Diário do Grande ABC

Cotidiano

Mundo tecnológico

10/10/2011

Embora pouca coisa me cause surpresa nesse princípio de século, volta e meia, flagro minha atenção inteiramente voltada para um ponto qualquer

Embora pouca coisa me cause surpresa nesse princípio de século, volta e meia, flagro minha atenção inteiramente voltada para um ponto qualquer, único no mundo que me obriga a deixar de lado todos os demais movimentos à minha volta só para contemplá-lo. E o tempo, tenho a impressão, passa muito devagar nessas horas. É possível até que fique preso, quase que congelado naquele quadro de aparência banal. Pensamentos, então, permeiam minha mente de observador contumaz. Mente sempre atenta para o fato que, afinal de contas, é pedra que forma o mosaico da vida e nos permite mergulhar em devaneios diante da diversidade.

Outro dia, por exemplo, estive às voltas com uma cena que me levou a pensar sobre a modernidade que nos sujeita e seduz. Era uma garotinha bonitinha que, certamente, não atingira um ano e pouco, e fazíamos parte, eu e ela, de uma plateia que assistia a um espetáculo, momentaneamente deixado de lado, usurpado pela encantadora presença. A pequena sequer tomou conhecimento de que eu a espiava, pois sentada como estava no colo da mamãe, logo à minha frente, passava carinhosamente o dedinho distraído pelo display de um telefone celular, desses que basta uma esfregadela e lá está a mudança de imagem. Maravilha de invenção! Era uma sequência de fotos, obviamente de gente conhecida da menina que sorria ao apreciar cada uma.

Interessante que há pouco muito se falou da geração controle remoto, a mesma que agora da lugar a uma outra geração, oriunda da ousada era digital. A menininha, por fim, sem se dar conta, levou-me a viajar por uma questão estampada na cara da sociedade, cujo comportamento a lasca de silício alterou. Até porque as pessoas, nos dias de hoje, não conseguem mais imaginar uma existência sem o aparato tecnológico. Em especial, alguns equipamentos que viciam a olhos vistos. Uma parcela da população, inclusive, já é perigosamente refém desse poder. São garotos, de qualquer sexo, que desde tenra idade aprendem a cutucar impiedosamente aparelhos celulares e afins, em qualquer lugar, a qualquer hora. O dedo nervoso não concede à máquina um só instante de sossego. Música e jogos são o deleite dos meninos que até em sala de aula permanecem com a atenção voltada para a tela, para o bluetooth, para os sons infernais... Eles não sabem, mas o gênio que desenvolve a diversão, com certeza, não impingiu à sua escola desprezo tão requintado, já que não é possível conceber tamanho avanço sem conhecimento. Mas não importa. Fato é que lidar com tudo isso virou mesmo mania, obsessão a ponto de permanecer vivo três ou quatro dias sem oxigênio um sujeito que morre em instantes se lhe arrancarem das mãos o brinquedo. No caso dos celulares, a molecada até esqueceu que também há nele uma função de telefone.

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