quis mais", relata. "Tenho outro que foi amarrado em um poste, levou um tiro no olho e não morreu. Ficou tão traumatizado que quando alguém batia palmas ele se urinava", conta.

Com tantos cães, Lanzarin fica atento com os cuidados veterinários de cada animal que traz para casa. "Pego o cachorro e no mesmo dia levo ao veterinário, verifico se dá para castrar, vacinar. Se o cachorro está muito doente ele fica internado", relata. E aconselha: "Quando resgato um cão tenho o compromisso de amá-lo e cuidá-lo pelo resto de sua vida. Se você tirar da rua só por tirar com certeza vai voltar a abandoná-lo."

Outros animais - A adaptação com os animais que já moram na casa nem sempre é fácil, sobretudo quando se trata de gatos. "Precisa de muita paciência. É como quando você tem filhos e recebe a visita de um priminho. Os animais são muito ciumentos dentro daquilo que chamamos de domínio de território", explica o veterinário da Uniban.

De acordo com José Alberto Pereira da Silva, a primeira exposição do novo animal deve ser gradativa e supervisionada. "Se houver uma empatia não haverá risco algum. Mas o novo animal poderá fazer um ato que parecerá hostil ao outro e o dono deverá impedir essa agressão", avisa.

Silva explica que a aproximação costuma ser mais complicada no caso de felinos. "Os gatos têm muito apego ao seu território, então eles reagem de uma maneira mais 'irracional'. Costumo dizer que o cão é da casa e o gato é o dono casa", exemplifica.

Uma dica, que funciona tanto para gatos quanto para cachorros, é evitar acariciar o novo animal na frente do antigo. "O ideal é mostrar afeto pelo antigo morador da casa para que os dois possam conviver harmoniosamente", afirma. Em casos extremos, o veterinário aconselha procurar um especialista em comportamento animal.



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