José Mojica Marins, 72 anos, diz que seus filmes são tachados de trash só no Brasil. Nos Estados Unidos, as produções que têm Zé do Caixão, ou melhor, Coffin Joe, como protagonista, são terror. E ponto. E o cineasta/intérprete tem razão - pelo menos no que se refere a Encarnação do Demônio, que, com 41 anos de atraso, fecha a trilogia do coveiro macabro. O longa estréia hoje no Grande ABC (Extra Anchieta e Multiplex Mauá) e na Capital. para amantes do gênero, com mais de 18 anos e estômago para cenas de crueza impensável nos anos 1960.
O orçamento continua baixo para os padrões atuais - R$ 1,8 milhão. Mas a ‘fita', como gosta de dizer Mojica Marins, é feita por gente de ponta do audiovisual brasileiro. A começar pelo produtor, o andreense Paulo Sacramento, que viabilizou o grande sonho do mestre do terror ao lado da Gullane Filmes.
Embora o cineasta tenha se valido de soluções criativas para imprimir horror às duas primeiras partes (À Meia-Noite Levarei Tua Alma, de 1964, e Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver, de 1967), os efeitos especiais são muito bem-executados. Ratos, aranhas, baratas reais e 3.800 litros de sangue cenográfico foram utilizados nas cenas. Alexandre Herchcovitch criou o figurino de Zé do Caixão e de outros personagens. O diretor Zé Celso faz ponta na seqüência em que Zé delira e imagina o purgatório.
Apesar do esquema profissional, o burlesco permanece para equilibrar com cenas de tortura muito mais realistas do que na época em que Coffin Joe era censurado pelo Regime Militar. Para justificar a passagem de tempo, o roteiro - de Mojica e de Dennison Ramalho - começa com Zé deixando a prisão. A busca pela mulher superior prossegue - agora numa favela. Zé tem como staff o corcunda Bruno (Rui Rezende) e um quarteto que parece saído de sessão sadomasô. Em seu encalço estão dois irmãos policiais (Adriano Stuart e Jece Valadão, em seu derradeiro papel).
Além de conquistar um séquito espontâneo, Zé decide capturar ‘espécimes' de todo tipo: orientais, negras, ruivas, tatuadas. E dá-lhe sangue (Mojica considera a parte mais violenta quando Zé suspende policiais em ganchos), canibalismo e, claro, sexo. ‘Terrir' de verdade.
Personagem de Mojica também ganha HQ
Luís Felipe Soares
Especial para o Diário
Aproveitando a onda de seu novo filme, o personagem de José Mojica Marins invade também os quadrinhos com o lançamento de Prontuário 666 - Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão (Conrad, R$ 24,90, 120 págs.).
O trabalho de dar nova vida nas HQ's a Zé do Caixão, que já foi desenhado por outros artistas, é do gaúcho Samuel Casal, responsável pelas ilustrações e pelo roteiro da história. "O personagem sempre me agradou, principalmente sua qualidade gráfica. Eu queria fazer um trabalho do Zé, mas com a minha cara, que tivesse minha identidade", explica o quadrinista, que lança seu primeiro trabalho solo.
O livro mostra a saga do coveiro mais popular do Brasil nos 40 anos em que ficou preso, graças aos seus crimes cometidos nos dois primeiros filmes da trilogia cinematográfica. Na prisão, aproveita o ‘zoológico humano' para matar, envenenar e fazer outras sórdidas experiências com aqueles que convivem com ele no cárcere.
No início, a idéia era que diversos artistas participassem do projeto, mas Paulo Sacramento, co-produtor de Encarnação do Demônio e idealizador do livro, não tinha arranjado outros quadrinistas além de Samuel. "Eu e o Paulo vimos o trabalho do Casal e dissemos: ‘Manda Ver'", lembra Mojica, referindo-se ao capítulo que o gaúcho entregou pronto rapidamente. Após o ‘ok', Prontuário 666 foi finalizado em apenas dois meses.
Apesar de funcionar como uma ponte entre os filmes da década de 1960 e a produção atual, o principal desafio era produzir algo que não dependesse de outras referências. Segundo Samuel, "queríamos um álbum que fosse independente. Quem não conhece o personagem, pode conhecer". Apesar de se tratar de diferentes artes, uma poderá ajudar a outra. "Se o filme estourar aqui e lá fora, nós levamos o Casal com a gente", afirma Mojica. (supervisão de Gislaine Gutierre)