Década de 1930, a composição da metrópole paulistana em polvorosa, ainda regida segundo os costumes europeus. A preocupação de Mário de Andrade como diretor do Departamento de Cultura de São Paulo era uma só: resgatar as canções e os modos do folclore que era típico nacional, o ancestral indígena fundido ao afro-brasileiro, antes que ele fosse engolido pelo avanço do asfalto.
O clássico escritor de 'Macunaíma' pôs a campo quatro pesquisadores que percorreram as regiões Norte e Nordeste do País para registrar, catalogar e difundir a cultura das populações que lá viviam. Da missão, fez o livro 'Pequena História da Música Brasileira', que desdobrou-se em série de discos lançados já neste milênio. Com o lançamento do DVD-room 'Missão de Pesquisas Folclóricas - Cadernetas de Campo' (preço médio R$ 25), pelo Centro Cultural São Paulo, o acesso ao material fica mais simples.
A obra é composta pelas 21 cadernetas de anotações dos pesquisadores, com seleção de documentos, melodias, imagens gravadas e todas as fotografias realizadas durante a expedição.
"Mário acreditava que naquela região existiam as manifestações mais puras, sem influências do início da era do rádio e da Europa", conta Vera Lucia Cardim Cerqueira, coordenadora do projeto.
"Naquele período as coisas estavam se institucionalizando. Esse trabalho foi um dos primeiros sobre a cultura popular com metodologia, tanto que até hoje serve de parâmetro."
Os quatro pesquisadores - Luiz Saia (arquiteto e coordenador da equipe), Martin Braunwieser (músico), Benedicto Pacheco (técnico de som) e Antonio Ladeira (ajudante) - percorreram 23 cidades dos estados do Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco e Piauí.
Os acessos às regiões eram difíceis, feito por balsas e caminhão. "A religião afro-brasileira e seus costumes eram considerados feitiçaria ainda. Os registros são um importante documento da vida da população mestiça e negra brasileira."
RESGATE
"As cadernetas de campo são impressões do dia a dia. São intensas, imagina você entrando na vida dos pesquisadores desvendando comunidades e grupos que não eram deles, tentando compreender o universo em que estavam. Hoje, você tem acesso a muitas formas de visualizar a vida dos outros, mas naquela época não, era apenas o contar."
Luiz Saia se destaca na missão. É dele a maioria dos caderninhos e a sua pesquisa ultrapassou a busca por melodias. Arquitetura, religiosidade, artesanato, nada passou despercebido pelo seu olhar.
Para Vera Lúcia, a escrita das cadernetas não chega a ser literatura, mas traz resquícios de histórias que ultrapassam a etnografia e o folclore nacional. "São anotações rápidas, feitas para juntar nas folhas o máximo de registros possíveis de maneira organizada, mas entre uma coisa e outra você percebe o ser humano, por vezes cansado, em alguns momentos deslumbrado. Dá para perceber que a missão foi uma experiência única para eles."
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