Entrar em uma empresa como trainee é uma grande oportunidade. Os salários costumam ser altos e vêm acompanhados de uma série de benefícios, como assistência médica, seguro de vida e participação nos lucros. Entretanto, para conseguir uma vaga e desfrutar de tantas vantagens é preciso dedicação e paciência. Os processos seletivos são longos e cansativos e a concorrência é acirrada.
Segundo a gerente de talentos do Grupo Foco (responsável pelo programa de trainee de mais de 40 empresas anualmente), Renata Schmidt, a carreira de um profissional contratado como trainee dá, literalmente, um salto. "A ascensão acaba sendo mais rápida do que quando a pessoa entra na empresa como um funcionário normal. Isso porque a empresa que recruta o trainee tem todo um trabalho de acompanhamento e treinamento diferenciado", afirma.
No geral, são exigidos dos candidatos o Ensino Superior com até dois anos de formação, inglês fluente, conhecimentos em espanhol e disponibilidade para mudanças de endereço.
"Tem também o perfil comportamental. As empresas pedem candidatos com boa comunicação, que saibam trabalhar em equipe, que tenham pró-atividade, dinamismo, iniciativa e potencial de liderança, dentre outras qualidades", afirma Renata Schmidt.
Como contrapartida, as empresas oferecem salários que vão de R$ 2,5 mil a R$ 4 mil, assistência médica e odontológica, vale refeição e vale transporte, seguro de vida, previdência privada, participação nos lucros e, em alguns casos, até 14º salário.
Concorrência - Tendo em vista tantos benefícios, a concorrência costuma ser grande. Segundo a gerente de talentos, cada vaga de trainee é disputada por uma média de 1,5 mil pessoas. Por isso, para selecionar no meio de tantos interessados aqueles que realmente se enquadram no perfil procurado pelas empresas, os processos seletivos costumam ser rígidos e compostos por várias etapas.
Desde julho, a estudante de Engenharia Elétrica Larissa Duarte, 25 anos, participa do processo seletivo da Ambev. Ela foi aprovada na análise curricular, nas provas on-line de inglês, português e atualidades, e na dinâmica em grupo. "Agora aguardo a data da entrevista individual, e ainda terei pela frente teste de raciocínio lógico e painel de negócios, entrevista em inglês e uma entrevista final", conta.
Mesmo considerando os testes cansativos, a estudante concorda que eles precisam ser rigorosos. "Acho que o processo é difícil para haver um grande filtro nas primeiras etapas. As provas on-line são extensas e o tempo para respostas é bem curto. A dinâmica tem por volta de quatro horas de duração, o que cansa bastante. Mas acho que vale a pena: serão cinco ou seis meses de desgaste que depois me ajudarão a alcançar um bom cargo em um menor espaço de campo", acredita Larissa.
Quem já passou por todas as etapas e conseguiu ser aprovado comenta que as vantagens compensam as dificuldades. Vicente Albuquerque Neto, 25 anos, foi contratado como trainee na Volkswagen em janeiro deste ano. "O processo é longo e puxado, mas vale muito a pena. A empresa traça um plano de desenvolvimento para cada funcionário e, durante 18 meses, o trainee passa por uma série de treinamentos. É possível formar uma boa rede de contatos e ter uma visão de negócios muito boa", comenta Neto. "O programa é para formar profissionais de alta performance", completa.
Em relação à permanência na empresa após a duração do programa (que geralmente acontece em um ou dois anos), as perspectivas são boas. "A grande maioria dos trainees continua na empresa. Eles já entram com contrato CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]", afirma Renata Schmidt.
Antes - O primeiro passo para quem deseja entrar em uma empresa como trainee é pesquisar. Muitos processos seletivos são abertos na mesma época (geralmente de julho a setembro) e sobram opções para o candidato escolher.
"Antes de se inscrever é importante que a pessoa verifique se a empresa tem realmente a ver com o perfil dela", afirma a gerente de talentos do Grupo Foco. Do contrário, ela avisa que o candidato e a empresa perderão tempo caso descubram, durante o processo, que seus perfis são completamente diferentes.
"Além disso, é preciso ficar antenado com o mercado e ler jornais e revistas. Uma pessoa bem informada transmite a sensação de que se preocupou com sua formação profissional. Também é importante ser sincero e estudar bastante", enumera Renata.
A estudante Larissa Duarte seguiu à risca as recomendações dos especialistas quanto à preparação para as etapas do processo seletivo. "Procurei saber mais sobre a empresa, além de fazer as provas com calma e bem descansada", conta.
Para o trainee Vicente Albuquerque Neto, o preparo começa muito tempo antes. "Esses processos de seleção não são iguais a um vestibular, que você estuda até passar. Trainee é uma direção de carreira e a preparação deve ocorrer ao longo da universidade. É um processo contínuo, que deve ser construído aos poucos", afirma.
É importante ressaltar que o candidato que não passou em um processo seletivo não deve desanimar. "Partimos do princípio de que todo candidato é bom, não existe nenhum ruim. Contudo, ele pode não ser o candidato que aquela empresa procura", pondera a gerente Renata Schmidt.
Durante - Os que pensam que todo o esforço termina quando conseguem a vaga estão completamente enganados. "Não se pode pensar: 'ufa, cansei. Agora acabou'. Na verdade, tudo está apenas começando", adverte Neto.
A rotina do trainee da Volkswagen é intensa. "Durante nosso treinamento, passamos por todos os setores da empresa para conhecer a rotina do trabalho e desenvolvemos projetos em cada uma dessas áreas. Temos também uma série de treinamentos sobre vários assuntos, como comunicação e gestão do tempo. No final do programa, desenvolvemos um projeto de relevância para a empresa. E a cada seis meses, nosso desempenho é avaliado pelos gestores da empresa", relata.
Depois - Na opinião de Vicente Albuquerque Neto, o principal benefício de quem passa por um programa de trainee é o amadurecimento pessoal e profissional. "Trabalhar em uma multinacional é uma escola. Você amadurece muito e leva a experiência para a vida toda", acredita.
"Mas é claro que depende do profissional. Ser um trainee não significa que você terá um futuro privilegiado, apenas que você possui um potencial muito grande. E depende de você desenvolver esse potencial", complementa.
A mesma visão é compartilhada pela gerente de talentos do Grupo Foco. "A pessoa amadurece bastante, pois as empresas trabalham com feedbacks constantes", garante Renata Schmidt. E adverte: "Ao longo do processo, as empresas investem no profissional. Mas é óbvio que ele precisa fazer sua parte, aproveitando essas chances de crescimento", conclui.