Setecidades

Triste Ano-Novo


Tinha tudo para ser o início de um ano repleto de mudanças para o pequeno André Naja Almeida dos Santos, 10 anos. Mas não foi. Às 6h de ontem, primeiro dia de 2018, o garoto teve sua vida interrompida ao ser atingido por destroços de sua própria casa, no Jardim Kennedy, em Mauá. Ele tornou-se a primeira vítima de deslizamento na região após três anos sem fatalidades e desde que a CGE (Central de Gerenciamento de Emergências) do Grande ABC foi instalada, em dezembro.

A moradia de quatro cômodos, sendo dois feitos de madeira, onde André morava com seus pais e outros quatro irmãos foi atingida por outra residência durante um desmoronamento de terra. Construídas de maneira irregular em área de risco, com vegetação densa e íngreme, na viela Elis Bertolino dos Santos, ambas eram monitoradas pela Defesa Civil do município, no entanto, o trabalho não foi suficiente para prevenir a tragédia. O Corpo de Bombeiros ainda investiga as causas do incidente.

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Fã de Naruto e skate, o pequeno André assistia a desenho no notebook quando o deslizamento ocorreu. “Estava deitado com ele na cama quando escutei o barulho de pedra descendo e saí correndo pela porta da frente. Foi aí que me lembrei dele e voltei para tirá-lo de lá”, recordou Gabriel Naja Almeida dos Santos, 17, irmão de André.

O garoto chegou a ser socorrido por vizinhos, porém, não resistiu aos ferimentos, e teve uma parada cardiorrespiratória. “Os bombeiros demoraram para chegar (cerca de uma hora). Tiramos ele com vida, mas não conseguimos reanimá-lo depois”, afirmou Gabriel.

O deslizamento também deixou ferido o pai do garoto, o autônomo Kleber Alexander dos Santos, 40. Ele chegou a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado para o Hospital de Clínicas Dr. Radamés Nardini, onde foram constatadas escoriações no tornozelo direito.

“Na hora do socorro só pensei nos meus filhos. Lembro que o pessoal chegou a tentar me tirar de lá, mas disse para eles (equipe médica) socorrerem primeiro o André. Na hora até escutei eles falando que estava tudo bem, mas depois que tive alta me falaram da morte dele”, disse Santos, ao se recordar do pedido do filho na véspera do Ano-Novo. “Ele sempre pedia para ir comigo vender panos de pratos. Na virada, chegou até a perguntar se iríamos trabalhar nesta semana, pois ele queria R$ 10 para comprar pipa. Acabou que de tão bom que ele era Deus levou ele para um lugar melhor. Agora o que nos resta é lutar aqui na terra por ele.”

O corpo de André foi encaminhado, ainda no período da tarde, para o IML (Instituto Médico-Legal) de Santo André. Na casa de parentes, a comoção tomou conta de todos. Abalada com a tragédia, a mãe do garoto, Rosane Naja de Almeida, 39, chegou a ser medicada com calmante.

PREJUÍZO - Proprietária do outro barraco que desabou durante o incidente, a diarista Carina Estela Ramos, 29, ainda tentava recuperar, ontem, os poucos móveis que lhe restaram após a tragédia. Na casa onde morava com seu marido e cinco filhos, somente a cozinha resistiu ao desmoronamento. “Perdi tudo que tinha e não tinha. Para você ter uma ideia, no Réveillon tive que comprar fiado dois quilos de bife e linguiça por R$ 30 para fazer uma janta honesta que meus filhos pediram. Agora me diz, para onde vou se não tenho nem dinheiro para pagar aluguel?”, questionou ela, que sobrevive de ‘bicos’. “Hoje (ontem) foi o filho deles, mas amanhã podem ser os meus filhos”, enfatizou.

Segundo a Prefeitura de Mauá, as duas famílias que perderam suas casas terão disponibilizados recursos financeiros do bolsa-aluguel. O valor, porém ,não foi informado. A administração municipal diz ainda que já havia notificado as famílias do local para deixarem a área considerada de risco há mais de dez anos. Os moradores, no entanto, negam a informação. “O que nos disseram no início do ano foi que o pessoal de baixo iria sair, e nós teríamos a regularização do esgoto e água, somente”, disse Carina.

A promessa de outras gestões, segundo moradores, era a de que famílias que residem em áreas de risco no Jardim Kennedy seriam realocadas em conjunto habitacional na Rua Capitão Rufino Ângelo Ramos, localizado a menos de cinco minutos do local da tragédia. A construção, no entanto, conforme noticiado no ano passado pelo Diário, está com obras paralisadas há mais de oito anos e, atualmente, é ocupada por outras famílias.

OUTRA REALIDADE - A poucos metros dali, moradores do Jardim Kennedy, área periférica de Mauá, muitas famílias ainda celebravam na tarde de ontem a chegada de 2018. Embora destacassem, de modo geral, a lamentação pela morte do garoto, muitos dos vizinhos ouviam música alta e faziam churrasco horas depois da tragédia, como se tratasse de algo rotineiro.
 

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