Lupércio preparou as iscas, os anzóis, a vara, as botas, o repelente e, como um pescador profissional, saiu, mas antes deu um beijo na mulher.
Magali não gostava muito da ideia de pescarias do marido, nos fins de semana, pois ficava em casa sozinha e nunca podia contar com peixes que raramente ele pescava. Começou a desconfiar dessa aventura.
Imaginava qual seria a conversa mole desta vez: "fisguei só peixinhos miúdos e acabei usando como isca", ou "aquele peixe enorme escapou de novo".
Lupércio chegou com outra conversa. Foi logo dizendo que perdera a aliança quando lançava o anzol na água. Foi a gota da água para Magali:
- Eu bem que estava desconfiada dessa pescaria... Você tem outra. Tirou a aliança para se passar de solteiro e acabou perdendo!
E continuou:
- Lupércio Martins Isaias (era pelo nome todo que ela chamava o marido quando estava irritada), você nunca foi pescar. O único peixe que você pesca é piranha!!!
- Chega!!! Eu não vou ouvir mais essas acusações sem fundamento!
Saiu calado e assim durante toda a semana o casal não se falou. Até que no sábado o marido se aprontou para uma nova pescaria e Magali disse que dessa vez iria junto.
Já na beira do rio, apesar de não conversarem, e isso era bom pois não espantava os peixes, Lupércio ajudou a mulher a colocar a isca no anzol.
Pouco depois o silêncio foi quebrado com um grito de socorro. Era Magali que acabara de fisgar um peixe enorme de pelo menos quatro quilos.
Felizes voltaram para casa e Magali orgulhosa foi preparar o peixe. Começou tirando as escamas e depois a cortar, quando percebeu alguma coisa estranha na barriga do peixe. Era uma aliança com um nome gravado: Magali. O jantar dessa vez saiu caprichado para o maridão.
Fernandes é ilustrador do Diário.