
Se dependesse apenas de seu gênio, o intragável John Edgar Hoover (1895-1972) jamais ganharia uma cinebiografia. Mas sua história à frente do FBI e o contraste existente entre a vida pessoal e profissional o credenciam como personagem central de "J. Edgar", em cartaz no Grande ABC desde ontem.
O longa-metragem é o novo filme de Clint Eastwood, que, aos 81 anos, ainda tem sensibilidade o bastante para tirar de um sujeito truculento e irremediável lições humanas e sensíveis. Mesmo não estando entre as principais produções de sua carreira, o drama tem qualidade o bastante para superar muitas obras que chegam de Hollywood para os cinemas de todo o mundo.
Como sugere o título, a trama traz como protagonista J. Edgar Hoover (interpretado por Leonardo DiCaprio), responsável por modernizar todo o esquema investigativo norte-americano por meio de seu trabalho como diretor do FBI por cerca de 40 anos. As lendas que envolvem o protagonista são muitas e algumas delas estão presentes na tela, como o medo de políticos - incluindo até mesmo o presidente dos Estados Unidos - em relação a seu arquivo secreto e os abusos de poder para chantagear as pessoas em prol da segurança do país.
Apesar de soar como um filme de ação, a obra ganha ar dramático ao revelar como seria sua intimidade, inclusive o tenso e amoroso relacionamento com o companheiro de trabalho Clyde Tolson (Armie Hammer, os gêmeos Winklevoss de "A Rede Social"). A visão sutil de Eastwood quanto ao caso é essencial para que a situação não caia em campo cômico.
A boa atuação de DiCaprio também é destaque. Ele consegue viajar sem dificuldades pela a figura do homem extremamente rígido quanto ao serviço do bureau e o comprometimento de seus empregados. E também retrata o filho carinhoso com a mãe que tanto ama e que precisa manter a calma para não falar rápido demais.
Apesar do retrato do protagonista, o longa aborda principalmente a paixão, seja pelo trabalho ou pelos grandes amores de Hoover.