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Dono do 'cao fila Km 26' resiste


Danilo Angrimani
Da Redaçao

30/03/2000 | 22:34


  Ele ficou famoso nos anos 70, quando pichava nos muros de Sao Paulo e das principais capitais do Brasil uma estranha inscriçao: "Cao Fila Km 26". Era a época da ditadura, e o pichador chegou a ser confundido com os guerrilheiros dos grupos comunistas que se opunham ao regime militar. Foi preso e levou uma dura de um coronel.

Hoje, Antenor Lara Campos, o Tozinho, 75 anos, se diverte quando lembra daquela época. "O coronel do Exército, antes de me soltar, me deu uma recomendaçao: `Tozinho, você só use tinta preta, porque a vermelha confunde com os comunistas'".

Tozinho é criador de caes fila e mora há 35 anos no Km 26 da Estrada do Alvarenga, em Sao Bernardo, num sítio de 30 mil m², banhado pela represa Billings. O Km 26, que aparecia na inscriçao, segundo Tozinho, nao existe. "A estrada termina no Km 25. Aumentei um por minha conta."

Avô dos pichadores, Tozinho provocava as pessoas com a enigmática inscriçao. Quem tem mais de 30 anos se recorda: "Cao Fila Km 26", que ele espalhava por muros, paredes, pontes, pedras, encostas, viadutos, casas abandonadas, carcaças de carros, enfim, em qualquer local visível e possível.

O pichador fazia incursoes ao interior do Estado e mesmo a outras cidades do Brasil. "A minha pichaçao escorria. Ficava horrível. Na época da ditadura, achavam que era alguma mensagem secreta. Foi o maior sucesso", relembra Tozinho, que ainda hoje cria caes fila.

Foram tantas pichaçoes e em tamanha profusao que Tozinho foi premiado por uma associaçao de publicidade e marketing. O prêmio, em dinheiro, ele nunca foi buscar. "Se eu aparecesse por lá e a polícia me pegasse, só o que eu teria de pagar de multa era 100 vezes o valor do prêmio."

Segundo Tozinho, muita gente "enriqueceu" as suas custas. "O pessoal faturava milhoes em cima de mim. De repente, todo criador de cao fila jurava que era na casa dele o tal do Km 26." Forte, esbanjando saúde, mas sem nenhum dente, o quase octogenário Tozinho disse que os últimos tempos estao mais para os gatos do que para os caes. O negócio de venda de caes fila estagnou, e seu sítio vive rodeado por gatunos. "A represa está empestada de ladrao", reclama, mostrando as bóias de demarcaçao de seu sítio e o ponto de onde, ele garante, "ninguém passa". "Se eu vejo o nego passando por ali, à noite, meto bala. Atiro mesmo."

Se sobreviver às balas de Tozinho, o pretenso ladrao precisará ainda passar por outra prova: uma matilha de caes fila, nao necessariamente amistosos, como pode se ler na entrada de seu sítio: "Nunca desça do carro".



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