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Missão que vai além de ensinar

O ‘ba’ de banana, o ‘ga’ de gato e o ‘ma’ de Madalena são apenas algumas, entre outras sílabas, que fazem parte do desafio diário de crianças que possuem algum tipo de deficiência intelectual. A missão de inserir este público no mundo das letras é parte da jornada da professora de Matemática e pedagoga Madalena Dornelas, 54 anos, que há 20 assumiu a responsabilidade de conduzir jovens à socialização e aprendizado, apesar de atuar como docente há 25 anos.

A jornada iniciada na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Minas Gerais, e estendida por 15 anos, resultou em experiência trazida ao Grande ABC em 2012. Após passagem por duas escolas de São Bernardo, a docente, natural de João Pinheiro, em Minas Gerais, chegou à EE Laura Lopes, em São Caetano. O projeto Desafios do Aprender, da professora Cláudia Mara, de Curitiba, foi ponto de partida para o trabalho desenvolvido com imagens, jogos e brincadeiras. A iniciativa ajuda crianças que possuem dificuldades intelectuais como a dislexia e deficiências cerebrais.

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O trabalho desenvolvido na instituição de ensino com oito crianças e adolescentes utiliza metodologia que, primeiramente, diagnostica a condição de alfabetização e conhecimento, para depois chegar à parte prática. O plano de atuação utiliza como principais ferramentas as sílabas das palavras. Primeiramente são ensinadas todas as sílabas com a vogal ‘A’, seguida por ‘O’, ‘U’, ‘I’ e, por último a vogal ‘E’.

“A partir da identificação da junção das letras, o próximo passo é o reconhecimento de palavras, seguido pela associação com imagens, fator que contribui para a memorização. Normalmente os alunos têm mais facilidade para ler do que para escrever, devido à dificuldade de traduzir ideias para o papel”, afirma Madalena.

As etapas, que continuam com a identificação e reprodução de cores, números, figuras geométricas e operações matemáticas são repetidas insistentemente na tentativa de estimular a retenção do conteúdo.

Alguns dos estudantes que formulam frases, textos e desenhos nas aulas integram o livro da docente intitulado Contos dos Amigos: Alfabetização e Letramento de Alunos com Deficiência e Dificuldade de Aprendizagem, lançado em novembro, no qual ela traz os métodos Fônico e Sodré de alfabetização, além de linguagem simples e exercícios que são utilizados n a metodologia. “É a minha vida, porque amo o que faço. O objetivo é mostrar que eles têm capacidade e que no tempo deles, conseguem alcançar o sucesso. Vibro com cada vitória deles, porque é uma sensação gostosa”, diz Madalena.

Na opinião da psicopedagoga Marisa Domingos, 46, as crianças que têm dificuldade de aprendizagem devem ser incluídas normalmente na sala de aula, sem limitar o tipo de trabalho quanto aos recursos ou igualar aos outros. O atendimento especializado, que deve ser feito fora do período convencional, deve ser feito com base em determinados critérios, como o ponto de partida, análise do conhecimento já existente e o objetivo que pode ser alcançado.

“É necessário ter coesão entre o que a criança precisa, o estímulo e a parte social. O aluno com deficiência intelectual só vai construir conhecimento se a aprendizagem for significativa. São necessárias coisas concretas para que ela faça a relação entre o conteúdo novo e o que já foi aprendido”, considera a profissional. Ela acrescenta que devem ser desenvolvidas “diferentes estratégias de ensino e aprendizagem, de forma a proporcionar melhor interação, participação e desenvolvimento das propostas, possibilitando o acesso ao conhecimento.”

Reflexo do método é sentido por pais e alunos

A difícil arte de aprender ou ensinar é levada ao extremo a partir do momento em que a sala de aula não é apenas um espaço de copiar, colar e introjetar conteúdos nas mentes de jovens. A necessidade de capacitação é reconhecida por aqueles que têm, na figura de uma docente, a perspectiva de futuro promissor.

O acompanhamento clínico feito há anos foi deixado de lado na fala da operadora de caixa Izabel Cristina Masson, 38 anos, que estava na sala de aula com a filha Emily Cristina Masson Melo, 15, aluna do 8º ano do Ensino Fundamental e portadora de deficiência intelectual, identificada logo aos dois anos e meio devido à dificuldade de socialização. Os quatro meses de aulas com Madalena emocionam a mãe.

“Ela não conseguia falar meu nome e agora já consegue, apesar de ter ficado receosa por um tempo. Isso não tem explicação, mas a minha vontade é a de que saísse tudo de uma vez. Sempre que ela tem alguma evolução a Madalena me chama para mostrar o que conseguiram”, afirma.

Apesar de falar com dificuldade, o sorriso no rosto que abriga olhos que ora parecem verdes, ora parecem azuis, é fator que traduz a importância da atividade. Além de aprender, Emily gosta de tomar para si o papel de professora, segurando as cartas à mão enquanto repete sílabas como o ‘ga’ de gato e o ‘Ma’ de Madalena, além de colocar pequenos pedaços de plástico coloridos em uma espécie de bingo enquanto identifica as sílabas.

“Falei para a Madalena não nos abandonar porque é um trabalho perfeito, que não podemos ficar sem. Em casa tentamos praticar a fala, porque a cada dia ela aprende uma palavra nova, além de conseguir ler pausadamente”, comemora Izabel.

A aluna Grazieli Souza do Nascimento, 18, também portadora de deficiência intelectual, gosta das atividades desenvolvidas. Ela conta que aprendeu muito na trajetória ao longo do ano. “Foi legal (ver meu nome no livro), aprendi muitas coisas e vou guardar o livro pelo resto da vida”, revela.

Na rede estadual, São Bernardo (616), Santo André (595) e São Caetano (61) contam com alunos que possuem deficiência intelectual. Apesar de questionado, o Estado não informou sobre políticas educacionais semelhantes, nem se pensa em implementação.


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