Afastada da unidade da Receita Federal de Santo André desde julho, quando veio à tona o escândalo da violação do sigilo fiscal de tucanos, a servidora Addeilda dos Santos, 45 anos - lotada em Mauá - revelou que vem sendo obrigada a assinar o livro-ponto como se estivesse atuando no posto fiscal.
"Eles levaram a folha na minha casa, em Mauá, para eu assinar como se estivesse trabalhando normalmente. E também não era preenchida diariamente. A gente sempre assinava tudo no fim do mês", revelou, alegando não saber as razões de preencher o livro, mesmo estando afastada.
A servidora afirmou que não recebeu comunicado oficial para o afastamento do trabalho. "Falaram para me afastar e pronto. Meu chefe mandou. O corregedor da Receita também falou que eu tinha de estar à disposição."
Ela achou estranho o fato de a então chefe da unidade de Mauá, Antônia Rodrigues dos Santos, também acusada de envolvimento no vazamento das informações sigilosas, diminuir seu horário de trabalho, sem dar explicação convincente. "Eu deveria trabalhar das 8h30 às 17h30, mas a Antônia falou para que ficar das 8h até as 13h. Eu perguntei o motivo e ela falou que era para eu cuidar de minhas filhas."
Addeilda disse que costumeiramente o computador estava ligado, quando chegava para trabalhar. "Só estava o meu. Uma vez eu questionei e ninguém respondeu. Falei isso para o corregedor e ele falou que era normal."
Foi do computador de Addeilda, com uma senha master de Antônia - necessária para ter acesso às informações de contribuintes -, que foram violados os dados de pessoas ligadas ao presidenciável tucano José Serra. "A Antônia deixava as senhas todas anotadas em um risque-rabisque. Então, qualquer um que fosse à sala dela poderia pegar a senha e acessar os dados no computador."
Casamento - A servidora assegurou não saber se foi ela mesma que imprimiu os dados. O único acesso que ela garante que não fez foi o do vice-presidente nacional do PSDB, Eduardo Jorge, no dia 8 de outubro de 2009. "Nesse dia eu saí antes das 12h porque fui almoçar com meu marido para comemorar nosso aniversário de casamento." As impressões do Imposto de Renda ocorreram após esse horário. Apesar de não ser sua função imprimir dados fiscais, disse que não questionou os pedidos de Antônia. "Se um chefe manda, você não vai fazer?"
Não confiável - Addeilda admitiu que o sistema da Receita Federal é vulnerável. "Realmente, não dá para confiar na Receita Federal. Nem um pouquinho."
Ainda assim, argumentou não acreditar na existência de um balcão de negócios nas unidades de Mauá e Santo André. "Que eu saiba, não existe. Nunca ouvi nada sobre isso." Ela afirmou não saber o motivo de os acessos terem ocorrido no Grande ABC. "Não sei se tem a ver com política. Aliás, nem gosto disso. Quando alguém discute política, eu saio de perto."
A servidora afastada da Receita afirmou que sabe pouco sobre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). "Vejo alguma coisa na televisão. Mas não acredito em ninguém, Não vou votar em nenhum deles."